terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os Canalhas nos ensinam mais

Artigo no Fique Alerta –www.fiquealerta.net
Por Arnaldo Jabor

Nunca vimos uma coisa assim. Ao menos, eu nunca vi. A herança maldita da política de sujas alianças que Lula nos deixou criou uma maré vermelha de horrores. Qualquer gaveta que se abra, qualquer tampa de lata de lixo levantada faz saltar um novo escândalo da pesada. Parece não haver mais inocentes em Brasília e nos currais do País todo. As roubalheiras não são mais segredos de gabinetes ou de cafezinhos.

As chantagens são abertas, na cara, na marra, chegando ao insulto machista contra a presidente, desafiada em público. Um diz que é forte como uma pirâmide, outro que só sai a tiro, outro diz que ela não tem coragem de demiti-lo, outro que a ama, outro que a odeia. Canalhas se escandalizam se um técnico for indicado para um cargo técnico. Chego a ver nos corruptos um leve sorriso de prazer, a volúpia do mal assumido, uma ponta de orgulho por seus crimes seculares, como se zelassem por uma tradição brasileira.

Temos a impressão de que está em marcha uma clara "revolução dentro da corrupção", um deslavado processo com o fito explícito de nos acostumar ao horror, como um fato inevitável. Parece que querem nos convencer de que nosso destino histórico é a maçaroca informe de um grande maranhão eterno. A mentira virou verdade?

Diante dos vídeos e telefonemas gravados, os acusados batem no peito e berram: "É mentira!" Mas, o que é a mentira? A verdade são os crimes evidentes que a PF e a mídia descobrem ou os desmentidos dos que os cometeram? Não há mais respeito, não digo pela verdade; não há respeito nem mesmo pela mentira.

Mas, pensando bem, pode ser que esta grande onda de assaltos à Republica seja o primeiro sinal de saúde, pode ser que esta pletora de vícios seja o início de uma maior consciência critica. E isso é bom. Estamos descobrindo que temos de pensar a partir da insânia brasileira e não de um sonho de razão, de um desejo de harmonia que nunca chega.

Avante, racionalistas em pânico, honestos humilhados, esperançosos ofendidos! Esta depressão pode ser boa para nos despertar da letargia de 400 anos. O que há de bom nesta bosta toda?

Nunca nossos vícios ficaram tão explícitos! Aprendemos a dura verdade neste rio sem foz, onde as fezes se acumulam sem escoamento. Finalmente, nossa crise endêmica está em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha. Vemos que o País progride de lado, como um caranguejo mole das praias nordestinas.

Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades sórdidas estamos conhecendo, fecundas como um adubo sagrado, tão belas quanto nossas matas, cachoeiras e flores. É um esplendoroso universo de fatos, de gestos, de caras. Como mentem arrogantemente mal! Que ostentações de pureza, candor, para encobrir a impudicícia, o despudor, a mão grande nas cumbucas, os esgotos da alma.

Ai, Jesus, que emocionantes os súbitos aumentos de patrimônio, declarações de renda falsas, carrões, iates, piscinas em forma de vaginas, açougues fantasmas, cheques podres, recibos laranjas de analfabetos desdentados em fazendas imaginárias.

Que delícia, que doutorado sobre nós mesmos!... Assistimos em suspense ao dia a dia dos ladrões na caça. Como é emocionante a vida das quadrilhas políticas, seus altos e baixos - ou o triunfo da grana enfiada nas meias e cuecas ou o medo dos flagrantes que fazem o uísque cair mal no Piantella diante das evidências de crime, o medo que provoca barrigas murmurantes, diarreias secretas, flatulências fétidas no Senado, vômitos nos bigodes, galinhas mortas na encruzilhada, as brochadas em motéis, tudo compondo o panorama das obras públicas: pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, orgasmos entre empreiteiras e políticos.

Parece que existem dois Brasis: um Brasil roído por ratos políticos e um outro Brasil povoado de anjos e "puros". E o fascinante é que são os mesmos homens. O povo está diante de um milenar problema fisiológico (ups!) - isto é, filosófico: o que é a verdade?

