Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Pedro Porfírio
Já não há mais como encobrir o golpe das vendas em massa sem suporte para cobertura e atendimento. O tão decantado mercado da telefonia celular fez água, entrou em pane e a bolha estourou. Não se iluda: todo esse caos não é de hoje. O sistema está cheio de furos há muito tempo e deitava e rolava aproveitando o deslumbramento dos brasileiros com seus brinquedinhos que viraram febre de consumo, enquanto a Anatel fazia que não via o que hoje já não pode esconder.
Neste momento, as operadoras estão nuas, as vísceras à mostra. Arrebentaram as veias cândidas da população cansada de pagar mais da conta por um verdadeiro faz de conta. Não dá mais para esconder que compramos gato por lebre. Agora é oficial: o serviço está bichado.
Bem que a Anatel tentou dar cobertura à falta de cobertura dos aparelhos, bem que ela empurrou o caos com a barriga até quando deu. Porque boa parte do pessoal dessa agência reguladora foi recrutada nas teles, sob encomenda. Ou você não sabia?
Aí, justiça seja feita: a senhora presidenta deu uma senhora dura nos cabeças da Anatel, que desfrutam de um mandato de 4 anos e, portanto, não estão nem aí para os truques que operavam sobre o existencial do cidadão, oferecendo um tal tipo de compensação que revestiu o aparelhinho multiuso em uma espécie de símbolo fálico numa sociedade de consumo imatura e facilmente susceptível aos encantos dos cantos da sereia.
O caos é muito mais grave do que aflorou nesses dois últimos dias. E não é só por causa das sombras que inviabilizam comunicações. O "X" da questão é a roubalheira de que são vítimas os consumidores sem ter como se queixar diante da inoperância do atendimento à distância.
Roubalheira, sim. Formação de quadrilha. Pacto para enganar os incautos. A prática é própria dos picaretas inescrupulosos: fazem contratos por telefone ou na própria loja, o cliente não tem por hábito ler, mas se tiver não faz diferença.
Quando não vale o escrito
Não vale porque o colchão de sustentação da impunidade é regado a muita propina e gentilezas. Gentilezas que começaram quando o celular era privilégio de uns poucos. Naqueles idos, tão logo meteram a mão nas redes encontradas, que sofreram muito pouco de modernização, trataram de presentear jornalistas e autoridades da área com aparelhos e outras guloseimas.
Pedro Porfírio é Jornalista, Escritor e Teatrólogo.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
quarta-feira, 25 de julho de 2012
A falência do ensino da matemática
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Vinhosa
Em meados de 2011, recebi um telefonema de uma mãe, desesperada, perguntando quanto eu cobraria para dar aulas particulares de matemática para seu filho.
Ela tinha ouvido a entrevista por mim dada ao Programa Adilson Ribeiro, na Rádio Itaperuna. Em tal entrevista, eu havia me oferecido para ensinar matemática básica, gratuitamente, a grupos de alunos de escolas públicas. Além disso, na entrevista, eu havia afirmado que não dava aulas particulares em razão de um inconciliável conflito de interesses: a aula particular é cara para o aluno e barata para o professor.
Dona Gisele, a mãe do menino, disse que resolveu me procurar pelo fato de eu ter afirmado que os pais nunca devem culpar os filhos antes de verificarem as razões que levaram a criança a detestar a matemática, pois, na maioria das vezes, a culpa não é da criança, e, sim, de algum professor, o atual, ou um ex-professor.
Então, ela explicou-me que estava à espera do resultado do eletro encefalograma que havia mandado fazer no filho para saber se o menino tinha algum problema neurológico. Falou-me que já havia levado o filho ao oftalmologista, e o mesmo constatou não haver problema de vista. Informou-me, ainda, que mandou fazer tais exames no filho porque a professora havia afirmado que o menino, de apenas oito anos, tinha alguma deficiência que o incapacitava para a matemática.
Resolvi ajudar, sensibilizado pela perturbação que as “deficiências matemáticas” estavam causando na vida da família (a mãe já estava à beira de um colapso nervoso, e o filho já não mais agüentava a pressão a que estava sendo submetido).
Ao final, o problema foi resolvido a contento, e, como esperado, o resultado do eletro encefalograma também não detectou nenhuma anomalia. O menino é sadio. Como em outros casos semelhantes, quem precisa de médico é a professora.
O caso acima relatado me remete ao objetivo deste artigo, que é falar das deficiências do ensino da matemática. Tratarei, aqui, de dois aspectos do complexo problema: a qualidade dos livros distribuídos pelo MEC e o nível de capacitação dos alunos de escolas públicas.
Qualidade dos livros do MEC
Falarei do livro didático adotado para o 3° ano da Escola Chequer Jorge, de Itaperuna-RJ. Tomei conhecimento dele por ser o livro utilizado pelo jovenzinho de oito anos, que foi julgado incapaz de seguir os ensinamentos.
Tomei um susto com o livro de – pasmem! – 264 páginas. Repleto de figuras, desenhos e gráficos, o livro distribuído pelo MEC contém palavras e expressões que atemorizam os alunos. A seguir, darei alguns exemplos.
Na página 5, o livro apresenta os “ícones utilizados” para indicar “trabalhos com temas transversais” como “formação cidadã” e “pluralidade cultural”.
Na página 7, o livro indica o que será visto na unidade referente à “localização e simetria”. Coisas como “trajetos em malhas quadriculadas”, “simétrica de uma figura”, “padrões” e “mosaicos”.
Na página 41, é pedido para encontrar o resultado de uma adição usando a “reta numérica”.
Nas páginas 80 e 81, nossos pequeninos fazem uma viagem ao mundo dos “pictogramas”.
As páginas 204 e 205 são dedicadas a um estudo da “árvore de possibilidades”. Francamente, temi que o livro fizesse uma iniciação à análise combinatória. Meu temor não foi confirmado; no entanto, na página 260, o autor não resiste, e propõe o seguinte problema para a garotada de oito anos: “Com 2 blusas e 3 saias, quantas são as possibilidades de combinação para a escolha de 1 blusa e de 1 saia?”.
Após farta utilização de termos não familiares aos iniciantes – “ábaco”, “algoritmo usual da divisão”, “tempo de gestação dos animais”, “estratégia”, “simetria”, “polígono”, “vértice”, “gráficos”, etc. – o autor se supera, e, das páginas 250 a 255, leva a galera à loucura, ao apresentar coisas como “planificação de um prisma de base pentagonal”, “planificação de uma pirâmide de base hexagonal” e “planificação de um cilindro”.
Feito esses breves comentários sobre o livro que o MEC está distribuindo para nossos garotos de 8 anos, passo ao outro aspecto da questão.
Nível de capacitação dos alunos de escolas públicas
Em meados de 2011, me ofereci para aplicar, gratuitamente, um cursinho de matemática básica aos alunos que estivessem cursando o 8° e 9° período em dois determinados colégios municipais (Ligiéro e Nossa Senhora das Graças) localizados em Itaperuna-RJ.
A proposta era estudar toda a álgebra (equação de primeiro grau, sistema de equações e equação de segundo grau) e as ferramentas necessárias à resolução de problemas da matéria (frações, números relativos, potências, raízes, etc.), atentando para uma verdade incontestável: a principal razão das dificuldades encontradas no aprendizado de matemática é o fato de – para se entender determinada parte da matéria – ser necessário o conhecimento anterior de assuntos a ela interligados.
Resumidamente, dois foram os princípios obedecidos no planejamento do curso. Primeiro: a única maneira de uma pessoa se capacitar em matemática é “entendendo” a matéria, o que significa que não existem “métodos milagrosos”. Segundo: para que se “entenda” matemática de maneira rápida e eficiente, o estudo tem que ser feito “a partir do zero”, selecionando o que, de fato, é importante.
Para concretizar a proposta, escrevi todo o material didático na ordem que achei mais conveniente ao completo entendimento da matéria; além de trocar a ordem normalmente usada nas grades escolares, tirei todo o “lixo” do caminho.
Como os pré-requisitos para participar do cursinho eram o domínio das quatro operações e a capacidade de ler e interpretar pequenos textos (para saber o que um problema dá, e o que ele pede), os candidatos tiveram que se submeter a uma prova por mim preparada e corrigida. Em consonância com seu objetivo, a prova de seleção constou de vinte pequenos problemas a serem resolvidos em vinte minutos
Trezentos jovens, na faixa de 13 a 15 anos de idade, participaram da prova. 14 alunos foram selecionados, por terem acertado as 20 questões propostas. Por outro lado, uma preocupante situação ficou exposta: 197 dos 300 alunos que competiram não conseguiram acertar mais que 14, das 20 questões da prova.
Tal fato demonstra que 2 em cada 3 alunos não têm a mínima condição de entender as aulas de matemática que estão sendo dadas nos citados colégios, por melhor que sejam seus atuais professores.
Incontestavelmente, a culpa não é dos alunos, nem dos atuais professores, mas sim do sistema, que facilitou, em anos anteriores, a aprovação de alunos despreparados.
Pior: com toda a certeza, tais despreparados alunos serão “empurrados” para frente até fazerem jus às vagas reservadas no nível superior pelo sistema de cotas. Tudo, sob as vistas complacentes de nossas autoridades da área de educação.
Conclusão
Por certo, o problema que foi comprovado com essa pesquisa prática realizada junto aos jovens de escola pública de Itaperuna-RJ se repete por todo o país, formando uma geração prejudicada.
Diante desse cenário desolador, válido torna-se concluir: é impossível resgatar esses alunos – que, hoje, circulam como autênticos zumbis dentro das salas de aula – sem a disponibilização de um curso básico de matemática que seja rápido e eficiente.
Contudo, uma coisa deve ser ressaltada: em nenhum momento, o “entendimento”, aspecto indispensável ao domínio da Matemática, pode ser prejudicado pela busca da rapidez e da eficiência. E, devido ao fato de existir uma interligação entre diversas partes da matemática, tal curso deve capacitar seus participantes a partir dos conhecimentos mais elementares da matéria.
João Vinhosa é Engenheiro - joaovinhosa@hotmail.com
Por João Vinhosa
Em meados de 2011, recebi um telefonema de uma mãe, desesperada, perguntando quanto eu cobraria para dar aulas particulares de matemática para seu filho.
Ela tinha ouvido a entrevista por mim dada ao Programa Adilson Ribeiro, na Rádio Itaperuna. Em tal entrevista, eu havia me oferecido para ensinar matemática básica, gratuitamente, a grupos de alunos de escolas públicas. Além disso, na entrevista, eu havia afirmado que não dava aulas particulares em razão de um inconciliável conflito de interesses: a aula particular é cara para o aluno e barata para o professor.
Dona Gisele, a mãe do menino, disse que resolveu me procurar pelo fato de eu ter afirmado que os pais nunca devem culpar os filhos antes de verificarem as razões que levaram a criança a detestar a matemática, pois, na maioria das vezes, a culpa não é da criança, e, sim, de algum professor, o atual, ou um ex-professor.
Então, ela explicou-me que estava à espera do resultado do eletro encefalograma que havia mandado fazer no filho para saber se o menino tinha algum problema neurológico. Falou-me que já havia levado o filho ao oftalmologista, e o mesmo constatou não haver problema de vista. Informou-me, ainda, que mandou fazer tais exames no filho porque a professora havia afirmado que o menino, de apenas oito anos, tinha alguma deficiência que o incapacitava para a matemática.
Resolvi ajudar, sensibilizado pela perturbação que as “deficiências matemáticas” estavam causando na vida da família (a mãe já estava à beira de um colapso nervoso, e o filho já não mais agüentava a pressão a que estava sendo submetido).
Ao final, o problema foi resolvido a contento, e, como esperado, o resultado do eletro encefalograma também não detectou nenhuma anomalia. O menino é sadio. Como em outros casos semelhantes, quem precisa de médico é a professora.
O caso acima relatado me remete ao objetivo deste artigo, que é falar das deficiências do ensino da matemática. Tratarei, aqui, de dois aspectos do complexo problema: a qualidade dos livros distribuídos pelo MEC e o nível de capacitação dos alunos de escolas públicas.
Qualidade dos livros do MEC
Falarei do livro didático adotado para o 3° ano da Escola Chequer Jorge, de Itaperuna-RJ. Tomei conhecimento dele por ser o livro utilizado pelo jovenzinho de oito anos, que foi julgado incapaz de seguir os ensinamentos.
Tomei um susto com o livro de – pasmem! – 264 páginas. Repleto de figuras, desenhos e gráficos, o livro distribuído pelo MEC contém palavras e expressões que atemorizam os alunos. A seguir, darei alguns exemplos.
Na página 5, o livro apresenta os “ícones utilizados” para indicar “trabalhos com temas transversais” como “formação cidadã” e “pluralidade cultural”.
Na página 7, o livro indica o que será visto na unidade referente à “localização e simetria”. Coisas como “trajetos em malhas quadriculadas”, “simétrica de uma figura”, “padrões” e “mosaicos”.
Na página 41, é pedido para encontrar o resultado de uma adição usando a “reta numérica”.
Nas páginas 80 e 81, nossos pequeninos fazem uma viagem ao mundo dos “pictogramas”.
As páginas 204 e 205 são dedicadas a um estudo da “árvore de possibilidades”. Francamente, temi que o livro fizesse uma iniciação à análise combinatória. Meu temor não foi confirmado; no entanto, na página 260, o autor não resiste, e propõe o seguinte problema para a garotada de oito anos: “Com 2 blusas e 3 saias, quantas são as possibilidades de combinação para a escolha de 1 blusa e de 1 saia?”.
Após farta utilização de termos não familiares aos iniciantes – “ábaco”, “algoritmo usual da divisão”, “tempo de gestação dos animais”, “estratégia”, “simetria”, “polígono”, “vértice”, “gráficos”, etc. – o autor se supera, e, das páginas 250 a 255, leva a galera à loucura, ao apresentar coisas como “planificação de um prisma de base pentagonal”, “planificação de uma pirâmide de base hexagonal” e “planificação de um cilindro”.
Feito esses breves comentários sobre o livro que o MEC está distribuindo para nossos garotos de 8 anos, passo ao outro aspecto da questão.
Nível de capacitação dos alunos de escolas públicas
Em meados de 2011, me ofereci para aplicar, gratuitamente, um cursinho de matemática básica aos alunos que estivessem cursando o 8° e 9° período em dois determinados colégios municipais (Ligiéro e Nossa Senhora das Graças) localizados em Itaperuna-RJ.
A proposta era estudar toda a álgebra (equação de primeiro grau, sistema de equações e equação de segundo grau) e as ferramentas necessárias à resolução de problemas da matéria (frações, números relativos, potências, raízes, etc.), atentando para uma verdade incontestável: a principal razão das dificuldades encontradas no aprendizado de matemática é o fato de – para se entender determinada parte da matéria – ser necessário o conhecimento anterior de assuntos a ela interligados.
Resumidamente, dois foram os princípios obedecidos no planejamento do curso. Primeiro: a única maneira de uma pessoa se capacitar em matemática é “entendendo” a matéria, o que significa que não existem “métodos milagrosos”. Segundo: para que se “entenda” matemática de maneira rápida e eficiente, o estudo tem que ser feito “a partir do zero”, selecionando o que, de fato, é importante.
Para concretizar a proposta, escrevi todo o material didático na ordem que achei mais conveniente ao completo entendimento da matéria; além de trocar a ordem normalmente usada nas grades escolares, tirei todo o “lixo” do caminho.
Como os pré-requisitos para participar do cursinho eram o domínio das quatro operações e a capacidade de ler e interpretar pequenos textos (para saber o que um problema dá, e o que ele pede), os candidatos tiveram que se submeter a uma prova por mim preparada e corrigida. Em consonância com seu objetivo, a prova de seleção constou de vinte pequenos problemas a serem resolvidos em vinte minutos
Trezentos jovens, na faixa de 13 a 15 anos de idade, participaram da prova. 14 alunos foram selecionados, por terem acertado as 20 questões propostas. Por outro lado, uma preocupante situação ficou exposta: 197 dos 300 alunos que competiram não conseguiram acertar mais que 14, das 20 questões da prova.
Tal fato demonstra que 2 em cada 3 alunos não têm a mínima condição de entender as aulas de matemática que estão sendo dadas nos citados colégios, por melhor que sejam seus atuais professores.
Incontestavelmente, a culpa não é dos alunos, nem dos atuais professores, mas sim do sistema, que facilitou, em anos anteriores, a aprovação de alunos despreparados.
Pior: com toda a certeza, tais despreparados alunos serão “empurrados” para frente até fazerem jus às vagas reservadas no nível superior pelo sistema de cotas. Tudo, sob as vistas complacentes de nossas autoridades da área de educação.
Conclusão
Por certo, o problema que foi comprovado com essa pesquisa prática realizada junto aos jovens de escola pública de Itaperuna-RJ se repete por todo o país, formando uma geração prejudicada.
Diante desse cenário desolador, válido torna-se concluir: é impossível resgatar esses alunos – que, hoje, circulam como autênticos zumbis dentro das salas de aula – sem a disponibilização de um curso básico de matemática que seja rápido e eficiente.
Contudo, uma coisa deve ser ressaltada: em nenhum momento, o “entendimento”, aspecto indispensável ao domínio da Matemática, pode ser prejudicado pela busca da rapidez e da eficiência. E, devido ao fato de existir uma interligação entre diversas partes da matemática, tal curso deve capacitar seus participantes a partir dos conhecimentos mais elementares da matéria.
João Vinhosa é Engenheiro - joaovinhosa@hotmail.com
terça-feira, 24 de julho de 2012
A Justiça se acostumou a viver em ‘torres de marfim’
Artigo no Fique Alerta - www.fiquealerta.net
Por O Globo
O fato de magistrados se rebelarem contra uma lei e decidirem contrariar determinação do órgão de controle da Justiça lembra atitudes de corporações sindicais. Tão ou mais grave que o fato em si é a motivação dele: os rebelados se opõem à aplicação nos tribunais da Lei de Acesso à Informação, passo importante no processo de democratização do país. São contra a transparência no destino dado ao dinheiro do contribuinte — pelo menos nas Cortes —, um requisito de qualquer sociedade moderna.
Em reunião realizada na quarta-feira pelo Colégio Permanente de Tribunais de Justiça, os 24 presidentes dos TJs se colocaram contrários à resolução do Conselho Nacional de Justiça — cujo presidente é o mesmo do Supremo Tribunal Federal, ministro Ayres Britto — que estabeleceu ontem o dia do esgotamento do prazo para a divulgação da lista nominal de juízes e servidores do Judiciário, com respectivos salários e adicionais. Como determina a lei. ...
Mas, felizmente, não há uma posição monolítica do Judiciário. O Supremo, no final de junho, divulgou seus dados — não poderia ser de outra forma, por ser a Corte a última linha de defesa do estado de direito. Ontem, como determinado pelo CNJ, foi a vez do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
As resistências ocorrem nos tribunais regionais, por sinal, como em outras ocasiões, quando o CNJ atuou na linha da moralização. Por exemplo, contra o nepotismo. Também partiu dos TJs o movimento, derrotado no STF, para manietar a corregedoria do conselho. Agora, como das vezes anteriores, alinha-se aos tribunais a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).
A argumentação contrária à divulgação dos rendimentos de juízes e servidores se baseia na Constituição. Seja na garantia à privacidade ou em interpretações de que a própria Carta não determinaria uma transparência tão grande quanto a fixada pela Lei de Acesso.
Em carta aberta divulgada ontem, o presidente do TJ do Rio de Janeiro, desembargador Manoel Alberto Rebêlo dos Santos, pede, inclusive, que o plenário do STF decida sobre a divergência.
Pode ser que este seja o destino final da polêmica. Mas é necessário entender o pano de fundo dela. Na verdade, o Judiciário passa por um choque cultural desde a aprovação, em dezembro de 2004, do projeto de emenda constitucional n 45, base do atual processo de reforma do Poder. A PEC instituiu, entre outras novidades, o CNJ. E a partir dele os tribunais regionais e todas as Cortes deixarem de ser “torres de marfim” isoladas, possessões sem qualquer supervisão. A Lei de Acesso, posta em execução, como tem de ser, pelo STF e o CNJ, é mais um abalo nas fundações destas “torres”.
Não é por coincidência que corporações sindicais de servidores públicos em geral têm a mesma reação de juízes. O funcionalismo público como um todo nunca teve qualquer visão ampla de prestadores de serviços. Também formaram castas, as quais não consideram estar obrigadas a prestar contas sequer a quem lhes paga o salário, a sociedade. Tanto que várias categorias se encontram em greve, mesmo em atividades essenciais. A rebelião de juízes é parte de um todo.
Editorial publicado em O Globo, em 21 de julho de 2012.
Por O Globo
O fato de magistrados se rebelarem contra uma lei e decidirem contrariar determinação do órgão de controle da Justiça lembra atitudes de corporações sindicais. Tão ou mais grave que o fato em si é a motivação dele: os rebelados se opõem à aplicação nos tribunais da Lei de Acesso à Informação, passo importante no processo de democratização do país. São contra a transparência no destino dado ao dinheiro do contribuinte — pelo menos nas Cortes —, um requisito de qualquer sociedade moderna.
Em reunião realizada na quarta-feira pelo Colégio Permanente de Tribunais de Justiça, os 24 presidentes dos TJs se colocaram contrários à resolução do Conselho Nacional de Justiça — cujo presidente é o mesmo do Supremo Tribunal Federal, ministro Ayres Britto — que estabeleceu ontem o dia do esgotamento do prazo para a divulgação da lista nominal de juízes e servidores do Judiciário, com respectivos salários e adicionais. Como determina a lei. ...
Mas, felizmente, não há uma posição monolítica do Judiciário. O Supremo, no final de junho, divulgou seus dados — não poderia ser de outra forma, por ser a Corte a última linha de defesa do estado de direito. Ontem, como determinado pelo CNJ, foi a vez do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
As resistências ocorrem nos tribunais regionais, por sinal, como em outras ocasiões, quando o CNJ atuou na linha da moralização. Por exemplo, contra o nepotismo. Também partiu dos TJs o movimento, derrotado no STF, para manietar a corregedoria do conselho. Agora, como das vezes anteriores, alinha-se aos tribunais a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).
A argumentação contrária à divulgação dos rendimentos de juízes e servidores se baseia na Constituição. Seja na garantia à privacidade ou em interpretações de que a própria Carta não determinaria uma transparência tão grande quanto a fixada pela Lei de Acesso.
Em carta aberta divulgada ontem, o presidente do TJ do Rio de Janeiro, desembargador Manoel Alberto Rebêlo dos Santos, pede, inclusive, que o plenário do STF decida sobre a divergência.
Pode ser que este seja o destino final da polêmica. Mas é necessário entender o pano de fundo dela. Na verdade, o Judiciário passa por um choque cultural desde a aprovação, em dezembro de 2004, do projeto de emenda constitucional n 45, base do atual processo de reforma do Poder. A PEC instituiu, entre outras novidades, o CNJ. E a partir dele os tribunais regionais e todas as Cortes deixarem de ser “torres de marfim” isoladas, possessões sem qualquer supervisão. A Lei de Acesso, posta em execução, como tem de ser, pelo STF e o CNJ, é mais um abalo nas fundações destas “torres”.
Não é por coincidência que corporações sindicais de servidores públicos em geral têm a mesma reação de juízes. O funcionalismo público como um todo nunca teve qualquer visão ampla de prestadores de serviços. Também formaram castas, as quais não consideram estar obrigadas a prestar contas sequer a quem lhes paga o salário, a sociedade. Tanto que várias categorias se encontram em greve, mesmo em atividades essenciais. A rebelião de juízes é parte de um todo.
Editorial publicado em O Globo, em 21 de julho de 2012.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Multas por pardais são Ilegais
"É temerário afirmar que o trânsito de uma metrópole pode ser considerado atividade econômica ou empreendimento".
(Ministro Herman Benjamim, numa decisão do STJ que considerou ilegal as multas de pardais em Belo Horizonte).
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Pedro Porfírio
No dia 27 de março de 2001, quando iniciava meu terceiro mandato como vereador na Câmara do Rio de Janeiro,apresentei o Projeto de Lei 142/2001, que simplesmente extinguia os pardais na cidade. O projeto pegou de surpresa o prefeito Cesar Maia, que estava voltando e mal havia cooptado os vereadores suficientes para compor o seu rolo compressor, prática que acontece sistematicamente em todo o país.
Por conta dessa maioria cooptada, em que o Executivo controla o Legislativo, meu projeto foi engavetado até que em setembro daquele ano um parecer na Comissão de Constituição e Justiça determinou seu arquivamento, sob o pretexto de que ele era inconstitucional.
Foi uma derrota aparente. A partir daí, estávamos levantando a lebre da ilegalidade da cobrança feita por pardais, operados por empresas terceirizadas que recebiam um percentual em cada multa: no caso do Rio de Janeiro, essas empresas recebem 30% do valor da infração - ou R$ 47 milhões pelos números de 2011.
Trata-se, antes de qualquer coisa, de um negócio milionário, que, segundo revelaria em 2011 a reportagem do FANTÁSTICO, alimenta um rendosa indústria de fabricantes desses equipamentos com R$ 2 bilhões por ano, beneficiando também autoridades municipais com propinas de 10% do que tais empresas arrecadavam.
Depois da minha iniciativa, seguiram-se projetos de leis e até resoluções do Executivo que tentavam admitir a convivência com a ilegalidade, amenizando seus efeitos. O próprio prefeito Cesar Maia, no fim de sua administração, chegou a selecionar alguns pardais que eram desligados de madrugada, como forma de aliviar os riscos dos motoristas.
Naqueles dias, surgiram nomes de dois altos funcionários da Prefeitura que ganhavam benesses das empresas operadoras. O prefeito Eduardo Paes, ao assumir, tornou sem efeito o desligamento dos pardais de madrugada.
No âmbito nacional, o Conselho Nacional de Trânsito baixou a Resolução em 16 de outubro de 2002, determinando o fim do pagamento de percentuais de multas como forma de remuneração das terceirizadas. Quando mudou o governo, a nova cúpula do CONTRAN tornou sem efeito esse critério e voltou a vigorar a "remuneração por produtividade".
Pedro Porfírio é Jornalista, Escritor e Teatrólogo.
(Ministro Herman Benjamim, numa decisão do STJ que considerou ilegal as multas de pardais em Belo Horizonte).
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Pedro Porfírio
No dia 27 de março de 2001, quando iniciava meu terceiro mandato como vereador na Câmara do Rio de Janeiro,apresentei o Projeto de Lei 142/2001, que simplesmente extinguia os pardais na cidade. O projeto pegou de surpresa o prefeito Cesar Maia, que estava voltando e mal havia cooptado os vereadores suficientes para compor o seu rolo compressor, prática que acontece sistematicamente em todo o país.
Por conta dessa maioria cooptada, em que o Executivo controla o Legislativo, meu projeto foi engavetado até que em setembro daquele ano um parecer na Comissão de Constituição e Justiça determinou seu arquivamento, sob o pretexto de que ele era inconstitucional.
Foi uma derrota aparente. A partir daí, estávamos levantando a lebre da ilegalidade da cobrança feita por pardais, operados por empresas terceirizadas que recebiam um percentual em cada multa: no caso do Rio de Janeiro, essas empresas recebem 30% do valor da infração - ou R$ 47 milhões pelos números de 2011.
Trata-se, antes de qualquer coisa, de um negócio milionário, que, segundo revelaria em 2011 a reportagem do FANTÁSTICO, alimenta um rendosa indústria de fabricantes desses equipamentos com R$ 2 bilhões por ano, beneficiando também autoridades municipais com propinas de 10% do que tais empresas arrecadavam.
Depois da minha iniciativa, seguiram-se projetos de leis e até resoluções do Executivo que tentavam admitir a convivência com a ilegalidade, amenizando seus efeitos. O próprio prefeito Cesar Maia, no fim de sua administração, chegou a selecionar alguns pardais que eram desligados de madrugada, como forma de aliviar os riscos dos motoristas.
Naqueles dias, surgiram nomes de dois altos funcionários da Prefeitura que ganhavam benesses das empresas operadoras. O prefeito Eduardo Paes, ao assumir, tornou sem efeito o desligamento dos pardais de madrugada.
No âmbito nacional, o Conselho Nacional de Trânsito baixou a Resolução em 16 de outubro de 2002, determinando o fim do pagamento de percentuais de multas como forma de remuneração das terceirizadas. Quando mudou o governo, a nova cúpula do CONTRAN tornou sem efeito esse critério e voltou a vigorar a "remuneração por produtividade".
Pedro Porfírio é Jornalista, Escritor e Teatrólogo.
domingo, 22 de julho de 2012
Faroeste Urbano
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marli Gonçalves
Desvia! Olha para o lado! Para! Mãos para cima! Documentos! Cuidado com o portão! Passa tudo para cá!Olha a liquidação! O cara vai cair do andaime! Pápápá! Ratatá! Olha o buraco! Roubaram a tampa do bueiro! Boom! Eu disse para passar tudo-para-cá! Poin! Bibibibibibibi! Pare, olhe, compre! Oferta, somente hoje! Daqui a pouco teremos até duelos pelas ruas, porque gente sendo jogada na calçada por seguranças, para fora do saloon, isso já temos... Tente sair de casa e voltar, sem se aborrecer.
Nasci em plena área urbana, das mais movimentadas da Capital; pouco conheço da tranquila e bucólica vida fora disso e o que sei é meio fantasioso já que até explosão de caixas eletrônicos já chegou onde antes só havia o footing, o tédio e o coreto da praça. Também não dá para dizer que o problema - pelo menos esse - é nacional, já que o mundo todo está em pé de guerra, e a barbárie espalhada. Mas se não fizermos algo na linha do agir localmente, e logo, sei não.
As cidades parecem aqueles jogos de minas terrestres. Pisou em uma, Boom! Você não sabe se vai ou se fica. Se usa um vestidinho ou um colete à prova de bala. Se põe capacete ou chapéu. Se leva a bolsa ou um porrete. Se põe perfume ou joga spray de pimenta. E - cuidado! - se for usar o celular. Essa semana a polícia matou um à queima-roupa porque confundiu um celular (descarregado, não dava nem para fritar pipoca) com arma, e "porque ele estava com um negócio preto na mão"... Meninas, cuidado. Inclusive dentro do carro.
De forma geral, ninguém mais fala bom dia, obrigada, dá licença, olha na sua cara direito, responde de bom grado alguma pergunta. Se gentileza gera gentileza, imagine o que é capaz de nascer de um estado de espírito de confronto, inclusive de classes, que vem sendo proposto e incentivado nas nossas fuças. Está todo mundo devendo na praça, ou querendo comprar e não pode. Mas as ofertas chovem, e as necessidades também.
O trabalho anda escasso, periclitante, e quem tem, tem medo. A gente não quer ver bandido, mas se vê polícia sente pavor. Não sabemos mais o que é de verdade e que não é. Roubam-nos, de perto, de longe. Vai no restaurante, bar, padaria e pode ser arrastado. Até quando estamos em casa entram em nossos computadores e nos lesam. Bancos nos arrancam centavos, e somam bolinhas nos juros, e as companhias que nos servem os essenciais são essencialmente é muito descaradas. Quem mais se lembra dos meninos de rua que arrancavam cordões de ouro? Quem mais se lembra dos trombadinhas?
Como dizia, difícil é sair e voltar para casa no fim do dia sem ter tido pelo menos um aborrecimento, seja de carro, a pé, no metrô, trem ou avião. Ou no elevador, mesmo. Pisou no cocô. Ou no chiclete. Deu uma topada na pedra solta. O carro passou e jogou água do meio-fio. Torceu o pé no buraco. Foi atravessar e veio uma bicicleta na contramão ou aquele apressado do farol amarelo. Ficou esperando e o sinal de pedestre, aquele que você aperta o botãozinho várias vezes, não ficou verde. Ou ficou, por segundos. Corra, pessoa, corra! O guarda? Está lá anotando a placa de alguém, mas não daquele que quase te atropelou - ele prefere coisas menos, digamos, trabalhosas, tipo cinco minutos a mais da Zona Azul.
Fura fila. O portão da garagem abre ao contrário, na sua cabeça. Olha o cara varrendo o chão - e os seus pés - com água, com mangueira. O táxi passou. Vazio, mas não parou. Não, não mude de faixa senão os motoqueiros malucos podem promover um linchamento. Inferno esse bibibibi deles cortando as faixas. Já não bastassem os carros dos funkeiros que fazem questão que você os ouça, agora candidatos distribuem alto-falantes gritando seus nomes.
O cara está socando a mochila em você, aquele ser. Como tão bem lembrou Ruy Castro outro dia, todo mundo com mochila nas costas, e como elas fedem! Morrinha. Cheiro de chulé. Tenta passar pela direita, pela esquerda... Tem quem acredita que comprou a rua. Cuidado com o cachorro solto, que o dono pensa que não morde, e sempre pode ter uma primeira vez. O arremesso de bituca acesa não é mais só de cima. Mais comum ainda agora que todo mundo fuma nas portas ela atingir sua perna.
Segura sua onda. Calma. Quem te aporrinha pode ser da minoria, qualquer uma, que essa hora aparece para justificar, como se velhinhos, mulheres, crianças, pobres fossem imediatamente inocentes, anjos celestiais.
A vendedora trata com desdém quem entra na liquidação - a verdadeira queima, fogueira, que está havendo, para onde se olha, para ver se o dinheiro circula nas veias do país, que ora vai bem, ora se afoga na marolinha. E leva o dicionário! Sale, Off, winter off. Até 70%! Quando é que a gente vai entender que, se dá para dar desconto de 70%, a exploração era braba, e o melhor mesmo é esperar que eles nos atraiam com as plaquinhas.
Não ser enganado, não ser morto, não matar. Não cair, não dar uns petelecos por aí.
Não saia sem fazer o sinal da cruz, sem orar por São Jorge guerreiro. Não viva sem pensar que temos de mudar, em busca da civilização, e que isso pode levar gerações.
São Paulo, obstáculos olímpicos, 2012
Marli Gonçalves é jornalista- Criada em megalópoles conurbadas, conturbadas e estressantes. E-mail:
marli@brickmann.com.br
Por Marli Gonçalves
Desvia! Olha para o lado! Para! Mãos para cima! Documentos! Cuidado com o portão! Passa tudo para cá!Olha a liquidação! O cara vai cair do andaime! Pápápá! Ratatá! Olha o buraco! Roubaram a tampa do bueiro! Boom! Eu disse para passar tudo-para-cá! Poin! Bibibibibibibi! Pare, olhe, compre! Oferta, somente hoje! Daqui a pouco teremos até duelos pelas ruas, porque gente sendo jogada na calçada por seguranças, para fora do saloon, isso já temos... Tente sair de casa e voltar, sem se aborrecer.
Nasci em plena área urbana, das mais movimentadas da Capital; pouco conheço da tranquila e bucólica vida fora disso e o que sei é meio fantasioso já que até explosão de caixas eletrônicos já chegou onde antes só havia o footing, o tédio e o coreto da praça. Também não dá para dizer que o problema - pelo menos esse - é nacional, já que o mundo todo está em pé de guerra, e a barbárie espalhada. Mas se não fizermos algo na linha do agir localmente, e logo, sei não.
As cidades parecem aqueles jogos de minas terrestres. Pisou em uma, Boom! Você não sabe se vai ou se fica. Se usa um vestidinho ou um colete à prova de bala. Se põe capacete ou chapéu. Se leva a bolsa ou um porrete. Se põe perfume ou joga spray de pimenta. E - cuidado! - se for usar o celular. Essa semana a polícia matou um à queima-roupa porque confundiu um celular (descarregado, não dava nem para fritar pipoca) com arma, e "porque ele estava com um negócio preto na mão"... Meninas, cuidado. Inclusive dentro do carro.
De forma geral, ninguém mais fala bom dia, obrigada, dá licença, olha na sua cara direito, responde de bom grado alguma pergunta. Se gentileza gera gentileza, imagine o que é capaz de nascer de um estado de espírito de confronto, inclusive de classes, que vem sendo proposto e incentivado nas nossas fuças. Está todo mundo devendo na praça, ou querendo comprar e não pode. Mas as ofertas chovem, e as necessidades também.
O trabalho anda escasso, periclitante, e quem tem, tem medo. A gente não quer ver bandido, mas se vê polícia sente pavor. Não sabemos mais o que é de verdade e que não é. Roubam-nos, de perto, de longe. Vai no restaurante, bar, padaria e pode ser arrastado. Até quando estamos em casa entram em nossos computadores e nos lesam. Bancos nos arrancam centavos, e somam bolinhas nos juros, e as companhias que nos servem os essenciais são essencialmente é muito descaradas. Quem mais se lembra dos meninos de rua que arrancavam cordões de ouro? Quem mais se lembra dos trombadinhas?
Como dizia, difícil é sair e voltar para casa no fim do dia sem ter tido pelo menos um aborrecimento, seja de carro, a pé, no metrô, trem ou avião. Ou no elevador, mesmo. Pisou no cocô. Ou no chiclete. Deu uma topada na pedra solta. O carro passou e jogou água do meio-fio. Torceu o pé no buraco. Foi atravessar e veio uma bicicleta na contramão ou aquele apressado do farol amarelo. Ficou esperando e o sinal de pedestre, aquele que você aperta o botãozinho várias vezes, não ficou verde. Ou ficou, por segundos. Corra, pessoa, corra! O guarda? Está lá anotando a placa de alguém, mas não daquele que quase te atropelou - ele prefere coisas menos, digamos, trabalhosas, tipo cinco minutos a mais da Zona Azul.
Fura fila. O portão da garagem abre ao contrário, na sua cabeça. Olha o cara varrendo o chão - e os seus pés - com água, com mangueira. O táxi passou. Vazio, mas não parou. Não, não mude de faixa senão os motoqueiros malucos podem promover um linchamento. Inferno esse bibibibi deles cortando as faixas. Já não bastassem os carros dos funkeiros que fazem questão que você os ouça, agora candidatos distribuem alto-falantes gritando seus nomes.
O cara está socando a mochila em você, aquele ser. Como tão bem lembrou Ruy Castro outro dia, todo mundo com mochila nas costas, e como elas fedem! Morrinha. Cheiro de chulé. Tenta passar pela direita, pela esquerda... Tem quem acredita que comprou a rua. Cuidado com o cachorro solto, que o dono pensa que não morde, e sempre pode ter uma primeira vez. O arremesso de bituca acesa não é mais só de cima. Mais comum ainda agora que todo mundo fuma nas portas ela atingir sua perna.
Segura sua onda. Calma. Quem te aporrinha pode ser da minoria, qualquer uma, que essa hora aparece para justificar, como se velhinhos, mulheres, crianças, pobres fossem imediatamente inocentes, anjos celestiais.
A vendedora trata com desdém quem entra na liquidação - a verdadeira queima, fogueira, que está havendo, para onde se olha, para ver se o dinheiro circula nas veias do país, que ora vai bem, ora se afoga na marolinha. E leva o dicionário! Sale, Off, winter off. Até 70%! Quando é que a gente vai entender que, se dá para dar desconto de 70%, a exploração era braba, e o melhor mesmo é esperar que eles nos atraiam com as plaquinhas.
Não ser enganado, não ser morto, não matar. Não cair, não dar uns petelecos por aí.
Não saia sem fazer o sinal da cruz, sem orar por São Jorge guerreiro. Não viva sem pensar que temos de mudar, em busca da civilização, e que isso pode levar gerações.