Se a verdade aparecesse em sua plenitude, nossas instituições cairiam ao chão. Mas, tudo está ficando tão claro, tão insuportável que temos de correr esse risco, temos de contemplar a mecânica da escrotidão, na esperança de mudar o País.

Já sabemos que a corrupção não é um "desvio" da norma, não é um pecado ou crime - é a norma mesmo, entranhada nos códigos, nas línguas, nas almas. Vivemos nossa diplomação na cultura da sacanagem.

Já sabemos muito, já nos entrou na cabeça que o Estado patrimonialista, inchado, burocrático é que nos devora a vida. Durante quatro séculos, fomos carcomidos por capitanias, labirintos, autarquias. Já sabemos que enquanto não desatracarmos os corpos públicos e privados, que enquanto não acabarem as emendas ao orçamento, as regras eleitorais vigentes, nada vai se resolver.

Enquanto houver 25 mil cargos de confiança, haverá canalhas, enquanto houver Estatais com caixa-preta, haverá canalhas, enquanto houver subsídios a fundo perdido, haverá canalhas. Com esse Código Penal, com essa estrutura judiciária, nunca haverá progresso.

Já sabemos que mais de R$ 5 bilhões por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas. Não adianta punir meia dúzia. A cada punição, outros nascerão mais fortes, como bactérias resistentes a antigas penicilinas. Temos de desinfetar seus ninhos, suas chocadeiras.

Descobrimos que os canalhas são mais didáticos que os honestos. O canalha ensina mais. Os canalhas são a base da nacionalidade! Eles nos ensinam que a esperança tem de ser extirpada como um furúnculo maligno e que, pelo escracho, entenderemos a beleza do que poderíamos ser!

Temos tido uma psicanálise para o povo, um show de verdades pelo chorrilho de negaças, de "nuncas", de "jamais", de cínicos sorrisos e lágrimas de crocodilo. Nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Céus, por isso é que sou otimista! Ânimo, meu povo! O Brasil está evoluindo em marcha à ré!

Arnaldo Jabor é Jornalista e Cineasta. Originalmente publicado em O Globo e no Estado de S. Paulo de 31 de Janeiro de 2012.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

“Todo ponto de vista é a vista de um ponto” - Leitura e compreensão do mundo

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Erika de Souza Bueno

Antes de formularmos e manifestarmos quaisquer pensamentos, conceitos ou preconceitos a respeito de algo ou alguém, é interessante atentarmos para a célebre frase de Leonardo Boff que intitula o presente artigo e que faz parte de seu livro A Águia e a Galinha.

Isto porque todos enxergam o mundo e elaboram seus pontos de vistas (conceitos) de acordo com o ponto em que estão, seja este ponto real e concreto ou imaginário ou subjetivo. Como Boff mesmo disse no livro citado, a cabeça pensa de acordo com o lugar onde pisam os pés; por isso, nós, pais e professores, precisamos fazer dos nossos lares e escolas lugares onde todos tenham igualdade de condições.

A escola e a casa devem ser lugares em que a criança aprenda desde cedo a pluralidade do mundo, dentro da qual situações e circunstâncias sempre contribuem para determinado condicionamento de pessoas. As nossas escolas precisam ser locais que permitam a criança ler e interpretar a realidade com um olhar amplo, sem preconceitos que geram atitudes de intolerância e até violência.

Como são e estão os nossos olhos? Estão fechados apenas em nosso mundo? São e estão abertos para compreender e respeitar a realidade do outro, assim como suas experiências e contradições?

Torna-se cada vez mais importante ampliarmos nossa visão de mundo diante daquilo que já nos é comum, ou seja, para além daquilo que nos é comum e confortável. Temos que atentar para situações de injustiça e violência que provocam dores e lágrimas em pessoas que nos são alheias. Precisamos romper as fronteiras de nossa confortável realidade e deixar de ser indiferentes à dor do próximo.