São Paulo, obstáculos olímpicos, 2012
Marli Gonçalves é jornalista- Criada em megalópoles conurbadas, conturbadas e estressantes. E-mail:
marli@brickmann.com.br
terça-feira, 17 de julho de 2012
As ideias não correspondem mais aos fatos
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Arnaldo Jabor
O tempo atual é Renascença ou Idade Média? Os
acontecimentos estão inexplicáveis, pois a barbárie das coisas invadiu o mundo
dos homens. Temos um acesso a informação infinita, mas nada se fecha em
conclusões coerentes, nada acaba, nada se define.
O socialismo não deu certo, o capitalismo global
não trouxe paz nem progresso, tudo que depende da vontade dos homens e de seus
sonhos de controle, não chega a um final feliz. As coisas têm vida própria e
seus criadores não controlam mais os produtos. O mundo é cada vez mais uma
tumultuosa marcha de fatos sem causa, de acontecimentos sem origem. Cada vez
temos mais ciência e menos entendimento. As teorias não deram certo e
percebemos hoje que Kafka e escritores do início do século 20, como Mann,
Musil, depois Beckett e Camus sacaram o lance. Esperando Godot é mais
profundo e profético que 100 anos de ilusões políticas.
Hoje, viramos objetos de um "sujeito"
imenso, sem nome, sem olho, misterioso, que talvez só entendamos depois do
tempo esgotado, quando for tarde demais. Essa é a sensação dominante.
Por que estou com essas angústias filosóficas hoje?
Bem... porque no Brasil também estamos diante do dilema: Renascença ou Idade
Média, progresso ou regresso?
A rapidez do mundo atual, para o bem e mal, nos
deixa para trás. Vivemos uma modernidade veloz e falamos discursos antigos. As
ideias não correspondem mais aos fatos, como cantou Cazuza.
Hoje as palavras que eram muros de arrimo foram
esvaziadas de sentido. Uma palavra que era pau para toda obra:
"futuro". Que quer dizer? O termo 'futuro' tem uma conotação
incessante, como se já estivéssemos nele. Estamos com saudades do presente, que
nos escapa como um passado. O presente se esvai e o futuro não para de 'não'
chegar.
Outra palavra: "Felicidade." Ser feliz
hoje é excluir o mundo em torno. Ser feliz é uma vivência pelo avesso, pelo
"não". Ser feliz é não ver, não pensar, é não se deixar impressionar
pelas desgraças do País ou dos outros.
Outra: "Miséria." A miséria sempre nos
foi útil. Diante dela tínhamos a vantagem, a riqueza da "compaixão".
Era doce sentir pena dos infelizes. Hoje, diante das soluções impossíveis,
temos uma espécie de raiva, de irritação nobre, bem 'ancien regime' contra os
desgraçados. Ficamos humilhados diante da impotência de soluções. O pobre virou
um 'estraga-prazeres'. E os nomes?
Que nome daremos ao desejo de extermínio que brota
nos cérebros reacionários? Exterminar bandidos - e excluídos também?
E que nome daremos à paralisia da política
brasileira, ao imobilismo das reformas, o absurdo desinteresse pelos dramas do
País? Que nome daremos ao ânimo do atraso, à alma de nossa estupidez? Que
medula, que linfa ancestral energiza os donos do poder do atraso, que visgo
brasileiro é esse que gruda no chão os empatadores do progresso e da modernização?
Vivemos sob uma pasta feita de egoísmo, preguiça, escravismo colonial. Que nome
dar a essa gosma que somos?
Que nome dar às taras de nossos intelectuais
incompetentes? São dois tipos básicos que surgem: o gênio inútil e o
neocretino. O gênio inútil sabe tudo e não faz nada. O neoidiota tem certezas
sem saber nada.
E que nome daremos a esse bucho informe que a
miséria está criando nas periferias?
Como chamar esta nova língua, este novo
"bem" dentro do "mal"? Não é mais "proletariado"
ou "excluídos" apenas. Surge uma razão dentro da loucura. Parece um
país paralelo esfarrapado, com cultura própria, com uma ética produzida pela
fome e ignorância.
E na política? Quem somos, o que somos?
Neoliberais, velhos radicais, neoconservadores, progressistas reacionários,
direita de esquerda ou, hoje no poder, 'esquerdismo de direita'?
E a palavra chave de hoje: 'democracia.' Que é
isso? Que quer dizer? No Brasil, democracia é lida como tolerância, esculacho,
zona geral. Democracia, que é o único sistema 'revolucionário' a que devemos
aspirar, é a melhor maneira de espatifar o entulho arcaico, corrupto,
patrimonialista que o Estado abriga. A única revolução que se faria no Brasil
seria o enxugamento de um Estado que come a nação, com gastos crescentes, inchado
de privilégios e clientelismo, um Estado que só tem para investir 1,5 do PIB. A
única revolução seria administrativa, apontada na educação em massa, nas
reformas institucionais, já que, graças a Deus, a macroeconomia foi herdada do
FHC e o Lula teve a esperteza de mantê-la, graças ao Palocci, que salvou o
País.
Só um choque de livre empreendimento pode mudar o
Brasil. Mas esta evidencia é vista com pavor. Como aceitar o óbvio, que o
Estado, nas últimas décadas, congestionado, moribundo, só tem impedido o crescimento?
Isso vai contra os velhos dogmas dos intelectuais... A maioria dos críticos
sociais e culturais prefere morrer a rever posições. O recente caso do Paraguai
é vergonhoso. Protestam pelo 'golpe', como se o Lugo fosse um grande líder,
quando todo mundo sabe que era uma espécie de Berlusconi tropical; ignoram o
fato de que a Constituição deles previa um 'impeachment' como esse e abrem
caminho para que o fascista Chávez comece a provocar o Mercosul junto com a
espantosa Cristina Botox que está destruindo a Argentina. Como perguntou alguém
outro dia: 'Quando nossos intelectuais de esquerda vão denunciar pelo menos a
Coreia do Norte?'
A verdade é que para eles a democracia parece lenta
e ineficaz. Como disse o Bobbio: O ódio à democracia une a esquerda e direita.
Querem um autoritarismo rápido, que mude "tudo isso que está aí".
Esse episódio do Paraguai, que a presidente Dilma visivelmente teve de aderir
de má vontade, por imposição dos 'cucarachas' fascistas, aponta para uma
restauração da velha febre anti-imperialista que justifica e absolve a
incompetência da América Latina. E tudo isso apoiado por picaretas neomarxistas
como o showman Slavoj Zizek e alguns babacas daqui.
A América Latina está com fome de autoritarismo,
que é bem mais legível para os paranoicos.
Arnaldo Jabor é
Jornalista e Cineasta. Originalmente publicado nos jornais O Globo e Estadão em
17 de Julho de 2012.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Transtornos e desordens
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Ubaldo Ribeiro
De uns tempos para cá, é cada vez mais forte a
tendência a não se ver o indivíduo como responsável pelos próprios atos. No
terreno da ciência social esquerdoide, o sujeito é assaltante porque lhe
faltaram oportunidades, não teve educação, vive numa sociedade consumista, foi
vítima de bullying e mais quantos indicadores se concebam, em pesquisas cujos
resultados são definidos pela própria formulação e, muitas vezes, não passam de
manipulações pseudoestatísticas, destituídas de base sólida. Enxergam-se
relações de causa e efeito inexistentes, que resistem até mesmo à óbvia verdade
de que a ampla maioria dos que enfrentaram e enfrentam essas situações não é de
delinquentes.
No terreno da psicanálise de boteco, o sujeito
surra mulher e filhos porque foi também surrado, principalmente pela mãe. Ou -
pois a psicanálise de boteco tem o condão de adaptar suas explicações e a causa
que, num exemplo, surte determinado efeito em outro surte efeito contrário -
porque não foi surrado e nem sequer advertido e, assim negligenciado pela mãe,
nutre amor e ódio pela figura materna, na qual desconta seus recalques baixando
a porrada na santa mãe de seus filhos, os quais também apanham porque dividem
as atenções da dita figura materna. Ou qualquer outra especulação asnática, das
muitas que volta e meia ainda ouvimos.
Agora, por meio da entusiástica colaboração de
cientistas, psiquiatras e, principalmente, fabricantes de drogas psicoativas,
vamos ingressar definitivamente na era em que qualquer comportamento ou
qualquer emoção serão vistos como uma doença mental, no sentido mais lato do
termo. Aliás, pouco se tem usado a expressão "doença mental". O
chique agora, que repetimos como papagaios bem ensinados, é
"transtorno", "desordem" ou "distúrbio".
Sabemos
que certamente a maioria dos psiquiatros e das psiquiatras, bem como a maioria
dos cientistos e cientistas, embora talvez não a maioria dos fabricantes e
fabricantas de drogas, não é constituída de enganadores venais e
inescrupulosos, que tomam dinheiro dos fabricantes para promover a vendagem
bilionária de remédios. Mas muitos e muitas são (está certo, vou parar com este
negócio de flexionar os gêneros de tudo, sei que é chato; mas é só porque quero
mostrar como certas coisas enfeiam e aleijam nossa já tão perseguida língua
portuguesa) e a bandidagem deles combinada vai de vento em popa.
O número de transtornos e desordens aumenta
exponencialmente e já se observou que, anunciado um novo mal, de que antes não
havia relato, logo surgem novos "pacientes", gente que agora padece
de síndromes também antes nunca descritas. E os males do espírito, digamos,
muitas vezes não geram sintomas físicos, ou, se geram, são de difícil definição
etiológica, de forma que o diagnóstico vira conceitual e subjetivo: eu acho que
você está deprimido porque acho que seu quadro configura o que eu acho que é
depressão.
Não há mais preguiça, há transtornos ou desordens
de atenção, de motivação, de interação social, de tudo o que se possa imaginar.
Não há mais agressividade, rudeza no trato, timidez, temperamento calado, nada
disso, só há transtornos e desordens. Quando expira a patente de uma droga, seu
fabricante se apressa a criar, novamente com a ardorosa colaboração de cientistas
e psiquiatras contratados ou subvencionados generosamente, uma nova doença, a
que a mesma droga se aplique, mudando apenas de nome.
Emoções antes normais em
qualquer ser humano podem facilmente revelar-se transtornos ou desordens,
conforme o freguês e a moda psiquiátrica corrente. Não se fica mais triste,
fica-se deprimido. Não se fica mais ansioso pela antecipação de alguma coisa,
fica-se com distúrbios de ansiedade. E para tudo há uma pílula.
Claro, chegaremos, se já não chegamos e ainda não
nos demos conta, ao ponto em que todo indivíduo, se confrontado com um
hipotético "padrão normal", será portador de vários transtornos,
distúrbios e desordens. Qualquer acontecimento que afete suas emoções, seu
estado de ânimo ou mesmo seu bem-estar físico deverá ser objeto de controle
medicamentoso.
Posso até imaginar que talvez já exista, e no futuro poderá
prosperar, a figura do PP, o Personal Psychiatrist, não para receitar ou
atender no consultório seu cliente milionário, mas para acompanhá-lo ao longo
de todo o dia, ministrando-lhe a droga apropriada para a manifestação de
qualquer de seus inúmeros distúrbios.
A infância, com a falsa descoberta de um número
alarmante de bebês portadores de transtorno bipolar, passou a ser uma doença.
Assim como, com toda a certeza, a puberdade, a adolescência, a jovem
maturidade, a meia-idade e a velhice. Tudo doença, é claro, bola nisso tudo,
bola em toda a existência, você é que pensa que é sadio, é porque não procurou
direito sua doença. E, aliás, sugere a prudência que escolhamos logo nossos
transtornos, desordens e distúrbios, porque do contrário poderemos estar
sujeitos a que escolham por nós. E ninguém escapará, porque o objetivo é
englobar toda a Humanidade.
O problema não é a ciência decretar que, de uma
forma ou de outra, somos todos malucos. Isso todo mundo às vezes pensa. O
problema é quando decidem qual é a nossa maluquice e nos forçam a uma
"normalidade" que não queremos e não temos por que aceitar. A
chancela da ciência pode ser adulterada. E não é impossível que, em
determinadas situações, divergências com o Estado, ou com grupos de poder,
acarretem muito mais que censura às artes e à imprensa.
Podemos ser forçados a
agir "normalmente" e considerados insanos, se discordarmos da
normalidade oficial. Na União Soviética, houve tempo em que quem divergia do
Estado era carimbado como doido varrido e encafuado num hospício. Tenho medo de
não me encaixar na portaria da Anvisa que defina a normalidade e ser obrigado a
tomar um Abestalhol por dia.
João Ubaldo Ribeiro é Escritor. Originalmente
publicado nos jornais O Globo e Estadão de 15 de Julho de 2012.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Até o apagar das luzes
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal
Ainda com poucos anos de vida já somos capazes de nos apaixonar por outra criança, mesmo quando a vemos pela primeira vez em uma praça ou clube, onde os adultos nos levaram e encontraram conhecidos com filhos da nossa idade.
Independentemente de já o serem ou não, todas as pessoas certamente seriam muito mais felizes, se pudessem estar sempre apaixonadas, pois as paixões são o tempero da vida dos jovens e daqueles maduros que possuem prazer em.
Bem mais frequentes na juventude, uma fase em que a atração física é muito mais importante que detalhes como amizade, companheirismo e cumplicidade, só valorizados na maturidade, elas também podem ocorrer em outros períodos da vida.
Nos jovens provocam alegria, desejos e brilho nos olhos, fazem vibrar, fazer planos, ficar ansiosos, sentir arrepios e mostram detalhes, da vida e do outro, que antes sequer eram imaginados.
Nos mais velhos, remoçam, elevam a autoestima, causam admiração por alguma particularidade e mexem com todos aqueles sentimentos que já estavam adormecidos, mas que sempre desejaram reviver.
Em determinadas ocasiões, algumas paixões podem se transformar em algo bem maior e sublime, o amor, que apesar de muitos acharem que o conhecem, poucos chegam a realmente conhecer apesar de, como palavra, ser muito utilizada e bastante banalizada nos relacionamentos atuais.
Ele ocorre quando, sem esperar, passamos a querer alguém sem um motivo definido, uma explicação lógica, e sem levar em consideração a atração física, cor da pele, peso, idade, estatura ou bens materiais.
Sentimos desejos incontroláveis de telefonar para a pessoa amada simplesmente para ouvir sua voz, de lhe enviar mensagens carinhosas e frequentemente presenteá-la com coisas simples, sem nenhuma importância ou valor material, mas que a faça perceber que foi lembrada e que, por estar tentando fazê-la se sentir amada e feliz, você faz questão de que ela saiba disso.
É o sentimento mais profundo que uma pessoa pode sentir por alguém, o que mais se aproxima daquele que é sentido pelos pais em relação ao filho que acabou de nascer, e normalmente não é conhecido pelos mais jovens, que quando apaixonados, pensam estar amando.
Só bem mais tarde, quando já sabemos mais sobre o que realmente importa na vida, é que temos maior chance de realmente amar alguém.
Nessa fase já não procuramos as pessoas olhando para detalhes materiais, mas buscando alguém para ser nossa amiga, cúmplice, que esteja disposta a nos acompanhar em todas as ocasiões.
Alguém que estará do seu lado nos momentos de tristeza ou alegrias, com quem sentirá prazeres, pescará, assistirá filmes e peças teatrais, discutirá sobre educação de filhos ou enteados e que tenha a certeza de que sempre retribuiremos da mesma maneira.
A pessoa com quem planejará e realizará viagens, compartilhará desejos, sonhos e ambições, conversará sobre todos os temas e ao lado de quem gostaria de estar todos os dias, do despertar ao adormecer.
Só amamos de verdade, quando encontramos a pessoa ao lado de quem gostaríamos de estar até o apagar das luzes.
João Bosco Leal é Jornalista, escritor e produtor rural www.joaoboscoleal.com.br
Por João Bosco Leal
Ainda com poucos anos de vida já somos capazes de nos apaixonar por outra criança, mesmo quando a vemos pela primeira vez em uma praça ou clube, onde os adultos nos levaram e encontraram conhecidos com filhos da nossa idade.
Independentemente de já o serem ou não, todas as pessoas certamente seriam muito mais felizes, se pudessem estar sempre apaixonadas, pois as paixões são o tempero da vida dos jovens e daqueles maduros que possuem prazer em.
Bem mais frequentes na juventude, uma fase em que a atração física é muito mais importante que detalhes como amizade, companheirismo e cumplicidade, só valorizados na maturidade, elas também podem ocorrer em outros períodos da vida.
Nos jovens provocam alegria, desejos e brilho nos olhos, fazem vibrar, fazer planos, ficar ansiosos, sentir arrepios e mostram detalhes, da vida e do outro, que antes sequer eram imaginados.
Nos mais velhos, remoçam, elevam a autoestima, causam admiração por alguma particularidade e mexem com todos aqueles sentimentos que já estavam adormecidos, mas que sempre desejaram reviver.
Em determinadas ocasiões, algumas paixões podem se transformar em algo bem maior e sublime, o amor, que apesar de muitos acharem que o conhecem, poucos chegam a realmente conhecer apesar de, como palavra, ser muito utilizada e bastante banalizada nos relacionamentos atuais.
Ele ocorre quando, sem esperar, passamos a querer alguém sem um motivo definido, uma explicação lógica, e sem levar em consideração a atração física, cor da pele, peso, idade, estatura ou bens materiais.
Sentimos desejos incontroláveis de telefonar para a pessoa amada simplesmente para ouvir sua voz, de lhe enviar mensagens carinhosas e frequentemente presenteá-la com coisas simples, sem nenhuma importância ou valor material, mas que a faça perceber que foi lembrada e que, por estar tentando fazê-la se sentir amada e feliz, você faz questão de que ela saiba disso.
É o sentimento mais profundo que uma pessoa pode sentir por alguém, o que mais se aproxima daquele que é sentido pelos pais em relação ao filho que acabou de nascer, e normalmente não é conhecido pelos mais jovens, que quando apaixonados, pensam estar amando.
Só bem mais tarde, quando já sabemos mais sobre o que realmente importa na vida, é que temos maior chance de realmente amar alguém.
Nessa fase já não procuramos as pessoas olhando para detalhes materiais, mas buscando alguém para ser nossa amiga, cúmplice, que esteja disposta a nos acompanhar em todas as ocasiões.
Alguém que estará do seu lado nos momentos de tristeza ou alegrias, com quem sentirá prazeres, pescará, assistirá filmes e peças teatrais, discutirá sobre educação de filhos ou enteados e que tenha a certeza de que sempre retribuiremos da mesma maneira.
A pessoa com quem planejará e realizará viagens, compartilhará desejos, sonhos e ambições, conversará sobre todos os temas e ao lado de quem gostaria de estar todos os dias, do despertar ao adormecer.
Só amamos de verdade, quando encontramos a pessoa ao lado de quem gostaríamos de estar até o apagar das luzes.
João Bosco Leal é Jornalista, escritor e produtor rural www.joaoboscoleal.com.br
quinta-feira, 12 de julho de 2012
A guarânia do engano
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Chiqui Avalos
Como num verso célebre de meu inesquecível amigo Vinicius de Moraes, “de repente, não mais que de repente”, alguns governos latino-americanos redescobrem o velho e sofrido Paraguay e resolvem salvar uma democracia que teria sido ferida de morte com a queda de seu presidente. Começa aí um engano, uma sucessão de enganos, mentiras e desilusões, em proporção e intensidade que bem serve a que se companha uma melodiosa guarânia, mas de gosto extremamente duvidoso.
Sucedem-se fatos bizarros na vida das nações em pleno século XXI. Uma leva de chanceleres, saídos da espetaculosa e improdutiva Rio+20, desembarca de outra leva de imponentes jatos oficiais no início da madrugada de um incomum inverno, e - quem sabe estimulados pela baixa temperatura - se comportam com a mesma frieza com que a “Tríplice Aliança” dizimou centenas de milhares de guaranis numa guerra que arrasou a mais desenvolvida potência industrial da América Latina.