É preciso respeito ao que se apresenta de maneira diversa daquilo que estamos acostumados dentro do nosso universo particular, pois as diferenças são riquezas que nos completam e nos fazem cada vez mais próximos da plenitude da vida e do amor. Na sala de aula, uma das possíveis causas de tantos dissabores possivelmente seja o fato de que as diferenças entre a realidade do professor e a do aluno não estão sendo respeitadas e compreendidas pelos envolvidos no processo.

Para se ter um bom relacionamento com o aluno, o professor não precisa anular o que julga ser correto e aceitável. Não, de forma nenhuma. Da mesma maneira, é preciso fazer chegar ao conhecimento do aluno que ele não precisa ser como o professor ou seus pais, ainda que estes precisem adotar um comportamento de exemplo do que ensina e transmite, tanto em casa como em sala de aula. Tanto professores e pais quanto alunos podem viver em harmonia mesmo sendo tão diferentes uns dos outros.

É fundamental compreendermos que, assim como acontece conosco, os pontos de vistas do nosso aluno advêm do lugar onde ele está inserido e da situação que ele está vivendo - ou por algum motivo acredita que está vivendo. Às vezes, os problemas que o aluno apresenta como causas de seu mau relacionamento com o outro e consigo mesmo são pequenos e insignificantes para seus pais e professores, mas nem por isso devem ser desconsiderados, pois é a maneira como o mundo está sendo lido e interpretado por esse filho e aluno, uma vez que “cada um lê com os olhos que têm”.

Nossa missão é ampliar a capacidade de percepção do mundo de cada um de nossos filhos e alunos, contribuindo para a construção coletiva de uma sociedade mais justa e igualitária para todos, diminuindo, desta forma, a rivalidade e o preconceito que só nos impedem de melhorar nosso papel de pais e professores de jovens tão ávidos por ser compreendidos, exercendo maior compreensão.

Erika de Souza Bueno é Coordenadora-Pedagógica do Planeta Educação e Editora do Portal Planeta Educação (http://www.planetaeducacao.com.br/). Professora e consultora de Língua Portuguesa e Espanhol pela Universidade Metodista de São Paulo. Articulista sobre assuntos de língua portuguesa, educação e família.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os Chatos

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marli Gonçalves

Não tem quem não tenha pelo menos um de estimação. Não tem quem não tenha um do qual fuja mais do que o diabo da cruz. Não tem como escapar dos chatos. Nem mesmo de ser você mesmo chato vez ou outra, até sem querer. Minha tese, no entanto, é que há chatos profissionais, que vivem disso, se auto-alimentam e devem chegar em casa contando quantas pessoas chatearam no dia.

Numa boa, sou vítima de chatos desde que me entendo por gente. Acho que eles acham que, por eu ser bem-humorada, comigo não sofrem risco de vida ou de se machucarem. Só pode ser. Quanto era pequena, esses seres adoravam me pentelhar apertando minhas bochechas, ou mexendo no meu cabelo, entre as coisas que acho mais chatas neste mundo. Até hoje detesto que me toquem sem autorização. E os chatos - vocês sabem - têm essa característica, gostam de tocar bastante em você, pegar, cutucar, apertar, espremer. Tem o chato tão chato que chega a te prender, imobilizando qualquer tentativa de fuga, segurando seu braço, mão, ombro, até a cabeça em casos extremos. Já pensei em fazer jiu-jitsu, judô, tai-chi, qualquer golpe, para me livrar desses com mais facilidade.

Sou mesmo uma espécie de imã: posso estar linda, passeando, feliz, com fones de ouvido, tralalá, tralalá, tipo numa redoma particular, e o chato lá do outro lado da rua atravessa para vir me chatear, bater no vidro, arrombar meu espaço íntimo, só para... Chatear! O verbo que exercitam mais do que as gostosas levantando aquelas rodelas em academia. Pior quando é chato que eu nem conheço, nem quero conhecer. Ou o chato que sabe que é chato telefonar bem cedo na manhã do domingo, e não só liga como faz a pergunta mais irritante do mundo: "Você estava dormindo?". E para quê ligou? Para nada. (Antes que algum chato aí diga "porque atende?", lembro que sou ligada 24 horas por motivos profissionais, como jornalista, e pessoais, como filha de um pai de 94 anos, além de nunca "olhar" antes quem é que está ligando. Tocou, atendo. Claro, se puder.)