Surpresos? Pois, sim, não é para menos. Éramos ricos, muito ricos, industrializados, avançados, educados, cultos, europeizados, amantes das artes, dos livros, das óperas, do desenvolvimento. Nossos antepassados brilharam na Sorbonne e assinaram tratados acadêmicos, descobertas científicas ou apurados ensaios literários. A menção de nossa origem não provocava o deboche ou ironia tão costumeiros nos dias tristes de hoje, mas profundas admiração e curiosidade dos que acompanhavam nossa trajetória como Nação vencedora. Não ficamos célebres como contrabandistas ou traficantes, mas como povo empreendedor e progressista.
A organização de nossa sociedade, a intensa vida cultura, o progresso econômico irrefreável, a bela arquitetura de nossas cidades, nossos museus e livrarias, a invulgar formação cultural de nossa elite, a dignidade com que viviam nossos irmãos mais pobres (sem miséria ou fome) impressionavam e merecem o registro histórico. A rainha Vitória, que não destinou ao resto do mundo a mesma sabedoria com que governou e marcaria para sempre a história do Reino Unido, armou três mercenários e eles dizimaram a potência que, com sua farta e boa produção e espírito desbravador, tomava o mercado da antiga potência colonial aqui, do lado de baixo do Equador.
Brasil, Argentina e Uruguay, como soldados da Confederação, nos arrasaram. Nossos campos foram adubados pelos corpos de nossos irmãos em decomposição, decapitados à ponta de sabre e com requintes de sadismo. O Conde D’Eu, marido de quem libertaria os negros da escravidão e entraria para a história do Brasil, comandava pessoal e airosamente o massacre. Os historiadores, essa gente bisbilhoteira e necessária, registraram seu apurado esmero e indisfarçável prazer. O nefasto delegado Sérgio Fleury teve um precursor com quase um século de antecedência...
Nossas cidades terminaram por ser habitadas por populações majoritariamente compostas de mulheres e crianças. Poucos homens restaram do genocídio perpetrado. Pedro II, que marcaria a história do Brasil por sua honradez, comportou-se de forma impressionante nessa obscura página da história do Brasil, mas inversamente conhecidíssima na história de meu país: não moveu uma palha ou disse palavra acerca do sadismo de seu genro criminoso.
Documentos por mim revirados no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, mostram a assinatura do velho Imperador autorizando a compra de barcos, chatas, cavalos e tudo o que fosse necessário para uma caçada de vida ou morte (mais de morte, certamente) à Lopez. Não bastava derrotar o déspota esclarecido, o republicano que os humilhava, o que havia desafiado todos os impérios, o da Inglaterra, o do Brasil, o da Espanha... Era preciso assinar seu epitáfio e esculpir sua lápide. E assim foi feito.
Derrotados, nunca mais fomos os mesmos. Passamos a ser conhecidos por uma República já bicentenária, mas atrasada em comparação aos vizinhos. Enfrentamos uma guerra cruel com a Bolívia na primeira metade do século passado. Roubaram-nos importante faixa territorial do Chaco, região paradoxalmente inóspita e riquíssima. Ganhamos a guerra. Nossos soldados mostraram a valentia e patriotismo que brasileiros, uruguaios e argentinos bem conheceram mais de meio século antes.
Nossa incipiente aviação militar e seus jovens pilotos assombraram os experts norte-americanos pela refinada técnica e o sucesso de suas ações contra o agressor. Mas numa história prenhe de ironias, vencemos a guerra e... jamais recuperamos as terras! Os bolivianos, que jamais olham nos olhos nem das pessoas nem da história, certamente se rejubilam em sua “andina soledad”, e como os argentinos depois da inexplicável Guerra das Malvinas, sabem-se “vice-campeones”...
Mal saímos da Guerra do Chaco e experimentamos a mesma e usual crônica tão comum a rigorosamente todos os outros países latino-americanos. Golpes e contra-golpes, instantes de democracia e hibernações em ditaduras ferrenhas. Presidentes se sucederam despachando no belíssimo Palácio de Lopez e vivendo na vetusta mansão de Mburuvicha Roga (“A casa do grande chefe”, em guarani).
Uns razoáveis, outros deploráveis. Nenhum deles, entretanto, recuperou a glória perdida dos anos de riqueza, opulência e fartura. Um herói da Guerra do Chaco tornou-se ditador e nos oprimiu por mais de três décadas. Homem duro, mas de hábitos espartanos e por demais interessante, o multifacético Alfredo Stroessner não recusou o papel menor de tirano, mas construiu com o Brasil a estupenda hidrelétrica de Itaipu, a maior obra de engenharia de seu tempo, salvando o Brasil de previsível hecatombe energética. Foi parceiro e amigo de todos os presidentes do Brasil de JK a Sarney.
Com os militares pós-64 deu-se às mil maravilhas, mas foi de suas mãos que o exilado João Goulart recebeu o passaporte com que viajaria para tratar sua saúde com cardiologistas franceses. Deposto, o velho ditador morreu no exílio, no Brasil. Nós que o combatíamos (nasci em Buenos Aires, onde meu pai, empresário de sucesso mas adversário da ditadura, curtia seu exílio) jamais soubemos de ação qualquer, uma que fosse, do Brasil em seus governos democráticos contra a ditadura do general que lhes deu Itaipu.
Depois de duas décadas da derrubada de Stroessner, nos aparece Fernando Lugo. Sua história é peculiar. Era bispo de San Pedro, simpaticão e esquerdista, pregava aos sem-terra e parecia não incomodar ninguém, nem aos fazendeiros da área. Pelos idos de 2007 o então presidente Nicanor Duarte Frutos, um jovem jornalista eleito pelos colorados, resolve seguir o péssimo exemplo de Menem, Fujimori e Fernando Henrique, e deixa clara sua vontade de mudar a Constituição e permanecer no presidência, através do instituto inexistente da reeleição. Seu governo era mais que sofrível e – descupem-nos a imodéstia latreada em nossa história – nós, os paraguaios, não somos dados ao desfrute de mudar nossa Carta Magna ao sabor da vontade de presidente algum.
O país se levantou contra a aventura e ele, o bispo bonachão, justamente por não ser político e garantir que não alimentava qualquer ambição de poder, é escolhido para ser o orador de um grande ato público, com dezenas de milhares de pessoas no centro de Assunção. Pastoral, envolvente, preciso, o Bispo de San Pedro cativou a multidão, deu conta do recado e catalisou a imensa indignação da cidadania.
A aventura continuísta de Nicanor não foi bem-sucedida, mas, com a sutileza de um príncipe da Igreja nos intricados concílios que antecedem a fumacinha branca no Vaticano, nos aparece um candidato forte à presidência da República: ‘habemus candidatum’! A batina vestia mais que um pastor, escondia um homem frio, ambicioso, ingrato e profundamente amoral.
Seu primeiro problema foi com a Santa Madre Igreja. O Santa Sé, certamente por saber algo que nós não sabíamos, vetou sua disposição política. Não, de jeito algum, ele jamais poderia ser candidato. A igreja católica combateu a ditadura do general Stroessner com imensa coragem e ação firme, mas não queria ocupar a presidência do país. “Roma coluta, causa finita” (“Roma falou, questão decidida”). Mas não para Lugo, que deixou seu bispado, despiu a batina e virou às costas a quem lhe educou e lhe acolheu no seu seio.
Poucos e corajosos colegas Bispos e padres o apoiaram abertamente. Na última sexta-feira, depois de três anos sem vê-lo ou serem por ele procurados, esses mesmos amigos e apoiadores foram até a residência presidencial pedir – em vão – que Lugo renunciasse à presidência do Paraguay para que se evitasse derramamento de sangue. O homem seduzido pelo poder disse não com frieza, levantando-se e despachando aqueles inoportunos portadores da palavra divina.
Candidato sem partido, entretanto com as simpatias da clara maioria do eleitorado. Filiou-se, pois, a um partido e o escolhido foi o centenário e respeitável PLRA, dos liberais, há mais de 60 anos fora do poder e com a respeitável bagagem de uma corajosa oposição à ditadura stroessnista. Como um Jânio Quadros, Lugo filiou-se ao Partido Liberal Radical Autêntico e usou sua bandeira, sua história e sua estrutura capilarizada em toda a sociedade paraguaia. E depois deu-lhe um adeus de mão fechada, frio e indiferente.
Eleito, desfez-se de todos os companheiros de jornada. Um a um. Stalin não apagou tantos nas fotos oficiais do Kremlin como o ex-bispo o fez. Mas demitiu os mais qualificados, por sinal. Restaram-lhe os cupinchas, os facilitadores de negócios e de festinhas íntimas, os “operadores” e alguns incautos esquerdistas para colorir com as tintas de um risível ‘socialismo guarani’ o governo de um homem que chegou como o Messias e terminaria como um Judas Escariotes.
Lugo poderia emprestar seu nome e sua trajetória de vida política (e pessoal, também) ao mestre Borges e tornar-se uma das impressionantes personagens da “História Universal da Infâmia”. Um infame, não mais que isso! Mal foi eleito e empossado, sucedem-se escândalos e se revela seu procedimento moral. Filhos impensados para um supostamente casto Bispo. Vários. Todos jamais reconhecidos ou amparados, gerados com mulheres as mais pobres e sem instrução alguma, do meio rural, humilhadas depois de usadas, uma delas com apenas 16 anos quando da gravidez. Se traíra a sua Igreja, por qual razão não nos trairia? E traiu.
Não passou um mês sequer durante seus três anos de governo sem que viajasse a um país qualquer. Com razão ou sem nenhuma, tanto fazia, e lá se ia ele, o alegre viajante para conferências esvaziadas ou cerimônias de posse de mandatários sem importância ou relevo para o Paraguay. As pompas do poder o abduziram como a nenhum déspota de república bananeira do Caribe. Os comboios de limusines com batedores estridentes, as festas e beija-mãos, os eternos e maviosos cortesãos do poder, as belas mulheres, as mesas fartas, os hotéis cinco estrelas, a riqueza, a opulência, os “negócios”.
O despojado ex-bispo tornou-se grande estancieiro, senhor de terras, plantações e gado. O presidente que tomou posse calçando prosaicas sandálias como símbolo de humildade, revelou-se um homem vaidoso e fetichista. Como que a vestir a mentira em que ele próprio se tornou, passou a envergar elegantes e bem-cortadas túnicas encomendadas à alfaiates da celebérrima e caríssima Savile Row, templo londrino da moda masculina.
No detalhe, o estelionato (mais um): colarinhos eclesiásticos. Afeiçoou-se a lindas e jovens, digamos, “modelos”, que floriram sua vida e a imensa banheira Jacuzzi que mandou instalar na austera e velha residência presidencial. Muitas delas o precediam mundo afora, esperando-o em hotéis fantásticos e palácios, nas vilegiaturas internacionais. Viajavam com documentos oficiais. Kaddafi auspiciava passaportes diplomáticos a terroristas, Lugo a prostitutas.
Sua afeição pelos jatinhos e jatões chegou às raias do fetiche: passou boa parte de seu peculiar mandato a bordo deles. Fretados à empresas de táxi aéreo de outros países, mandados pelos amigões Hugo Chávez e Lula, outros emprestados sabe-se lá por uns tais e misteriosos amigos. Chocou-se com o brasileiro Jorge Samek, fundador do PT e competente gestor, que na presidência brasileira da Itaipu resolveu vetar capricho juvenil do ex-bispo e delirante presidente: a poderosa binacional compraria um jato para seu uso.
Um Gulfstream estaria de bom tamanho, quem sabe um Falcon, ou até um brasileiríssimo Legacy, mas ele precisava ardentemente de um jato para chamar de seu. Depois mandou que o comandante da Força Aérea negociasse um Fokker 100, adaptado com suíte e ducha. Nada feito, o raio de ação seria pequeno e ele precisava ganhar o mundo. Por fim, nos estertores de seu governo, entabulava a compra de um Challenger, usado mas chique, de um cartola do futebol paraguaio. O preço, como sempre, mais um escândalo da Era Lugo: pelo menos o dobro de um modelo novo, saído de fábrica...
Obras viárias? Imagine. De infraestrutura? Nenhuma. Modernização do país? Nem pensou nisso. Crescimento econômico? Sim, mas por obra de uma agricultura forte, de empresários jovens e ambiciosos, de uma indústria florescente e de um ministro da economia, Dionísio Borda, que destoou da regra geral do governo Lugo: competente e austero, imune às vontades do presidente e distante da escória que o cercava.
A cada novo dia, no parlamento, nas redações, nos sindicatos, nos foros empresariais, nos encontros de amigos, um novo comentário, uma nova história de mais uma negociata dos assessores e companheiros de Lugo. Proporcionalmente, nem na ditadura de Stroessner (mais de três décadas), se roubou tanto quanto no governo pseudo-esquerdista de Fernando Lugo (menos de três anos). Já com Lugo deposto, seu secretário mais forte, Miguel Lopez Perito, telefonou à diretoria da Itaipu solicitando a bagatela de US$ 300 mil para organizar uma manifestação em defesa do governo. Queria ao vivo e a cores, "na mala", por fora, não contabilizado, no "caixa 2". Que tal? Fato tornado público por um diretor da binacional e revelador do modus-operandi da verdadeira quadrilha que comandava o país.
Seu processo de “Juízo Político” – algo como um processo de impeachment – está previsto na Constituição do Paraguay, e não foi uma travessura histórica de meia dúzia de líderes políticos ou parlamentares revidando as descortesias de Lugo para com os partidos, os empresários, os paraguayos todos. Que tipo de presidente era esse que teve 73 deputados votando por sua queda contra apenas 1 solitário voto? Que espécie de chefe da Nação era esse que teve 39 votos contrários no Senado contra apenas 4 de senadores fiéis ao seu desgoverno? Não teve tempo, apenas duas horas para defender-se, dizem.
Ora, a Constituição não determina tempo, apenas assegura-lhe o direito de defesa, exercido através de competentíssimos advogados, que fizeram exposições brilhantes na defesa do indefensável. Um deles, Dr. Adolfo Ferreiro, admitiu claramente que o processo era legal. De outro, Dr. Emilio Camacho, em imponente ironia da história, os magistrados da Suprema Corte extraíram em um de seus celebrados livros aqueles ensinamentos necessários e a devida jurisprudência para rechaçar chicana jurídica do já ex-presidente contra o processo legal, constitucional e moral que o defenestrou. C’est la vie, Monsieur Lugo!
Em Curuguaty, num despejo de terras ocupadas pelos "carperos" (os sem-terra daquí), dezenas de mortes de ambos os lados. Lugo e seu ministro do interior, o belicoso senador Carlos Filizzola, foram avisados de que havia uma emboscada pronta para as forças militares. Com a empáfia e a absoluta irresponsabilidade que os caracterizou do primeiro ao último dia, e fiel aos amigos que manejam o MST daquí e infernizam a vida de nossos produtores rurais (entre os quais os 350 mil brasileiros que aquí plantam, colhem e vivem, nossos irmãos "brasiguayos"), ambos ordenaram a ação que se tornou uma tragédia na história de nosso país.
Poderia citar, também, o EPP (Exército do Povo Paraguaio), guerrilha formada por terroristas intimamente ligados a Lugo em seus tempos no bispado de San Pedro. Jamais as forças de segurança puderam fazer nada contra eles. Mapeados, identificados, monitorados e livres! Lugo se manteve fiel aos bandidos pelos quais mostra clara e pública afeição. Como o respeitado Belaúnde Terry, no Perú, que permitiu com seu "democratismo" o crescimento do terror representado pelo Sendero Luminoso de Abimael Guzmán, o nada respeitável Lugo é o pai e a mãe do EPP.
Fernando Lugo foi um acidente em nossa história. Necessário, mas sofrido. Seus defeitos superaram suas virtudes. Aqueles eram muitos, essas muito poucas. Nós que nele votamos, sequiosos de um Estadista, nos deparamos com um sibarita. Seu legado é de decepção e fracasso. Não choraram por ele dentro de nossas fronteiras, e os que o defendem foram delas o fazem muito mais pensando no que lhes pode ocorrer do que por solidariedade ao desfrutável governante e desprezível homúnculo que cai.
O fim de seu governo dói mais a um já dolorido Chávez do que a nós. A Senhora Kirchner, radical na condenação que nos impõe, se esquece de nossa parceria na importante e gigantesca usina hidrelétrica de Yaciretá, e amplia sua lucrativa viuvez acolhendo em seu seio choroso o decaído amigo. Solidária? Nem tanto, apenas oportunista e sabendo que se abriu o precedente para que os parlamentos expulsem os incapazes.
Na Bolívia o sentimento popular em relação ao sectário e também bolivariano Evo Morales não é diferente do sentimento dos paraguayos por Lugo no outono de sua aventura presidencial. É pior. O relógio da história irá tocar as badaladas do fim de uma aventura mais que improdutiva: raivosa, racista e liberticida.
Não compreendemos a posição do Brasil. Ou não queremos compreender, tanto é o bem que lhe queremos. Nos arrasou como sicário da Rainha Vitória e nós lhe perdoamos e juntos construímos o colosso de Itaipu. O tratamos bem e ele defende a continuidade de uma das piores fases de nossa história, em nome do quê? Nega-nos o direito à autodeterminação, mas se esquece do papelão ridículo que fez em defesa de um cretino como Zelaya, um corrupto ligado a grupos somozistas de extermínio e que era tão esquerdista como Stroessner e democrático quanto Pinochet.
Foi deplorável o papel do inexpressivo chanceler Patriota (que não se perca pelo nome), saracoteando pelas ruas de Assunção em desabalada carreira, indo aos partidos Liberal e Colorado pressionar em favor de um presidente que caia. Adentrando o Parlamento ao lado do chanceler de Hugo Chávez, o Sr. Maduro, para ameaçar em benefício de um presidente que o país rejeitava. Indo ao vice-presidente Federico Franco ameaçar-lhe, com imensa desfaçatez, desconhecendo seu papel constitucional e o fato de que ninguém renunciaria a nada apenas por uma ameaça calhorda da Unasul (que não é nada) e outra ameaça não menos calhorda do Mercosul (que não é nada mais que uma ficção). O Barão do Rio Branco arrancou seus bigodes cofiados no túmulo profanado pelo Itamaraty de hoje.
O que quer o governo Dilma? Passar pelo mesmo vexame de Lula na paupérrima Honduras? Se afirmativo, já fica sabendo que passará. Nós temos imensa disposição de continuar uma parceria que se revelou positiva e decente para ambos os países. Mas não sentimos ou temos pela austera presidente o mesmo terror-medo-pânico que lhe devotam seus auxiliares e ministros.
Cara feia não faz história, apenas corrói biografias. Dilma chamou seu embaixador em Assunção e Cristina fez o mesmo. As radicais matronas só não sabiam que: o embaixador brasileiro é um ausente total, vivendo mais tempo em Pindorama do que por aqui. O Embaixador Eduardo Santos é tido no Paraguay como alguém que acredita que as três melhores coisas em nosso país são ar condicionado e passagem de volta.
Recorda o ex-embaixador Orlando Carbonar, que foi pego de surpresa em fevereiro de 1989 pelo movimento que derrubou o general Stroessner. Até meus filhos, crianças na época, sabiam que o golpe se avizinhava e que estouraria a qualquer momento, menos o embaixador brasileiro, que descansava no carnaval de Curitiba, sua cidade natal. Voltou às pressas, num jatinho da FAB, para embarcar Stroessner rumo ao Brasil.
E a Argentina... Bem, a Argentina não tem embaixador no Paraguay faz alguns meses... Ocupadíssima, Dona Cristina não nomeou seu substituto. País de necrófilos (amam Gardel, Che, Evita e Maradona, dentre outros defuntos), chamou um embaixador que não existe, um diplomata fantasma, até a Casa Rosada para consultas.
O Paraguay fez o que tinha que fazer. Seguirá adiante, como seguem adiante as Nações, testadas e curtidas pelas crises que retemperam a cidadania e reforçam a nacionalidade. O religioso que não honrou seus votos de castidade e pobreza e traiu sua igreja, foi por ela rejeitado.
O presidente que não honrou nossos votos e nos traiu, foi por nós deposto. Deposto por incapaz, por mentiroso, por ineficiente, por desonesto. Mas, principalmente, por que traiu as esperanças de um país e um povo que precisaram dele e nele confiaram. E, por isso, Lugo não voltará.
Chiqui Avalos é conhecido escritor e jornalista paraguaio. Combateu a ditadura de Stroessner e apoiou a candidatura de Fernando Lugo. É o editor de "Prensa Confidencial", influente boletim digital editado no Paraguai.
Por Chiqui Avalos
Como num verso célebre de meu inesquecível amigo Vinicius de Moraes, “de repente, não mais que de repente”, alguns governos latino-americanos redescobrem o velho e sofrido Paraguay e resolvem salvar uma democracia que teria sido ferida de morte com a queda de seu presidente. Começa aí um engano, uma sucessão de enganos, mentiras e desilusões, em proporção e intensidade que bem serve a que se companha uma melodiosa guarânia, mas de gosto extremamente duvidoso.
Sucedem-se fatos bizarros na vida das nações em pleno século XXI. Uma leva de chanceleres, saídos da espetaculosa e improdutiva Rio+20, desembarca de outra leva de imponentes jatos oficiais no início da madrugada de um incomum inverno, e - quem sabe estimulados pela baixa temperatura - se comportam com a mesma frieza com que a “Tríplice Aliança” dizimou centenas de milhares de guaranis numa guerra que arrasou a mais desenvolvida potência industrial da América Latina.
Surpresos? Pois, sim, não é para menos. Éramos ricos, muito ricos, industrializados, avançados, educados, cultos, europeizados, amantes das artes, dos livros, das óperas, do desenvolvimento. Nossos antepassados brilharam na Sorbonne e assinaram tratados acadêmicos, descobertas científicas ou apurados ensaios literários. A menção de nossa origem não provocava o deboche ou ironia tão costumeiros nos dias tristes de hoje, mas profundas admiração e curiosidade dos que acompanhavam nossa trajetória como Nação vencedora. Não ficamos célebres como contrabandistas ou traficantes, mas como povo empreendedor e progressista.
A organização de nossa sociedade, a intensa vida cultura, o progresso econômico irrefreável, a bela arquitetura de nossas cidades, nossos museus e livrarias, a invulgar formação cultural de nossa elite, a dignidade com que viviam nossos irmãos mais pobres (sem miséria ou fome) impressionavam e merecem o registro histórico. A rainha Vitória, que não destinou ao resto do mundo a mesma sabedoria com que governou e marcaria para sempre a história do Reino Unido, armou três mercenários e eles dizimaram a potência que, com sua farta e boa produção e espírito desbravador, tomava o mercado da antiga potência colonial aqui, do lado de baixo do Equador.
Brasil, Argentina e Uruguay, como soldados da Confederação, nos arrasaram. Nossos campos foram adubados pelos corpos de nossos irmãos em decomposição, decapitados à ponta de sabre e com requintes de sadismo. O Conde D’Eu, marido de quem libertaria os negros da escravidão e entraria para a história do Brasil, comandava pessoal e airosamente o massacre. Os historiadores, essa gente bisbilhoteira e necessária, registraram seu apurado esmero e indisfarçável prazer. O nefasto delegado Sérgio Fleury teve um precursor com quase um século de antecedência...
Nossas cidades terminaram por ser habitadas por populações majoritariamente compostas de mulheres e crianças. Poucos homens restaram do genocídio perpetrado. Pedro II, que marcaria a história do Brasil por sua honradez, comportou-se de forma impressionante nessa obscura página da história do Brasil, mas inversamente conhecidíssima na história de meu país: não moveu uma palha ou disse palavra acerca do sadismo de seu genro criminoso.
Documentos por mim revirados no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, mostram a assinatura do velho Imperador autorizando a compra de barcos, chatas, cavalos e tudo o que fosse necessário para uma caçada de vida ou morte (mais de morte, certamente) à Lopez. Não bastava derrotar o déspota esclarecido, o republicano que os humilhava, o que havia desafiado todos os impérios, o da Inglaterra, o do Brasil, o da Espanha... Era preciso assinar seu epitáfio e esculpir sua lápide. E assim foi feito.
Derrotados, nunca mais fomos os mesmos. Passamos a ser conhecidos por uma República já bicentenária, mas atrasada em comparação aos vizinhos. Enfrentamos uma guerra cruel com a Bolívia na primeira metade do século passado. Roubaram-nos importante faixa territorial do Chaco, região paradoxalmente inóspita e riquíssima. Ganhamos a guerra. Nossos soldados mostraram a valentia e patriotismo que brasileiros, uruguaios e argentinos bem conheceram mais de meio século antes.
Nossa incipiente aviação militar e seus jovens pilotos assombraram os experts norte-americanos pela refinada técnica e o sucesso de suas ações contra o agressor. Mas numa história prenhe de ironias, vencemos a guerra e... jamais recuperamos as terras! Os bolivianos, que jamais olham nos olhos nem das pessoas nem da história, certamente se rejubilam em sua “andina soledad”, e como os argentinos depois da inexplicável Guerra das Malvinas, sabem-se “vice-campeones”...
Mal saímos da Guerra do Chaco e experimentamos a mesma e usual crônica tão comum a rigorosamente todos os outros países latino-americanos. Golpes e contra-golpes, instantes de democracia e hibernações em ditaduras ferrenhas. Presidentes se sucederam despachando no belíssimo Palácio de Lopez e vivendo na vetusta mansão de Mburuvicha Roga (“A casa do grande chefe”, em guarani).
Uns razoáveis, outros deploráveis. Nenhum deles, entretanto, recuperou a glória perdida dos anos de riqueza, opulência e fartura. Um herói da Guerra do Chaco tornou-se ditador e nos oprimiu por mais de três décadas. Homem duro, mas de hábitos espartanos e por demais interessante, o multifacético Alfredo Stroessner não recusou o papel menor de tirano, mas construiu com o Brasil a estupenda hidrelétrica de Itaipu, a maior obra de engenharia de seu tempo, salvando o Brasil de previsível hecatombe energética. Foi parceiro e amigo de todos os presidentes do Brasil de JK a Sarney.
Com os militares pós-64 deu-se às mil maravilhas, mas foi de suas mãos que o exilado João Goulart recebeu o passaporte com que viajaria para tratar sua saúde com cardiologistas franceses. Deposto, o velho ditador morreu no exílio, no Brasil. Nós que o combatíamos (nasci em Buenos Aires, onde meu pai, empresário de sucesso mas adversário da ditadura, curtia seu exílio) jamais soubemos de ação qualquer, uma que fosse, do Brasil em seus governos democráticos contra a ditadura do general que lhes deu Itaipu.
Depois de duas décadas da derrubada de Stroessner, nos aparece Fernando Lugo. Sua história é peculiar. Era bispo de San Pedro, simpaticão e esquerdista, pregava aos sem-terra e parecia não incomodar ninguém, nem aos fazendeiros da área. Pelos idos de 2007 o então presidente Nicanor Duarte Frutos, um jovem jornalista eleito pelos colorados, resolve seguir o péssimo exemplo de Menem, Fujimori e Fernando Henrique, e deixa clara sua vontade de mudar a Constituição e permanecer no presidência, através do instituto inexistente da reeleição. Seu governo era mais que sofrível e – descupem-nos a imodéstia latreada em nossa história – nós, os paraguaios, não somos dados ao desfrute de mudar nossa Carta Magna ao sabor da vontade de presidente algum.
O país se levantou contra a aventura e ele, o bispo bonachão, justamente por não ser político e garantir que não alimentava qualquer ambição de poder, é escolhido para ser o orador de um grande ato público, com dezenas de milhares de pessoas no centro de Assunção. Pastoral, envolvente, preciso, o Bispo de San Pedro cativou a multidão, deu conta do recado e catalisou a imensa indignação da cidadania.
A aventura continuísta de Nicanor não foi bem-sucedida, mas, com a sutileza de um príncipe da Igreja nos intricados concílios que antecedem a fumacinha branca no Vaticano, nos aparece um candidato forte à presidência da República: ‘habemus candidatum’! A batina vestia mais que um pastor, escondia um homem frio, ambicioso, ingrato e profundamente amoral.
Seu primeiro problema foi com a Santa Madre Igreja. O Santa Sé, certamente por saber algo que nós não sabíamos, vetou sua disposição política. Não, de jeito algum, ele jamais poderia ser candidato. A igreja católica combateu a ditadura do general Stroessner com imensa coragem e ação firme, mas não queria ocupar a presidência do país. “Roma coluta, causa finita” (“Roma falou, questão decidida”). Mas não para Lugo, que deixou seu bispado, despiu a batina e virou às costas a quem lhe educou e lhe acolheu no seu seio.
Poucos e corajosos colegas Bispos e padres o apoiaram abertamente. Na última sexta-feira, depois de três anos sem vê-lo ou serem por ele procurados, esses mesmos amigos e apoiadores foram até a residência presidencial pedir – em vão – que Lugo renunciasse à presidência do Paraguay para que se evitasse derramamento de sangue. O homem seduzido pelo poder disse não com frieza, levantando-se e despachando aqueles inoportunos portadores da palavra divina.
Candidato sem partido, entretanto com as simpatias da clara maioria do eleitorado. Filiou-se, pois, a um partido e o escolhido foi o centenário e respeitável PLRA, dos liberais, há mais de 60 anos fora do poder e com a respeitável bagagem de uma corajosa oposição à ditadura stroessnista. Como um Jânio Quadros, Lugo filiou-se ao Partido Liberal Radical Autêntico e usou sua bandeira, sua história e sua estrutura capilarizada em toda a sociedade paraguaia. E depois deu-lhe um adeus de mão fechada, frio e indiferente.
Eleito, desfez-se de todos os companheiros de jornada. Um a um. Stalin não apagou tantos nas fotos oficiais do Kremlin como o ex-bispo o fez. Mas demitiu os mais qualificados, por sinal. Restaram-lhe os cupinchas, os facilitadores de negócios e de festinhas íntimas, os “operadores” e alguns incautos esquerdistas para colorir com as tintas de um risível ‘socialismo guarani’ o governo de um homem que chegou como o Messias e terminaria como um Judas Escariotes.
Lugo poderia emprestar seu nome e sua trajetória de vida política (e pessoal, também) ao mestre Borges e tornar-se uma das impressionantes personagens da “História Universal da Infâmia”. Um infame, não mais que isso! Mal foi eleito e empossado, sucedem-se escândalos e se revela seu procedimento moral. Filhos impensados para um supostamente casto Bispo. Vários. Todos jamais reconhecidos ou amparados, gerados com mulheres as mais pobres e sem instrução alguma, do meio rural, humilhadas depois de usadas, uma delas com apenas 16 anos quando da gravidez. Se traíra a sua Igreja, por qual razão não nos trairia? E traiu.
Não passou um mês sequer durante seus três anos de governo sem que viajasse a um país qualquer. Com razão ou sem nenhuma, tanto fazia, e lá se ia ele, o alegre viajante para conferências esvaziadas ou cerimônias de posse de mandatários sem importância ou relevo para o Paraguay. As pompas do poder o abduziram como a nenhum déspota de república bananeira do Caribe. Os comboios de limusines com batedores estridentes, as festas e beija-mãos, os eternos e maviosos cortesãos do poder, as belas mulheres, as mesas fartas, os hotéis cinco estrelas, a riqueza, a opulência, os “negócios”.
O despojado ex-bispo tornou-se grande estancieiro, senhor de terras, plantações e gado. O presidente que tomou posse calçando prosaicas sandálias como símbolo de humildade, revelou-se um homem vaidoso e fetichista. Como que a vestir a mentira em que ele próprio se tornou, passou a envergar elegantes e bem-cortadas túnicas encomendadas à alfaiates da celebérrima e caríssima Savile Row, templo londrino da moda masculina.
No detalhe, o estelionato (mais um): colarinhos eclesiásticos. Afeiçoou-se a lindas e jovens, digamos, “modelos”, que floriram sua vida e a imensa banheira Jacuzzi que mandou instalar na austera e velha residência presidencial. Muitas delas o precediam mundo afora, esperando-o em hotéis fantásticos e palácios, nas vilegiaturas internacionais. Viajavam com documentos oficiais. Kaddafi auspiciava passaportes diplomáticos a terroristas, Lugo a prostitutas.
Sua afeição pelos jatinhos e jatões chegou às raias do fetiche: passou boa parte de seu peculiar mandato a bordo deles. Fretados à empresas de táxi aéreo de outros países, mandados pelos amigões Hugo Chávez e Lula, outros emprestados sabe-se lá por uns tais e misteriosos amigos. Chocou-se com o brasileiro Jorge Samek, fundador do PT e competente gestor, que na presidência brasileira da Itaipu resolveu vetar capricho juvenil do ex-bispo e delirante presidente: a poderosa binacional compraria um jato para seu uso.
Um Gulfstream estaria de bom tamanho, quem sabe um Falcon, ou até um brasileiríssimo Legacy, mas ele precisava ardentemente de um jato para chamar de seu. Depois mandou que o comandante da Força Aérea negociasse um Fokker 100, adaptado com suíte e ducha. Nada feito, o raio de ação seria pequeno e ele precisava ganhar o mundo. Por fim, nos estertores de seu governo, entabulava a compra de um Challenger, usado mas chique, de um cartola do futebol paraguaio. O preço, como sempre, mais um escândalo da Era Lugo: pelo menos o dobro de um modelo novo, saído de fábrica...
Obras viárias? Imagine. De infraestrutura? Nenhuma. Modernização do país? Nem pensou nisso. Crescimento econômico? Sim, mas por obra de uma agricultura forte, de empresários jovens e ambiciosos, de uma indústria florescente e de um ministro da economia, Dionísio Borda, que destoou da regra geral do governo Lugo: competente e austero, imune às vontades do presidente e distante da escória que o cercava.
A cada novo dia, no parlamento, nas redações, nos sindicatos, nos foros empresariais, nos encontros de amigos, um novo comentário, uma nova história de mais uma negociata dos assessores e companheiros de Lugo. Proporcionalmente, nem na ditadura de Stroessner (mais de três décadas), se roubou tanto quanto no governo pseudo-esquerdista de Fernando Lugo (menos de três anos). Já com Lugo deposto, seu secretário mais forte, Miguel Lopez Perito, telefonou à diretoria da Itaipu solicitando a bagatela de US$ 300 mil para organizar uma manifestação em defesa do governo. Queria ao vivo e a cores, "na mala", por fora, não contabilizado, no "caixa 2". Que tal? Fato tornado público por um diretor da binacional e revelador do modus-operandi da verdadeira quadrilha que comandava o país.
Seu processo de “Juízo Político” – algo como um processo de impeachment – está previsto na Constituição do Paraguay, e não foi uma travessura histórica de meia dúzia de líderes políticos ou parlamentares revidando as descortesias de Lugo para com os partidos, os empresários, os paraguayos todos. Que tipo de presidente era esse que teve 73 deputados votando por sua queda contra apenas 1 solitário voto? Que espécie de chefe da Nação era esse que teve 39 votos contrários no Senado contra apenas 4 de senadores fiéis ao seu desgoverno? Não teve tempo, apenas duas horas para defender-se, dizem.
Ora, a Constituição não determina tempo, apenas assegura-lhe o direito de defesa, exercido através de competentíssimos advogados, que fizeram exposições brilhantes na defesa do indefensável. Um deles, Dr. Adolfo Ferreiro, admitiu claramente que o processo era legal. De outro, Dr. Emilio Camacho, em imponente ironia da história, os magistrados da Suprema Corte extraíram em um de seus celebrados livros aqueles ensinamentos necessários e a devida jurisprudência para rechaçar chicana jurídica do já ex-presidente contra o processo legal, constitucional e moral que o defenestrou. C’est la vie, Monsieur Lugo!
Em Curuguaty, num despejo de terras ocupadas pelos "carperos" (os sem-terra daquí), dezenas de mortes de ambos os lados. Lugo e seu ministro do interior, o belicoso senador Carlos Filizzola, foram avisados de que havia uma emboscada pronta para as forças militares. Com a empáfia e a absoluta irresponsabilidade que os caracterizou do primeiro ao último dia, e fiel aos amigos que manejam o MST daquí e infernizam a vida de nossos produtores rurais (entre os quais os 350 mil brasileiros que aquí plantam, colhem e vivem, nossos irmãos "brasiguayos"), ambos ordenaram a ação que se tornou uma tragédia na história de nosso país.
Poderia citar, também, o EPP (Exército do Povo Paraguaio), guerrilha formada por terroristas intimamente ligados a Lugo em seus tempos no bispado de San Pedro. Jamais as forças de segurança puderam fazer nada contra eles. Mapeados, identificados, monitorados e livres! Lugo se manteve fiel aos bandidos pelos quais mostra clara e pública afeição. Como o respeitado Belaúnde Terry, no Perú, que permitiu com seu "democratismo" o crescimento do terror representado pelo Sendero Luminoso de Abimael Guzmán, o nada respeitável Lugo é o pai e a mãe do EPP.
Fernando Lugo foi um acidente em nossa história. Necessário, mas sofrido. Seus defeitos superaram suas virtudes. Aqueles eram muitos, essas muito poucas. Nós que nele votamos, sequiosos de um Estadista, nos deparamos com um sibarita. Seu legado é de decepção e fracasso. Não choraram por ele dentro de nossas fronteiras, e os que o defendem foram delas o fazem muito mais pensando no que lhes pode ocorrer do que por solidariedade ao desfrutável governante e desprezível homúnculo que cai.
O fim de seu governo dói mais a um já dolorido Chávez do que a nós. A Senhora Kirchner, radical na condenação que nos impõe, se esquece de nossa parceria na importante e gigantesca usina hidrelétrica de Yaciretá, e amplia sua lucrativa viuvez acolhendo em seu seio choroso o decaído amigo. Solidária? Nem tanto, apenas oportunista e sabendo que se abriu o precedente para que os parlamentos expulsem os incapazes.
Na Bolívia o sentimento popular em relação ao sectário e também bolivariano Evo Morales não é diferente do sentimento dos paraguayos por Lugo no outono de sua aventura presidencial. É pior. O relógio da história irá tocar as badaladas do fim de uma aventura mais que improdutiva: raivosa, racista e liberticida.
Não compreendemos a posição do Brasil. Ou não queremos compreender, tanto é o bem que lhe queremos. Nos arrasou como sicário da Rainha Vitória e nós lhe perdoamos e juntos construímos o colosso de Itaipu. O tratamos bem e ele defende a continuidade de uma das piores fases de nossa história, em nome do quê? Nega-nos o direito à autodeterminação, mas se esquece do papelão ridículo que fez em defesa de um cretino como Zelaya, um corrupto ligado a grupos somozistas de extermínio e que era tão esquerdista como Stroessner e democrático quanto Pinochet.
Foi deplorável o papel do inexpressivo chanceler Patriota (que não se perca pelo nome), saracoteando pelas ruas de Assunção em desabalada carreira, indo aos partidos Liberal e Colorado pressionar em favor de um presidente que caia. Adentrando o Parlamento ao lado do chanceler de Hugo Chávez, o Sr. Maduro, para ameaçar em benefício de um presidente que o país rejeitava. Indo ao vice-presidente Federico Franco ameaçar-lhe, com imensa desfaçatez, desconhecendo seu papel constitucional e o fato de que ninguém renunciaria a nada apenas por uma ameaça calhorda da Unasul (que não é nada) e outra ameaça não menos calhorda do Mercosul (que não é nada mais que uma ficção). O Barão do Rio Branco arrancou seus bigodes cofiados no túmulo profanado pelo Itamaraty de hoje.