Mas aí também entra outra mania do chato. Ele sempre tem a certeza que você registrou o telefone dele, ou reconhece a sua voz até debaixo da água. "Adivinha quem está falando?" De morrer. Pior só o que nem pergunta; já tem a certeza absoluta que você não só sabe quem é, como - claro - está pronto para o assunto maluco que ele matraqueia do outro lado da linha. Esse tipo pensa que você não faz outra coisa na vida a não ser pensar nele. Há ainda outra variação, aquele chato do preâmbulo: antes de falar o que quer, bajula, praticamente chamando você de pitonisa do Nilo, Santa Maria Madalena, mestra de todos os mestres. Prepare-se: lá vem pedido de favor por aí.

Toda pessoa tem seu dia de chato mas o chato de verdade o é todo dia. Faz disso sua panacéia. Adora e conta mal piadas quilométricas, sempre esquecendo a parte principal no caminho. Conta a mesma história (aquela, que você não perguntou) 30 vezes (e o que é pior, igualzinha, sem acrescentar nenhum detalhe que a torne ao menos mais interessante, picante).

Dizem que o chato é o sujeito que fica mais tempo com você do que você com ele, o cara que fuma para filar cigarro dos outros ou para de fumar só para ficar chateando quem fuma, o cara que está com você na rua mas não sabe conversar andando, fica parando e segurando seu braço; que você diz que perdeu algo e ele te pergunta "onde?". Acrescento ainda o chato que adora assobiar, sentado bem ao seu lado no avião. E o que de vez em quando futuca com o cotovelo pontudo.

O chato sabe tudo, já viu tudo, tem conselhos para tudo, pergunta se você está ocupado só por perguntar. Vai aporrinhar de qualquer forma. Adora ligar só no celular nas horas mais impróprias. Para você.

O chato também gosta de por defeito em tudo, e sobretudo. Conheci uma que se aboletava para ir almoçar comigo, não comia e ficava - juro - falando o indice calórico de todos os pratos. O chato sempre tem um "mas", uma trava, um senão, um pessimismo. Quer botar e deixar lá a pulga atrás de sua orelha. Aliás, uma das coisas de que o chato mais gosta é de ficar bem atrás de você, nas suas costas (EU ODEIO ISSO!), e se você estiver escrevendo, estica o olho para ler, em voz alta, e o que é pior, dar palpites sobre nem ele sabe bem o quê. É o mesmo tipo que também vem por trás e zoom! Quase arranca seus olhos, apertando-os pelos lados..."Adivinha quem é?"

Você tem vontade de responder. Mas, cuidado, os chatos chegam a dar medo e podem se tornar violentos. Já debateu com um chato? Já tentou contradizer um chato? Já disse a um chato que ele era chato? Um perigo, principalmente se o desdito tentar convencer do contrário. "Os chatos não se chateiam", escreveu Guilherme Figueiredo, no delicioso Tratado Geral dos Chatos, de 62. Deve ter escrito com a intenção de se vingar de todos os chatos do mundo.

O chato é tão chato, mas tão chato, que é capaz de ousar perguntar coisas i-na-cre-di-tá-veis. hein???Não sei como, mas o chato sempre tem tempo de sobra, muito, para fazer chatices, pensar chatices, escrever chatices, repassar chatices, repisar chatices, lembrar de chateações. Um amigo querido, tão vítima deles, acabou dando o tom à uma expressão que fala com gosto, tudo junto assim: "Ôôôôgentechata!". Adotei.

Conforme as épocas, os chatos que passam em nossas vidas se modificam. Foram os chatos que adoravam receitar coisas e dietas. Foram outros em eco.Ultimamente tenho encontrado muitos "chatos da fé". Faltam rezar uma missa inteira, encenar um culto completo à sua frente, chegam a chorar, explicando como foram salvos, como acharam Deus, e como conversam com Ele, coitado de Deus, e você também deveria, entende?, se salvar. Em geral eram bêbados chatos que pararam de beber, salvaram-se de alguma boa, tiveram uma visão qualquer.