O que quer o governo Dilma? Passar pelo mesmo vexame de Lula na paupérrima Honduras? Se afirmativo, já fica sabendo que passará. Nós temos imensa disposição de continuar uma parceria que se revelou positiva e decente para ambos os países. Mas não sentimos ou temos pela austera presidente o mesmo terror-medo-pânico que lhe devotam seus auxiliares e ministros.
Cara feia não faz história, apenas corrói biografias. Dilma chamou seu embaixador em Assunção e Cristina fez o mesmo. As radicais matronas só não sabiam que: o embaixador brasileiro é um ausente total, vivendo mais tempo em Pindorama do que por aqui. O Embaixador Eduardo Santos é tido no Paraguay como alguém que acredita que as três melhores coisas em nosso país são ar condicionado e passagem de volta.
Recorda o ex-embaixador Orlando Carbonar, que foi pego de surpresa em fevereiro de 1989 pelo movimento que derrubou o general Stroessner. Até meus filhos, crianças na época, sabiam que o golpe se avizinhava e que estouraria a qualquer momento, menos o embaixador brasileiro, que descansava no carnaval de Curitiba, sua cidade natal. Voltou às pressas, num jatinho da FAB, para embarcar Stroessner rumo ao Brasil.
E a Argentina... Bem, a Argentina não tem embaixador no Paraguay faz alguns meses... Ocupadíssima, Dona Cristina não nomeou seu substituto. País de necrófilos (amam Gardel, Che, Evita e Maradona, dentre outros defuntos), chamou um embaixador que não existe, um diplomata fantasma, até a Casa Rosada para consultas.
O Paraguay fez o que tinha que fazer. Seguirá adiante, como seguem adiante as Nações, testadas e curtidas pelas crises que retemperam a cidadania e reforçam a nacionalidade. O religioso que não honrou seus votos de castidade e pobreza e traiu sua igreja, foi por ela rejeitado.
O presidente que não honrou nossos votos e nos traiu, foi por nós deposto. Deposto por incapaz, por mentiroso, por ineficiente, por desonesto. Mas, principalmente, por que traiu as esperanças de um país e um povo que precisaram dele e nele confiaram. E, por isso, Lugo não voltará.
Chiqui Avalos é conhecido escritor e jornalista paraguaio. Combateu a ditadura de Stroessner e apoiou a candidatura de Fernando Lugo. É o editor de "Prensa Confidencial", influente boletim digital editado no Paraguai.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Pela qualidade no ensino superior
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Helena Bonciani Nader e Jacob Palis
A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), preocupadas com o teor do PLC 180/2008 que tramita no Senado Federal solicita aos senhores Senadores que não aprovem o referido instrumento, pelas razões enunciadas a seguir.
O PL determina a reserva de 50% das vagas em IFES para estudantes oriundos do ensino médio em escolas públicas. Adicionalmente, em seu Artigo 2º, proíbe a realização de exames vestibulares ou o uso do ENEM, obrigando que o processo seletivo adote exclusivamente a média das notas obtidas pelos candidatos nas disciplinas cursadas no ensino médio, tornando assim o ingresso no ensino superior dependente dos critérios de avaliação de cada escola.
Ainda, o Artigo 3º determina que essas vagas, em cada curso e turno, sejam destinadas a candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas, no mínimo igual à proporção de pretos, pardos e indígenas, na população da Unidade da Federação onde está instalada a instituição.
Consideramos que ao mesmo tempo em que o Brasil precisa criar condições mais inclusivas para o acesso à universidade, o País também precisa aumentar a qualidade dos cursos de ensino superior oferecidos em instituições públicas e privadas. A ABC e a SBPC reiteram que o acesso dos brasileiros à educação superior é tão importante quanto o grau de excelência desta educação. A oferta de oportunidades educacionais de qualidade é a garantia da cidadania e do desenvolvimento sócio econômico do País.
Um dos mais importantes instrumentos para se atingir estes objetivos no ensino superior é a "autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial universitária", garantida pelo Artigo 207 da Carta Magna brasileira. Faz parte da autonomia didático-científica a definição pela universidade da sistemática para a seleção dos estudantes ingressantes, lembrando que a Constituição brasileira dispõe no Artigo 208 o seguinte: "O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de (inciso V): acesso aos níveis mais elevados de ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um."
A atitude das instituições de ensino superior públicas brasileiras quanto às ações afirmativas tem demonstrado o enorme interesse e a criatividade destas organizações no tratamento do importante desafio da inclusão. Diferentes propostas de ações afirmativas, adequadas a cada cultura institucional e regional têm sido adotadas e é nosso entender que não se deve ceifar este movimento com uma obrigação uniforme e atentatória à autonomia universitária.
Helena Bonciani Nader é Presidente da SBPC e Jacob Palis, Presidente da ABC. Manifestação conjunta ABC e SBPC sobre o PLC 180/2008 que obriga a adoção de quotas para ingresso em universidades públicas e proíbe a realização de exames vestibulares. São Paulo/Rio de Janeiro, 4 de julho de 2012.
Por Helena Bonciani Nader e Jacob Palis
A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), preocupadas com o teor do PLC 180/2008 que tramita no Senado Federal solicita aos senhores Senadores que não aprovem o referido instrumento, pelas razões enunciadas a seguir.
O PL determina a reserva de 50% das vagas em IFES para estudantes oriundos do ensino médio em escolas públicas. Adicionalmente, em seu Artigo 2º, proíbe a realização de exames vestibulares ou o uso do ENEM, obrigando que o processo seletivo adote exclusivamente a média das notas obtidas pelos candidatos nas disciplinas cursadas no ensino médio, tornando assim o ingresso no ensino superior dependente dos critérios de avaliação de cada escola.
Ainda, o Artigo 3º determina que essas vagas, em cada curso e turno, sejam destinadas a candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas, no mínimo igual à proporção de pretos, pardos e indígenas, na população da Unidade da Federação onde está instalada a instituição.
Consideramos que ao mesmo tempo em que o Brasil precisa criar condições mais inclusivas para o acesso à universidade, o País também precisa aumentar a qualidade dos cursos de ensino superior oferecidos em instituições públicas e privadas. A ABC e a SBPC reiteram que o acesso dos brasileiros à educação superior é tão importante quanto o grau de excelência desta educação. A oferta de oportunidades educacionais de qualidade é a garantia da cidadania e do desenvolvimento sócio econômico do País.
Um dos mais importantes instrumentos para se atingir estes objetivos no ensino superior é a "autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial universitária", garantida pelo Artigo 207 da Carta Magna brasileira. Faz parte da autonomia didático-científica a definição pela universidade da sistemática para a seleção dos estudantes ingressantes, lembrando que a Constituição brasileira dispõe no Artigo 208 o seguinte: "O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de (inciso V): acesso aos níveis mais elevados de ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um."
A atitude das instituições de ensino superior públicas brasileiras quanto às ações afirmativas tem demonstrado o enorme interesse e a criatividade destas organizações no tratamento do importante desafio da inclusão. Diferentes propostas de ações afirmativas, adequadas a cada cultura institucional e regional têm sido adotadas e é nosso entender que não se deve ceifar este movimento com uma obrigação uniforme e atentatória à autonomia universitária.
Helena Bonciani Nader é Presidente da SBPC e Jacob Palis, Presidente da ABC. Manifestação conjunta ABC e SBPC sobre o PLC 180/2008 que obriga a adoção de quotas para ingresso em universidades públicas e proíbe a realização de exames vestibulares. São Paulo/Rio de Janeiro, 4 de julho de 2012.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Definições
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal
Nos mais diversos tipos de relacionamentos, de amizades, namoros, casamentos ou entre familiares, é facilmente possível perceber como as pessoas reagem de forma totalmente distinta diante de uma mesma situação.
Estabilidade financeira, filhos, netos, regras ou até os mais diversos comentários de rodas sociais não deveriam ser motivos para que pessoas fiquem unidas apesar de infelizes.
Entretanto, é comum ver pessoas que por motivos econômicos, políticos, inconfessáveis, inexplicáveis ou quaisquer outros, se acomodaram em situações nas quais certamente elas mesmas não gostariam de permanecer, mas aparentemente assim se mantém apesar de muitas vezes até se detestando.
Outras possuem uma incrível capacidade de apertar aquele famoso botão de finalização radical, o do foda-se, e o acionam sem a menor cerimônia, sempre que se sentem em situações desconfortáveis, acabando definitivamente com uma situação que as incomodava.
Independentemente do tipo de reação ou da situação de cada um, ao fim de cada página do livro diário de nossas vidas é necessário virá-la para podermos continuar nele escrevendo, ou ela será tão rasurada que depois de algum tempo, nem mesmo nós conseguiremos entendê-la.
Em seu texto Casos inacabados, o autor Ivan Martins fala sobre pessoas que - mesmo após o término de algum tipo de relacionamento - permanecem em nossas vidas por não havermos, efetivamente, colocado um ponto final em relação a elas.
Como exemplo cita o casal que termina uma relação, mas o saudosismo, a intimidade e o desejo, provocam situações de sexo que até satisfazem a fome, mas não a saciam realmente e ainda podem causar dor de barriga.
Finalizado um namoro, caso ou casamento, normalmente ocorrem momentos de indecisões, com tentativas válidas de reaproximação por um dos lados, porque muitos sentimentos permanecem, mas quando não são correspondidas, são infrutíferas, devem ser interrompidas, cessadas definitivamente.
Nessas ocasiões não importa quem amou, se deu, tentou, foi mais ou menos companheiro, e sim que as pessoas já não estão mais em sintonia sobre o caminho que pretendem seguir e, portanto, devem continuar por rumos diferentes, deixando como único elo entre eles os filhos, se existirem.
Todos os outros laços que os uniam, como bens patrimoniais, moradia, conta corrente bancária conjunta, atividades comerciais em que eram sócios ou uma simples caixa postal eletrônica compartilhada, devem ser definitivamente rompidos ou um verdadeiro afastamento não ocorrerá e nenhum novo relacionamento será bem sucedido sem que aquele esteja completamente resolvido, com todos os seus elos rompidos, pois sempre existirão pendências em relação ao passado.
Uma nova caminhada só será possível se realmente ocorrer um ponto final na anterior e, apesar de muitas vezes dolorosa, aquela página for virada.
Ao permanecer unidas em um relacionamento quando já não é o desejam, as pessoas jamais serão ou farão felizes seus amigos, sócios, namorados, companheiros, esposas ou maridos, pois o único motivo que certamente promove a felicidade é o desejo recíproco de continuar juntos.
O bem querer, a amizade, a paixão ou o amor jamais promoverão ou nos darão felicidade se não forem correspondidos.
Ao fim de cada etapa da vida, vire a página, mesmo que para isso necessite apertar seu botão mais radical.
João Bosco Leal é Jornalista, escritor e produtor rural - www.joaoboscoleal.com.br
Por João Bosco Leal
Nos mais diversos tipos de relacionamentos, de amizades, namoros, casamentos ou entre familiares, é facilmente possível perceber como as pessoas reagem de forma totalmente distinta diante de uma mesma situação.
Estabilidade financeira, filhos, netos, regras ou até os mais diversos comentários de rodas sociais não deveriam ser motivos para que pessoas fiquem unidas apesar de infelizes.
Entretanto, é comum ver pessoas que por motivos econômicos, políticos, inconfessáveis, inexplicáveis ou quaisquer outros, se acomodaram em situações nas quais certamente elas mesmas não gostariam de permanecer, mas aparentemente assim se mantém apesar de muitas vezes até se detestando.
Outras possuem uma incrível capacidade de apertar aquele famoso botão de finalização radical, o do foda-se, e o acionam sem a menor cerimônia, sempre que se sentem em situações desconfortáveis, acabando definitivamente com uma situação que as incomodava.
Independentemente do tipo de reação ou da situação de cada um, ao fim de cada página do livro diário de nossas vidas é necessário virá-la para podermos continuar nele escrevendo, ou ela será tão rasurada que depois de algum tempo, nem mesmo nós conseguiremos entendê-la.
Em seu texto Casos inacabados, o autor Ivan Martins fala sobre pessoas que - mesmo após o término de algum tipo de relacionamento - permanecem em nossas vidas por não havermos, efetivamente, colocado um ponto final em relação a elas.
Como exemplo cita o casal que termina uma relação, mas o saudosismo, a intimidade e o desejo, provocam situações de sexo que até satisfazem a fome, mas não a saciam realmente e ainda podem causar dor de barriga.
Finalizado um namoro, caso ou casamento, normalmente ocorrem momentos de indecisões, com tentativas válidas de reaproximação por um dos lados, porque muitos sentimentos permanecem, mas quando não são correspondidas, são infrutíferas, devem ser interrompidas, cessadas definitivamente.
Nessas ocasiões não importa quem amou, se deu, tentou, foi mais ou menos companheiro, e sim que as pessoas já não estão mais em sintonia sobre o caminho que pretendem seguir e, portanto, devem continuar por rumos diferentes, deixando como único elo entre eles os filhos, se existirem.
Todos os outros laços que os uniam, como bens patrimoniais, moradia, conta corrente bancária conjunta, atividades comerciais em que eram sócios ou uma simples caixa postal eletrônica compartilhada, devem ser definitivamente rompidos ou um verdadeiro afastamento não ocorrerá e nenhum novo relacionamento será bem sucedido sem que aquele esteja completamente resolvido, com todos os seus elos rompidos, pois sempre existirão pendências em relação ao passado.
Uma nova caminhada só será possível se realmente ocorrer um ponto final na anterior e, apesar de muitas vezes dolorosa, aquela página for virada.
Ao permanecer unidas em um relacionamento quando já não é o desejam, as pessoas jamais serão ou farão felizes seus amigos, sócios, namorados, companheiros, esposas ou maridos, pois o único motivo que certamente promove a felicidade é o desejo recíproco de continuar juntos.
O bem querer, a amizade, a paixão ou o amor jamais promoverão ou nos darão felicidade se não forem correspondidos.
Ao fim de cada etapa da vida, vire a página, mesmo que para isso necessite apertar seu botão mais radical.
João Bosco Leal é Jornalista, escritor e produtor rural - www.joaoboscoleal.com.br
domingo, 8 de julho de 2012
Inquietudes: Qual é a sua?
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marli Gonçalves
Adoro inventar palavras novas, ou mesmo apenas dar-lhes umas novas letras, formas e sentidos, para que possam ser mais usadas e gastas do que o normal. Às vezes elas vêm à minha cabeça bem prontinhas. Até poderiam ser encaminhadas para um dicionário especial, que seria um sucesso de vendas nos meios populares, lá onde as palavras nascem dos sentimentos. Tortinhas, mas expressivas.
Apresento-lhe, portanto, um sentimento que vejo comum a nós, brasileiros, pelo menos aos de bem, nesse momento: inquietitude. Ela, claro, a palavra, é uma variação da inquietude. Mas não para aí. Ela não se dá por rogada. Vai à luta, se mexe, tenta modificar as coisas, está atenta. É uma inquietude com atitude. Com movimento, e uma coisa que vibra (!) dentro de nós. A inquietitude é esperta, observadora, espera a hora e faz acontecer.
Claro que a inquietitude - pelo menos a que penso - se difere também do furor, inclusive sexual, interno. Esses últimos dias - em um daqueles momentos particulares de auto-análise, porque não dá para ter terapia$ e é preciso se entender - estava tentando compreender a minha inquietação e impaciência. Às vezes até acordo no meio da noite, o que não é normal, tentando resolver coisas que são - ou deveriam ser - apenas do dia. A inquietação é difusa, mais do que a luz do abajur seja de que cor for. Ela incomoda, dá palpitação, você pensa mil coisas em um minuto, se embaralha mais ainda. Acaba deixando ainda mais coisas sem conclusão, tanto cansaço, tanta preguiça.
As inquietudes, simples, existentes, segundo minhas observações, aumentam em períodos de Lua Cheia, como a grande e prateada dessa semana, sei lá por quais raios lunares e interplanetários vindos do infinito buraco negro. Daí a palavra ter se fixado na parte inventiva de minha cabeça e conseguido até me distrair, e se incorporar na forma de ação, e aí já de inquietitude. Não tem quem fale em ócio criativo? Acabo de inventar a inquietude com atitude, e também posso dar um blá de 171 a respeito, cheio de teses. Que tal uma palestra sobre como todo o país espera fervorosamente por mudanças, e que se uníssemos nossas inquietitudes conseguiríamos sair desse estágio de torpor?
Tinha assistido a debates na CPI, lido noticiário econômico, consultado meu não-saldo no banco, aberto quatro envelopes de contas para o dia 10 que se enfiaram debaixo de minha porta e que eram minhas mesmo, e me irritado com um nheconheco dos pedais do carro que fará com que ele seja recebido na oficina não vai demorar. O tempo estava seco. O Sol, lindo, o céu, azul, e eu fora do alcance de ambos. Não deu outra: deu o negócio.
Na verdade eu era a tradução viva de um sentimento para o qual existe um termo, em ídiche, mais ou menos assim "nishguit" . Seria a grosso modo um mau humor sem razão, uma aflição sem calor, pressentimentos sem razão, fatias de pessimismo inoportunas, desdém. Apelidei de "nishguit da Lua Cheia".
Nossa língua é viva e tem tudo para ser mais dinâmica do que é. Inclusive batida nos dentes para reclamar de tantas hipocrisias e remelexos. Juntamos palavras, inventamos sons. Agora ouvi, por exemplo, uma cantora falar que o seu ritmo era o sertanejaxé. Fazer o quê? Ouvimos pop rock, samba-canção, porque não funkaxé, funknejo, rapopular, gospelsamba? Na política teríamos o Lulaluf, o Haddaerunda, o Kassaserra, o Chalitemer, entre outros...
Basta mexer um pouquinho. Aglutinar. Rir para não chorar. Para quem diz que a língua é viva e a escrita, morta, digo que ambas estarão sempre se superando, principalmente para reportarmos os acontecimentos. Também não é ideia de aceitar erros, mas produzir acertos. Juntar lé com crê.
Enfim, aplacarmos nossas inquietitudes. Com movimentestos, enquanto há tempis, diria o sábio Mussum.
São Paulo, 2012, não para, não para. Mas parou para ver o Corinthians, igual parou para não ver o PCC em 2006
Marli Gonçalves é jornalista- Inquietude feminina que dá com lua, e sem lua também. Adora novas palavras, novos gestos e transformações. E tudo começou quando ganhou o genial "Emília no País da Gramática", de Monteiro Lobato (1934).
Por Marli Gonçalves
Adoro inventar palavras novas, ou mesmo apenas dar-lhes umas novas letras, formas e sentidos, para que possam ser mais usadas e gastas do que o normal. Às vezes elas vêm à minha cabeça bem prontinhas. Até poderiam ser encaminhadas para um dicionário especial, que seria um sucesso de vendas nos meios populares, lá onde as palavras nascem dos sentimentos. Tortinhas, mas expressivas.
Apresento-lhe, portanto, um sentimento que vejo comum a nós, brasileiros, pelo menos aos de bem, nesse momento: inquietitude. Ela, claro, a palavra, é uma variação da inquietude. Mas não para aí. Ela não se dá por rogada. Vai à luta, se mexe, tenta modificar as coisas, está atenta. É uma inquietude com atitude. Com movimento, e uma coisa que vibra (!) dentro de nós. A inquietitude é esperta, observadora, espera a hora e faz acontecer.