Tenho reparado ainda que chatos costumam estar solteiros, completamente sozinhos e largados, já que não há mesmo quem os aguente debaixo de um mesmo teto. E, cabisbaixos, tentam explicar como foi que isso se deu procurando piolho em cabeça de alfinete.

Por falar nisso, não é por menos que os "chatos" piolhos que pegam tudo quanto é pelo, principalmente os quentinhos, são chamados de chatos. São parasitas que se passam a vida inteira se alimentando do sangue, os chatos que coçam e perturbam até você tacar um Neocid neles. E você só pode pegar "chatos" de um...chato!

Qual será o remédio contra os chatos humanos que se alimentam do seu saco, que vai ficando cheio, cheio?

São Paulo, verdadeiro paraíso para os chatos, 2012

Marli Gonçalves é jornalista. Pior que achar um chato na rua só ficar preso com ele dentro de um lugar fechado, tipo carro, casa, e estar chovendo muito lá fora. Acredite: é você quem vai ter que pedir para sair.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

As podas e irrigações necessárias

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal

Na juventude, é comum a ilusão de, durante uma paixão, pensarmos que já encontraramos o amor de nossa vida, a pessoa na companhia da qual gostaríamos de construir uma família, passar o resto de nossos dias, envelhecer.

Com o tempo vamos aprendendo que durante suas vidas as pessoas não permanecem as mesmas, passam por transformações à medida que vão vivendo, tendo por experiências, sorrindo ou chorando, ganhando ou perdendo entes queridos.

Observando, poderemos notar como, durante a vida elas mudaram, aprendendo ou não com o que viveram, com suas amizades, discussões, erros e acertos, em seu crescimento cultural, emocional, social ou financeiro.

Notaremos algumas que cresceram em todas essas áreas, outras em nenhuma, e as que subiram em algumas e decresceram em outras, como as que acertaram muito financeiramente, mas perderam em educação e humildade, viraram arrogantes. Podemos nos deliciar com o sucesso alcançado por uns e entristecer com os tropeços de outros, mas sempre será possível ver que todos continuam se transformando, moldados pela vida.

As oportunidades de conhecer pessoas e coisas, surgem diariamente, nos permitindo aproveitar cada uma delas para o nosso crescimento. Cada experiência vivida provoca um novo recomeço, agora sabendo mais um pouco e essa é uma das maiores belezas da vida.

A cada despertar poderemos encontrar uma nova pessoa ao nosso lado, não aquela com quem fomos dormir ontem, mas uma pessoa diferente, que após as os aprendizados do dia anterior, hoje pode olhar tudo por outro ângulo, concordando com coisas que havia discordado e discordando de outras com as quais concordava.

Essa pessoa, quando também vista de outra maneira, mais detalhadamente, pode estar se transformando em uma pessoa diferente da que conhecia, com quem vivia até ontem e se tornando uma pessoa pior, ou muito melhor.

Pode, com seu crescimento, ser agora aquela pela qual você deixará de estar apaixonado, mas a que realmente ama, bem mais profundamente, maduramente e essa sim, será a que na juventude você sonhava e que agora está se revelando.

Como uma casa sonhada por cada um, nossa vida está sempre em processo de transformação, seja na construção, acabamento, pintura, colocação dos móveis, decorada e finalmente, durante seu uso, sendo transformada de acordo com nossas necessidades do momento, repintadas, redecoradas ou recebendo um novo e pequeno adereço sobre um móvel, mas jamais terminará ou será exatamente como a do sonho.

Assim também são nossos sonhos em relação a amizades, namoros, paixões e o amor imaginado como o ideal. Passam por transformações, tanto em nossos desejos, quanto em suas realizações. Assim podemos estar sempre reconstruindo ou reformando algo para melhorar nossas vidas.