Claro que a inquietitude - pelo menos a que penso - se difere também do furor, inclusive sexual, interno. Esses últimos dias - em um daqueles momentos particulares de auto-análise, porque não dá para ter terapia$ e é preciso se entender - estava tentando compreender a minha inquietação e impaciência. Às vezes até acordo no meio da noite, o que não é normal, tentando resolver coisas que são - ou deveriam ser - apenas do dia. A inquietação é difusa, mais do que a luz do abajur seja de que cor for. Ela incomoda, dá palpitação, você pensa mil coisas em um minuto, se embaralha mais ainda. Acaba deixando ainda mais coisas sem conclusão, tanto cansaço, tanta preguiça.
As inquietudes, simples, existentes, segundo minhas observações, aumentam em períodos de Lua Cheia, como a grande e prateada dessa semana, sei lá por quais raios lunares e interplanetários vindos do infinito buraco negro. Daí a palavra ter se fixado na parte inventiva de minha cabeça e conseguido até me distrair, e se incorporar na forma de ação, e aí já de inquietitude. Não tem quem fale em ócio criativo? Acabo de inventar a inquietude com atitude, e também posso dar um blá de 171 a respeito, cheio de teses. Que tal uma palestra sobre como todo o país espera fervorosamente por mudanças, e que se uníssemos nossas inquietitudes conseguiríamos sair desse estágio de torpor?
Tinha assistido a debates na CPI, lido noticiário econômico, consultado meu não-saldo no banco, aberto quatro envelopes de contas para o dia 10 que se enfiaram debaixo de minha porta e que eram minhas mesmo, e me irritado com um nheconheco dos pedais do carro que fará com que ele seja recebido na oficina não vai demorar. O tempo estava seco. O Sol, lindo, o céu, azul, e eu fora do alcance de ambos. Não deu outra: deu o negócio.
Na verdade eu era a tradução viva de um sentimento para o qual existe um termo, em ídiche, mais ou menos assim "nishguit" . Seria a grosso modo um mau humor sem razão, uma aflição sem calor, pressentimentos sem razão, fatias de pessimismo inoportunas, desdém. Apelidei de "nishguit da Lua Cheia".
Nossa língua é viva e tem tudo para ser mais dinâmica do que é. Inclusive batida nos dentes para reclamar de tantas hipocrisias e remelexos. Juntamos palavras, inventamos sons. Agora ouvi, por exemplo, uma cantora falar que o seu ritmo era o sertanejaxé. Fazer o quê? Ouvimos pop rock, samba-canção, porque não funkaxé, funknejo, rapopular, gospelsamba? Na política teríamos o Lulaluf, o Haddaerunda, o Kassaserra, o Chalitemer, entre outros...
Basta mexer um pouquinho. Aglutinar. Rir para não chorar. Para quem diz que a língua é viva e a escrita, morta, digo que ambas estarão sempre se superando, principalmente para reportarmos os acontecimentos. Também não é ideia de aceitar erros, mas produzir acertos. Juntar lé com crê.
Enfim, aplacarmos nossas inquietitudes. Com movimentestos, enquanto há tempis, diria o sábio Mussum.
São Paulo, 2012, não para, não para. Mas parou para ver o Corinthians, igual parou para não ver o PCC em 2006
Marli Gonçalves é jornalista- Inquietude feminina que dá com lua, e sem lua também. Adora novas palavras, novos gestos e transformações. E tudo começou quando ganhou o genial "Emília no País da Gramática", de Monteiro Lobato (1934).
sábado, 7 de julho de 2012
Alcoolismo na terceira idade é preocupante
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Dra. Larriany Giglio
A prevalência de transtornos relacionados ao uso de álcool entre idosos é maior do que se imaginava. Dados recentes revelam que o problema não costuma ser diagnosticado na terceira idade devido aos sintomas do alcoolismo serem atribuídos a outras doenças crônicas como demência e depressão ou, muitas vezes, ao próprio envelhecimento.
Em um país em que a população está vivendo 25 anos a mais, comparado à década de 60, é este o momento certo para abrir uma discussão sobre o assunto. Transtornos relacionados ao álcool são comuns entre idosos e são muitas vezes subdiagnosticados, uma vez que os instrumentos de rastreamento mais utilizados e os critérios de diagnósticos atuais são voltados para pessoas mais jovens, e ainda, devido ao pouco preparo dos profissionais de saúde em abordar o problema nesta faixa etária. Sendo assim, ignoram evidências e questionamentos que ajudam a diagnosticar a dependência e, quando percebem o abuso do álcool, tratam como tolerável e não encaminham o paciente ao tratamento adequado.
Parece pouco, mas os efeitos da bebida nessa faixa etária também são graves: o fígado exibe redução da metabolização, o tubo digestivo diminui a capacidade de absorção, o estômago reduz a absorção de vitamina B12 e o pâncreas torna-se mais propenso aos quadros de pancreatites aguda e crônica. A polifarmácia e a utilização de medicamentos de venda livre aparecem como outros complicadores, podendo inclusive resultar em morte por associação de substâncias, como benzodiazepínicos e álcool.
O que leva os idosos a serem mais vulneráveis ao uso de álcool do que os jovens são os riscos maiores de efeitos adversos que eles apresentam, mesmo consumindo em doses baixas. É lamentável que o problema seja pouco avaliado e conhecido. A gravidade das alterações comportamentais e físicas torna extremamente importante a realização de estudos que compreendam esta faixa etária para que se possa conhecer a real extensão do problema por meio de medidas preventivas específicas e tratamento adequado.
Dra. Larriany Giglio é psiquiatra do Instituto Novo Mundo e especialista em dependência química.
Por Dra. Larriany Giglio
A prevalência de transtornos relacionados ao uso de álcool entre idosos é maior do que se imaginava. Dados recentes revelam que o problema não costuma ser diagnosticado na terceira idade devido aos sintomas do alcoolismo serem atribuídos a outras doenças crônicas como demência e depressão ou, muitas vezes, ao próprio envelhecimento.
Em um país em que a população está vivendo 25 anos a mais, comparado à década de 60, é este o momento certo para abrir uma discussão sobre o assunto. Transtornos relacionados ao álcool são comuns entre idosos e são muitas vezes subdiagnosticados, uma vez que os instrumentos de rastreamento mais utilizados e os critérios de diagnósticos atuais são voltados para pessoas mais jovens, e ainda, devido ao pouco preparo dos profissionais de saúde em abordar o problema nesta faixa etária. Sendo assim, ignoram evidências e questionamentos que ajudam a diagnosticar a dependência e, quando percebem o abuso do álcool, tratam como tolerável e não encaminham o paciente ao tratamento adequado.
Parece pouco, mas os efeitos da bebida nessa faixa etária também são graves: o fígado exibe redução da metabolização, o tubo digestivo diminui a capacidade de absorção, o estômago reduz a absorção de vitamina B12 e o pâncreas torna-se mais propenso aos quadros de pancreatites aguda e crônica. A polifarmácia e a utilização de medicamentos de venda livre aparecem como outros complicadores, podendo inclusive resultar em morte por associação de substâncias, como benzodiazepínicos e álcool.
O que leva os idosos a serem mais vulneráveis ao uso de álcool do que os jovens são os riscos maiores de efeitos adversos que eles apresentam, mesmo consumindo em doses baixas. É lamentável que o problema seja pouco avaliado e conhecido. A gravidade das alterações comportamentais e físicas torna extremamente importante a realização de estudos que compreendam esta faixa etária para que se possa conhecer a real extensão do problema por meio de medidas preventivas específicas e tratamento adequado.
Dra. Larriany Giglio é psiquiatra do Instituto Novo Mundo e especialista em dependência química.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Dádiva
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal
Em uma palestra que vi na internet, um fotógrafo revela como, durante quatro horas por dia e sete dias por semana, acompanhou fotograficamente uma flor desde seu nascimento, e como isso o fez perceber o quanto deveria ser grato por cada segundo vivido.
Enquanto falava, na parede atrás eram projetadas as imagens dos delicadíssimos movimentos das plantas, de gotas de águas que sobre elas caíram, o aparecimento de suas cores, a abertura de cada pétala até sua total exposição, amadurecimento, polinização por abelhas.
Lembrou sua plateia de que 80% de tudo o que sabemos chega ao nosso conhecimento através dos olhos, mas poucos são os que realmente enxergam o que olham à sua volta.
Com imagens e exemplos maravilhosos a palestra realmente chama a atenção para como, diariamente desprezando maravilhosos acontecimentos, passamos pela vida sem vivê-la e como somos ingratos por não estarmos constantemente agradecendo pela benção que é viver.
Quantas vezes ao acordar e começarmos um novo dia, olhamos para o sol nascendo e observamos a diferença de seus raios em relação ao dia anterior, o tempo mais aberto ou fechado, seco ou úmido, chovendo ou não, calor ou frio? Parece bobagem, mas jamais existiu ou existirá um momento como aquele, único, com milhares de variações de luminosidade, intensidade, umidade, cores e temperaturas.
O formato, a posição, as cores e a velocidade das nuvens variam milhões de vezes durante um único dia, e raras são as pessoas que em alguma oportunidade pensaram sobre isso, pois a maioria imagina que isso é uma enorme bobagem, que não existe nenhuma importância nesse fato.
Realmente, o formato das nuvens teoricamente em nada mudará sua vida, mas através de sua densidade, cor e velocidade é que a ciência consegue obter dados que, em conjunto com outras informações, permitem determinar a temperatura e as precipitações ou não nos próximos dias, o que influenciará significativamente o plantio, o desenvolvimento e a colheita de todos os alimentos que necessita para sua sobrevivência e comprova o quanto somos conectados e integrados a tudo o que está à nossa volta, principalmente a natureza.
Além das informações visuais, nosso cérebro recebe milhares de outras, de fontes diversas, como a diferença de temperatura climática, entre a água ou um objeto quente ou frio, o som do vento nas árvores ou o cheiro emanado da terra quando chove e a reação a qualquer dessas informações provoca um sentimento único, que faz com que em cada segundo de nossa vida tenhamos uma situação, história, que jamais se repetirá.
Nas observações feitas com os olhos e registradas em fotografias, podemos notar como o orvalho provocado por uma queda de água em um rio, nunca foi e jamais será igual, pois dependendo da intensidade do vento que o sopra, muda a cada instante, assim como o arco íris que jamais teve ou terá a mesma espessura, tamanho, tonalidade das cores ou estará no mesmo local.
Os olhos, as mais perfeitas máquinas fotográficas que existem, não utilizam filmes ou imagens digitais registradas em megapixels, mas exigem uma mente aberta para a recepção e processamento de suas informações, que serão entendidas de forma totalmente distintas por cada ser humano e, quando passamos a enxergar cada um desses detalhes, somos levados a refletir sobre aspectos que podem alterar significativamente nosso modo de ver e entender tudo o que vivemos.
Abra sua mente para as informações recebidas e perceba como, a cada segundo, deve ser grato pela maravilhosa dádiva que é sua vida.
João Bosco Leal é Jornalista, escritor e produtor rural - www.joaoboscoleal.com.br
Por João Bosco Leal
Em uma palestra que vi na internet, um fotógrafo revela como, durante quatro horas por dia e sete dias por semana, acompanhou fotograficamente uma flor desde seu nascimento, e como isso o fez perceber o quanto deveria ser grato por cada segundo vivido.
Enquanto falava, na parede atrás eram projetadas as imagens dos delicadíssimos movimentos das plantas, de gotas de águas que sobre elas caíram, o aparecimento de suas cores, a abertura de cada pétala até sua total exposição, amadurecimento, polinização por abelhas.
Lembrou sua plateia de que 80% de tudo o que sabemos chega ao nosso conhecimento através dos olhos, mas poucos são os que realmente enxergam o que olham à sua volta.
Com imagens e exemplos maravilhosos a palestra realmente chama a atenção para como, diariamente desprezando maravilhosos acontecimentos, passamos pela vida sem vivê-la e como somos ingratos por não estarmos constantemente agradecendo pela benção que é viver.
Quantas vezes ao acordar e começarmos um novo dia, olhamos para o sol nascendo e observamos a diferença de seus raios em relação ao dia anterior, o tempo mais aberto ou fechado, seco ou úmido, chovendo ou não, calor ou frio? Parece bobagem, mas jamais existiu ou existirá um momento como aquele, único, com milhares de variações de luminosidade, intensidade, umidade, cores e temperaturas.
O formato, a posição, as cores e a velocidade das nuvens variam milhões de vezes durante um único dia, e raras são as pessoas que em alguma oportunidade pensaram sobre isso, pois a maioria imagina que isso é uma enorme bobagem, que não existe nenhuma importância nesse fato.
Realmente, o formato das nuvens teoricamente em nada mudará sua vida, mas através de sua densidade, cor e velocidade é que a ciência consegue obter dados que, em conjunto com outras informações, permitem determinar a temperatura e as precipitações ou não nos próximos dias, o que influenciará significativamente o plantio, o desenvolvimento e a colheita de todos os alimentos que necessita para sua sobrevivência e comprova o quanto somos conectados e integrados a tudo o que está à nossa volta, principalmente a natureza.
Além das informações visuais, nosso cérebro recebe milhares de outras, de fontes diversas, como a diferença de temperatura climática, entre a água ou um objeto quente ou frio, o som do vento nas árvores ou o cheiro emanado da terra quando chove e a reação a qualquer dessas informações provoca um sentimento único, que faz com que em cada segundo de nossa vida tenhamos uma situação, história, que jamais se repetirá.
Nas observações feitas com os olhos e registradas em fotografias, podemos notar como o orvalho provocado por uma queda de água em um rio, nunca foi e jamais será igual, pois dependendo da intensidade do vento que o sopra, muda a cada instante, assim como o arco íris que jamais teve ou terá a mesma espessura, tamanho, tonalidade das cores ou estará no mesmo local.
Os olhos, as mais perfeitas máquinas fotográficas que existem, não utilizam filmes ou imagens digitais registradas em megapixels, mas exigem uma mente aberta para a recepção e processamento de suas informações, que serão entendidas de forma totalmente distintas por cada ser humano e, quando passamos a enxergar cada um desses detalhes, somos levados a refletir sobre aspectos que podem alterar significativamente nosso modo de ver e entender tudo o que vivemos.
Abra sua mente para as informações recebidas e perceba como, a cada segundo, deve ser grato pela maravilhosa dádiva que é sua vida.
João Bosco Leal é Jornalista, escritor e produtor rural - www.joaoboscoleal.com.br
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Drogas para uso pessoal
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Célio Pezza
Uma comissão de juristas aprovou, em 28 de maio, a descriminalização de drogas ilícitas para uso pessoal. Este anteprojeto será enviado ao Congresso e depois votado no Senado nos próximos meses. Em alguns pontos, o texto não é claro e sujeito a várias interpretações, como no caso de um juiz precisar saber da natureza da droga (maconha, crack, cocaína, etc.), da quantidade, do local da apreensão, da conduta do infrator e outros quesitos sociais para determinar se a droga era para consumo pessoal.
Usar droga não é crime, mas vender é crime. Ora, considerando que o usuário precisa da droga e que seu uso é permitido, também precisamos considerar que ele irá comprar de alguém. Sempre que existir alguém querendo comprar alguma coisa, existirá alguém vendendo esta coisa. É uma regra de mercado. O traficante alicia jovens para este mundo e depois passa a faturar em cima destes dependentes. O tráfico é internacional, está arraigado, inclusive, na cúpula de diversos países do mundo e é uma das grandes fontes de renda de alguns governantes corruptos. Neste ponto, ninguém quer mexer, ou por medo, ou por conveniência.
Se a intenção é descriminalizar o usuário, também deveriam considerar uma venda oficial e controlada para acabar com esta vergonha do tráfico. O texto também diz que, se o uso da droga ocorrer diante de escolas, aí sim, será crime. Ora, um crime depende do local onde é cometido? Também temos a hipótese do traficante que carrega somente pequenas quantidades de drogas de cada vez. Neste caso, ele poderá ser considerado usuário e não será incomodado. Parece ser um texto criado para atender uma parcela da sociedade, mas que, realmente, não vai resolver o problema.
No ano passado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se posicionou a favor desta descriminalização e mostrou Portugal como um exemplo a ser seguido, alegando que lá já existe uma legislação semelhante. Por outro lado, o médico português Manuel Pinto Coelho, presidente da APLD (Associação para Portugal Livre de Drogas), diz que, após dez anos de funcionamento desta lei, os resultados foram deploráveis e que houve significativo aumento do consumo de drogas em Portugal. Isto tudo porque pouco se fez com respeito ao traficante e este é o ponto crítico do problema.
É evidente que um doente usuário não pode ser considerado um criminoso e ir para uma prisão comum, mas algo tem que ser feito para combater a doença. Quando temos uma epidemia, combatemos as causas, e isto não está acontecendo de forma eficaz, no caso das drogas.
Célio Pezza é escritor e autor de diversos livros, entre eles: As Sete Portas, Ariane, A Palavra Perdida e o seu mais recente A Nova Terra - Recomeço. Saiba mais em www.celiopezza.com / Blog: celiopezza.com/wordpress
Por Célio Pezza
Uma comissão de juristas aprovou, em 28 de maio, a descriminalização de drogas ilícitas para uso pessoal. Este anteprojeto será enviado ao Congresso e depois votado no Senado nos próximos meses. Em alguns pontos, o texto não é claro e sujeito a várias interpretações, como no caso de um juiz precisar saber da natureza da droga (maconha, crack, cocaína, etc.), da quantidade, do local da apreensão, da conduta do infrator e outros quesitos sociais para determinar se a droga era para consumo pessoal.
Usar droga não é crime, mas vender é crime. Ora, considerando que o usuário precisa da droga e que seu uso é permitido, também precisamos considerar que ele irá comprar de alguém. Sempre que existir alguém querendo comprar alguma coisa, existirá alguém vendendo esta coisa. É uma regra de mercado. O traficante alicia jovens para este mundo e depois passa a faturar em cima destes dependentes. O tráfico é internacional, está arraigado, inclusive, na cúpula de diversos países do mundo e é uma das grandes fontes de renda de alguns governantes corruptos. Neste ponto, ninguém quer mexer, ou por medo, ou por conveniência.
Se a intenção é descriminalizar o usuário, também deveriam considerar uma venda oficial e controlada para acabar com esta vergonha do tráfico. O texto também diz que, se o uso da droga ocorrer diante de escolas, aí sim, será crime. Ora, um crime depende do local onde é cometido? Também temos a hipótese do traficante que carrega somente pequenas quantidades de drogas de cada vez. Neste caso, ele poderá ser considerado usuário e não será incomodado. Parece ser um texto criado para atender uma parcela da sociedade, mas que, realmente, não vai resolver o problema.
No ano passado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se posicionou a favor desta descriminalização e mostrou Portugal como um exemplo a ser seguido, alegando que lá já existe uma legislação semelhante. Por outro lado, o médico português Manuel Pinto Coelho, presidente da APLD (Associação para Portugal Livre de Drogas), diz que, após dez anos de funcionamento desta lei, os resultados foram deploráveis e que houve significativo aumento do consumo de drogas em Portugal. Isto tudo porque pouco se fez com respeito ao traficante e este é o ponto crítico do problema.
É evidente que um doente usuário não pode ser considerado um criminoso e ir para uma prisão comum, mas algo tem que ser feito para combater a doença. Quando temos uma epidemia, combatemos as causas, e isto não está acontecendo de forma eficaz, no caso das drogas.
Célio Pezza é escritor e autor de diversos livros, entre eles: As Sete Portas, Ariane, A Palavra Perdida e o seu mais recente A Nova Terra - Recomeço. Saiba mais em www.celiopezza.com / Blog: celiopezza.com/wordpress
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Pedofilia. Crime ou doença?
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Breno Rosostolato
Este artigo pretende discutir a pedofilia por um aspecto psicológico e desmembrar o tema ao que se refere a complexidade do psiquismo, resvalando nas questões sobre criminalidade. O tema sugere reflexões e suscita discussões, um diálogo social e um olhar para um fenômeno que é antigo. O artigo visa a preocupação de acolher a infância, alvo direto desta violência.
Houve um significativo aumento de crimes que possuem caráter pedófilo, bem como o debate sobre. Justamente por isso existem equívocos sobre o assunto que precisam ser elucidados. Proponho conhecer osmeandros da pedofilia e posteriormente aos critérios que enquadram a pedofilia como crime.
A pedofilia deve ser entendida como uma perversão, distinguido um comportamento e traços de personalidade do indivíduo. Jacques Lacan, psicanalista francês, distinguiu o comportamento perverso e a estrutura psíquica perversa, leitura na qual estou mais inclinado a adotar. O indivíduo perverso busca satisfazer-se sexualmente a qualquer custo. Busca concretizar seu gozo recusando qualquer aspecto moral, alicerçado em questões narcísicas e onipotentes. Enquanto estrutura, é necessário fazer uma leitura das relações edípicas, ou seja, os primeiros vínculos familiares e os elos afetivos constituídos através das relações interpessoais. As práticas sexuais seriam um substituto das angústias e conflitos da infância em que o próprio prazer é posicionado diante do desejo do outro.
A pedofilia faz parte de uma classe de parafilias, ou seja, o desejo sexual é investido em situações que não envolvam diretamente o ato sexual. A sadomasoquia, o voyerismo, exibicionismo e o fetiche sexual, são alguns exemplos e consistem na fantasia ou comportamento sexual e erótico que envolva objetos, lugares, partes específicas do corpo inusitados e incomuns. Existe mais de 500 tipos de parafilias. Existem parafilias associadas à pedofilia como a Cronofilia, atração sexual por pessoas fora da faixa etária, seria o distúrbio parafílico que ramifica-se a outroscomo a Nepiofilia que é a atração sexual por infantes e crianças até 3 anos, a Hebefelia que é o desejo sexual por adolescentes púberes (com o corpo em transformação), entre nove e treze anos e a Efebofilia que caracteriza-se pela atração à adolescentes. Odesejo latente contrário também existe, como a Teleiofilia que é uma atração incomum por um adulto e a Gerentofilia que é o desejo por idosos.
A pedofilia em si não é crime, pois, as pessoas que possuem um comportamento libidinoso em relação a uma criança são enquadradas pelo crime de estupro (art. 213 do Código Penal) e atentado violento ao pudor (art. 214 do Código Penal), agravados pela presunção de violência previstano (art. 224, “a”, do Código Penal), ambos com pena de seis a dez anos de reclusão e considerados crimes hediondos. Sou a favor que a pessoa seja punida pelos malefícios, abusos e agressões físicas e emocionais que causou na vítima, mas acho importante esclarecermos que a pedofilia não possui uma lei criminal específica.
Realizando uma reflexão mais profunda do tema, o termo significa “Pedo” criança e “filia” amizade, afinidade ou atração, portanto, pessoas que gostam de crianças poderiam ser classificados como tal. O que diferencia o cidadão de bem do algoz é o grau do desejo implicado nestarelação, o adulto que utiliza a sedução, controla e manipula uma situação e, por conseguinte, manifesta um comportamento pervertido, associado a satisfação do prazer e sustentado por uma falta, uma recusa de princípios morais e éticos.
Pornografia infantil é crime e qualquer forma de exploração à criança, como o trabalho, seja ele escravo ou não, deve ser considerado crime. O turismo sexual e a prostituição infantil são duras realidades e devem ser combatidos. Hoje a internet é um dos, se não o principal artifício que os criminosos utilizam para a exploração sexual infantil, além de outras formas que passam despercebidas. Exemplo disso são os desenhos Lolicon e Shotacon no Japão, que significam o mesmo que pedofilia, em que meninas e meninos são representados fazendo sexo. Casos como do alemão Josef Fritzl, 73 anos, pai que confessou termantido relações sexuais com a filha por 24 anos e teve 7 filhos com ela, são descobertos com cada vez mais freqüência, aqui no Brasil e em outros países.
Acho importante discutir o tema tentando esclarecer as diferenças do ato criminoso e o conflito psicológico. A pedofilia e o interesse pela infância já existe há muito tempo, em que a desmoralização da infância denuncia os desrespeitos e os infanticídios que foram e são cometidos pelas mazelas dos adultos e por famílias relapsa e mal preparadas para assistir este ser em crescimento. É perigoso essa simbiose entre a inocência infantil e a realidade da vida adulta. Em vista desta discussão, considero a pedofilia uma doença social.
Breno Rosostolato é professor de psicologia da Faculdade Santa Marcelina.
Por Breno Rosostolato
Este artigo pretende discutir a pedofilia por um aspecto psicológico e desmembrar o tema ao que se refere a complexidade do psiquismo, resvalando nas questões sobre criminalidade. O tema sugere reflexões e suscita discussões, um diálogo social e um olhar para um fenômeno que é antigo. O artigo visa a preocupação de acolher a infância, alvo direto desta violência.
Houve um significativo aumento de crimes que possuem caráter pedófilo, bem como o debate sobre. Justamente por isso existem equívocos sobre o assunto que precisam ser elucidados. Proponho conhecer osmeandros da pedofilia e posteriormente aos critérios que enquadram a pedofilia como crime.
A pedofilia deve ser entendida como uma perversão, distinguido um comportamento e traços de personalidade do indivíduo. Jacques Lacan, psicanalista francês, distinguiu o comportamento perverso e a estrutura psíquica perversa, leitura na qual estou mais inclinado a adotar. O indivíduo perverso busca satisfazer-se sexualmente a qualquer custo. Busca concretizar seu gozo recusando qualquer aspecto moral, alicerçado em questões narcísicas e onipotentes. Enquanto estrutura, é necessário fazer uma leitura das relações edípicas, ou seja, os primeiros vínculos familiares e os elos afetivos constituídos através das relações interpessoais. As práticas sexuais seriam um substituto das angústias e conflitos da infância em que o próprio prazer é posicionado diante do desejo do outro.
A pedofilia faz parte de uma classe de parafilias, ou seja, o desejo sexual é investido em situações que não envolvam diretamente o ato sexual. A sadomasoquia, o voyerismo, exibicionismo e o fetiche sexual, são alguns exemplos e consistem na fantasia ou comportamento sexual e erótico que envolva objetos, lugares, partes específicas do corpo inusitados e incomuns. Existe mais de 500 tipos de parafilias. Existem parafilias associadas à pedofilia como a Cronofilia, atração sexual por pessoas fora da faixa etária, seria o distúrbio parafílico que ramifica-se a outroscomo a Nepiofilia que é a atração sexual por infantes e crianças até 3 anos, a Hebefelia que é o desejo sexual por adolescentes púberes (com o corpo em transformação), entre nove e treze anos e a Efebofilia que caracteriza-se pela atração à adolescentes. Odesejo latente contrário também existe, como a Teleiofilia que é uma atração incomum por um adulto e a Gerentofilia que é o desejo por idosos.
A pedofilia em si não é crime, pois, as pessoas que possuem um comportamento libidinoso em relação a uma criança são enquadradas pelo crime de estupro (art. 213 do Código Penal) e atentado violento ao pudor (art. 214 do Código Penal), agravados pela presunção de violência previstano (art. 224, “a”, do Código Penal), ambos com pena de seis a dez anos de reclusão e considerados crimes hediondos. Sou a favor que a pessoa seja punida pelos malefícios, abusos e agressões físicas e emocionais que causou na vítima, mas acho importante esclarecermos que a pedofilia não possui uma lei criminal específica.
Realizando uma reflexão mais profunda do tema, o termo significa “Pedo” criança e “filia” amizade, afinidade ou atração, portanto, pessoas que gostam de crianças poderiam ser classificados como tal. O que diferencia o cidadão de bem do algoz é o grau do desejo implicado nestarelação, o adulto que utiliza a sedução, controla e manipula uma situação e, por conseguinte, manifesta um comportamento pervertido, associado a satisfação do prazer e sustentado por uma falta, uma recusa de princípios morais e éticos.
Pornografia infantil é crime e qualquer forma de exploração à criança, como o trabalho, seja ele escravo ou não, deve ser considerado crime. O turismo sexual e a prostituição infantil são duras realidades e devem ser combatidos. Hoje a internet é um dos, se não o principal artifício que os criminosos utilizam para a exploração sexual infantil, além de outras formas que passam despercebidas. Exemplo disso são os desenhos Lolicon e Shotacon no Japão, que significam o mesmo que pedofilia, em que meninas e meninos são representados fazendo sexo. Casos como do alemão Josef Fritzl, 73 anos, pai que confessou termantido relações sexuais com a filha por 24 anos e teve 7 filhos com ela, são descobertos com cada vez mais freqüência, aqui no Brasil e em outros países.
Acho importante discutir o tema tentando esclarecer as diferenças do ato criminoso e o conflito psicológico. A pedofilia e o interesse pela infância já existe há muito tempo, em que a desmoralização da infância denuncia os desrespeitos e os infanticídios que foram e são cometidos pelas mazelas dos adultos e por famílias relapsa e mal preparadas para assistir este ser em crescimento. É perigoso essa simbiose entre a inocência infantil e a realidade da vida adulta. Em vista desta discussão, considero a pedofilia uma doença social.
Breno Rosostolato é professor de psicologia da Faculdade Santa Marcelina.
terça-feira, 3 de julho de 2012
O prazer e a felicidade
Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Arnaldo Jabor
Eu escrevia um artigo sobre a felicidade como obrigação do mercado, quando li o texto de Contardo Calligaris na Folha, que citava uma pesquisa sobre o tema, chamada "Procurar a felicidade pode fazer as pessoas felizes?".
Diz um trecho da pesquisa: "Espera-se que aqueles que buscam a felicidade alcancem resultados benéficos. Não necessariamente (diz a pesquisa) porque quanto mais valorizam a felicidade, mais poderão se decepcionar."
Eu penso: que felicidade? A de ontem ou a de hoje?
Antigamente, a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros; a felicidade demandava "sacrifícios".
Hoje, o mercado demanda uma felicidade dinâmica e incessante, como uma "fast-food" da alma. O mundo veloz da internet, do celular, do mercado financeiro nos obriga a uma gincana contra a morte ou velhice. Ser deprimido não é mais "comercial". É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja.
A felicidade hoje é "não" ver. Felicidade é uma lista de negações. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os mendigos na rua, não ter coração. A felicidade é ter bom funcionamento. Há décadas, McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador.
Felicidade é ser desejado, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo.
Sem a promessa de eternidade, tudo vira uma aventura. Em vez da felicidade, temos o gozo rápido do sexo em vez do longo sofrimento gozoso do amor.
O amor hoje é o cultivo da "intensidade" contra a "eternidade". Aí, a dor vem como prazer, a saudade como excitação, o instante como eterno.
Por isso, perdemos esperanças de plenitude e celebramos sonhos efêmeros. Bem - dirão vocês - resta-nos o amor... Mas, onde anda hoje em dia, esta pulsão chamada "amor"? O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem "olhos de ressaca", nem o formicida com guaraná. É o fim do "happy end". Mas, mesmo assim, continuamos ansiando por uma felicidade impalpável.
Por isso, em vez da felicidade, cresce o império do prazer.
Mas o prazer pode nos dar culpa e a culpa pode dar prazer. Os masoquistas sabem disso: todo prazer será castigado. O prazer deixa muito a desejar, o prazer nos deixa insatisfeitos porque acaba logo. O prazer sempre demanda mais prazer, orgias mais perversas, drogas mais alucinantes. O prazer não quer ter fim. A felicidade é analógica e o prazer digital. A felicidade ficou chata, tem de ser administrada, e é feita também de sofrimentos e dúvidas. O prazer não; pega, mata e come. As caras das revistas ostentam uma gargalhada eterna. O prazer quer botar o mundo para dentro, sugar, comer a vida como um pudim, pela boca, por todos os buracos. Prazer é "cool". Felicidade é careta.
Mas o prazer (infelizmente) precisa da proibição. Antigamente, tínhamos pecados perfumando os prazeres, mas hoje ficou tudo no instante pleno, principalmente no sexo, para substituir frustrações políticas e sociais.
Nosso prazer anda muito exclusivista; o chamado "outro" não passa de um pretexto para nosso narcisismo masturbatório.
Aliás, o vício solitário é bem seguro. A punheta é onisciente e gira em todas as direções, é um caleidoscópio de mulheres ou de homens. Não me refiro à mera "coça na miúda", nem no "estrangulamento do pele-vermelha", mas à masturbação na alma, ao narcisismo de seres perdidos num deserto de possibilidades sem-fim. Em meio a tanta liberdade, nunca fomos tão solitários. A masturbação existe até no grande amor romântico, onde os dois narcisismos se beijam, se arranham, mas não se comunicam. Cada vez mais o parcial, o fortuito é gozoso. Só o parcial nos excita. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que nunca alcançamos.
Não há mais "todo"; só partes. Não se chega a lugar nenhum porque não há onde chegar. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a falta de sentido de tudo. Usamos uma máscara sorridente, um disfarce para nos proteger desse abismo. Mas esse abismo é nossa salvação. A aceitação do incompleto é um chamado à vida. Temos de ser felizes sem esperança.
Mas aí, dirá o leitor mais sábio e, talvez, mais velho: "Sim, mas e a contemplação calma da natureza, os lagos dourados, as flores e as crianças correndo, e as auroras, os céus estrelados? E a arte? Isso não é prazer?" Sim, sim, mas por trás dessa calma contemplação de auroras e belezas, florestas e oceanos, há um ensaio para o fim, há o preparo para o maior prazer de todos, há a saudade oculta de algo que está mais além da vida, ou antes dela. Entre flores e lagos dourados contemplamos nosso fim. É uma saudade não sabemos de quê...
É um prazer além do prazer (v. Freud), é o prazer da matéria. A matéria quer paz. Nós somos um transtorno para a matéria que quer voltar a seu silêncio. A vida e o prazer enchem o saco da matéria que é obrigada a nos suportar. A matéria olha nossos arroubos de vida e espera pacientemente que acabe a valentia para voltarmos ao prado, à grama, à terra, ao sossego da tumba. Mais além do princípio do prazer, está a invencível vontade de morrer. Somos sonhados pela matéria da qual somos apenas um tremor, um despautério, uma agitação banal. A matéria nos sonha com tanta perfeição que pensamos que temos espírito.
O prazer da matéria é paciente. Só sentiremos um grande prazer quando não estivermos mais presentes.
Arnaldo Jabor é Cineasta e Jornalista. Originalmente publicado nos jornais O Globo e Estadão, em 3 de julho de 2012.
Por Arnaldo Jabor
Eu escrevia um artigo sobre a felicidade como obrigação do mercado, quando li o texto de Contardo Calligaris na Folha, que citava uma pesquisa sobre o tema, chamada "Procurar a felicidade pode fazer as pessoas felizes?".
Diz um trecho da pesquisa: "Espera-se que aqueles que buscam a felicidade alcancem resultados benéficos. Não necessariamente (diz a pesquisa) porque quanto mais valorizam a felicidade, mais poderão se decepcionar."
Eu penso: que felicidade? A de ontem ou a de hoje?
Antigamente, a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros; a felicidade demandava "sacrifícios".
Hoje, o mercado demanda uma felicidade dinâmica e incessante, como uma "fast-food" da alma. O mundo veloz da internet, do celular, do mercado financeiro nos obriga a uma gincana contra a morte ou velhice. Ser deprimido não é mais "comercial". É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja.
A felicidade hoje é "não" ver. Felicidade é uma lista de negações. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os mendigos na rua, não ter coração. A felicidade é ter bom funcionamento. Há décadas, McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador.
Felicidade é ser desejado, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo.
Sem a promessa de eternidade, tudo vira uma aventura. Em vez da felicidade, temos o gozo rápido do sexo em vez do longo sofrimento gozoso do amor.
O amor hoje é o cultivo da "intensidade" contra a "eternidade". Aí, a dor vem como prazer, a saudade como excitação, o instante como eterno.
Por isso, perdemos esperanças de plenitude e celebramos sonhos efêmeros. Bem - dirão vocês - resta-nos o amor... Mas, onde anda hoje em dia, esta pulsão chamada "amor"? O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem "olhos de ressaca", nem o formicida com guaraná. É o fim do "happy end". Mas, mesmo assim, continuamos ansiando por uma felicidade impalpável.
Por isso, em vez da felicidade, cresce o império do prazer.
Mas o prazer pode nos dar culpa e a culpa pode dar prazer. Os masoquistas sabem disso: todo prazer será castigado. O prazer deixa muito a desejar, o prazer nos deixa insatisfeitos porque acaba logo. O prazer sempre demanda mais prazer, orgias mais perversas, drogas mais alucinantes. O prazer não quer ter fim. A felicidade é analógica e o prazer digital. A felicidade ficou chata, tem de ser administrada, e é feita também de sofrimentos e dúvidas. O prazer não; pega, mata e come. As caras das revistas ostentam uma gargalhada eterna. O prazer quer botar o mundo para dentro, sugar, comer a vida como um pudim, pela boca, por todos os buracos. Prazer é "cool". Felicidade é careta.
Mas o prazer (infelizmente) precisa da proibição. Antigamente, tínhamos pecados perfumando os prazeres, mas hoje ficou tudo no instante pleno, principalmente no sexo, para substituir frustrações políticas e sociais.
Nosso prazer anda muito exclusivista; o chamado "outro" não passa de um pretexto para nosso narcisismo masturbatório.
Aliás, o vício solitário é bem seguro. A punheta é onisciente e gira em todas as direções, é um caleidoscópio de mulheres ou de homens. Não me refiro à mera "coça na miúda", nem no "estrangulamento do pele-vermelha", mas à masturbação na alma, ao narcisismo de seres perdidos num deserto de possibilidades sem-fim. Em meio a tanta liberdade, nunca fomos tão solitários. A masturbação existe até no grande amor romântico, onde os dois narcisismos se beijam, se arranham, mas não se comunicam. Cada vez mais o parcial, o fortuito é gozoso. Só o parcial nos excita. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que nunca alcançamos.
Não há mais "todo"; só partes. Não se chega a lugar nenhum porque não há onde chegar. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a falta de sentido de tudo. Usamos uma máscara sorridente, um disfarce para nos proteger desse abismo. Mas esse abismo é nossa salvação. A aceitação do incompleto é um chamado à vida. Temos de ser felizes sem esperança.
Mas aí, dirá o leitor mais sábio e, talvez, mais velho: "Sim, mas e a contemplação calma da natureza, os lagos dourados, as flores e as crianças correndo, e as auroras, os céus estrelados? E a arte? Isso não é prazer?" Sim, sim, mas por trás dessa calma contemplação de auroras e belezas, florestas e oceanos, há um ensaio para o fim, há o preparo para o maior prazer de todos, há a saudade oculta de algo que está mais além da vida, ou antes dela. Entre flores e lagos dourados contemplamos nosso fim. É uma saudade não sabemos de quê...
É um prazer além do prazer (v. Freud), é o prazer da matéria. A matéria quer paz. Nós somos um transtorno para a matéria que quer voltar a seu silêncio. A vida e o prazer enchem o saco da matéria que é obrigada a nos suportar. A matéria olha nossos arroubos de vida e espera pacientemente que acabe a valentia para voltarmos ao prado, à grama, à terra, ao sossego da tumba. Mais além do princípio do prazer, está a invencível vontade de morrer. Somos sonhados pela matéria da qual somos apenas um tremor, um despautério, uma agitação banal. A matéria nos sonha com tanta perfeição que pensamos que temos espírito.
O prazer da matéria é paciente. Só sentiremos um grande prazer quando não estivermos mais presentes.
Arnaldo Jabor é Cineasta e Jornalista. Originalmente publicado nos jornais O Globo e Estadão, em 3 de julho de 2012.
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