Os requisitos que desejávamos encontrar na pessoa com quem gostaríamos de dividir nossa vida também vão mudando com o tempo. Coisas antes importantes agora já não o são, enquanto algumas antes sequer imaginadas passaram a ser fundamentais, o mesmo ocorrendo com nossos parceiros, que deixam de se importar com muitas coisas, e passam a cobrar outras.

O aprendizado e o crescimento de cada ser humano certamente será interrompido antes de totalmente concluído, mas como uma jóia em lapidação, as pessoas vão melhorando a cada dia, e amanhã já estarão diferentes de hoje.

O relacionamento humano está sempre recomeçando, mas como uma semente já brotada, necessita de constante irrigação, podas, desbastes e apoios, para não perecer ou morrer, mas ter um crescimento sólido.

João Bosco Leal - jornalista, escritor, articulista político, produtor rural e palestrante sobre assuntos ligados ao agronegócio e conflitos agrários. www.joaoboscoleal.com.br

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

É possível pagar menos impostos?

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Sérgio Gegers

Há uma máxima que todos já sabem: a carga tributária brasileira é uma das maiores e mais pesadas do mundo. No Brasil, a arrecadação de impostos representa cerca de um terço das riquezas produzidas no país. Atualmente, todo empresário trabalha, aproximadamente, de quatro a seis meses do ano só para pagar os impostos, ou seja, quase metade da sua produção e do seu faturamento é destinada ao pagamento de tributos.

Os números mostram como os impostos pesam no orçamento de pessoas jurídica e física. Em 2011, a arrecadação de impostos pela União, Estados e Municípios ultrapassou a margem de R$ 1,5 trilhão. No ano anterior, essa margem ficou em torno de 1,2 trilhão. Isso apenas demonstra que estamos pagando cada vez mais tributos.

Diante desse cenário, muitos empresários se perguntam: é possível, dentro da legalidade, pagar menos impostos?

Os tributos são instituídos de maneira legal e sempre farão parte de qualquer relação de compra e venda de produtos e serviços. É muito importante que o empresariado brasileiro tenha a consciência de que não há como evitá-los, mas é perfeitamente possível pagá-los de maneira correta e justa.

Um problema bastante comum em empresas de diversos portes é que, muitas vezes, por um problema de apuração fiscal, os impostos são pagos de maneira equivocada. O valor pode ser calculado além da quantia real, o que aumenta os gastos da companhia, ou aquém, o que irá gerar problemas com o Fisco.

Muitas empresas estão pagando tributos de forma errada, ou seja, pagando mais do que deveriam. Elas passam a seguir um caminho cego, cumprindo apenas as obrigações acessórias necessárias para transmitir as informações para a Receita Federal.

Existe uma forma muito eficiente de as companhias pagarem seus impostos de forma justa e precisa. Tudo é uma questão de Planejamento Tributário – conjunto de sistemas e práticas legais que visam racionalizar o pagamento de tributos. Por meio de um bom planejamento, é possível cumprir as devidas obrigações, pagar os valores exatos e não gerar exposição nas áreas fiscal, legal e criminal. Consequentemente, o negócio se desenvolve de maneira blindada, protegida e amparada legalmente.

Os cálculos para definir o valor de um determinado imposto são complexos. Há uma grande quantidade de variáveis e particularidades em cada segmento da economia. Uma determinada matéria-prima, por exemplo, pode contar com diferentes critérios de tributação dependendo da sua utilização. Muitas divergências também ocorrem graças à falta de informação clara na hora de pagar os impostos, já que orientações de um mesmo órgão fiscal podem variar de um Estado para o outro.

Atualmente, as empresas podem contar facilmente com um bom Planejamento Tributário e saber com clareza como utilizar determinado crédito tributário, como identificar a origem desse crédito e como usufruir do mesmo. Acima de tudo, esse tipo de suporte lhe permitirá pagar o que realmente deve ser pago. Isso, consequentemente, lhe protegerá de pagar quantias indevidas.

De uma forma geral, há um grande anseio por parte do empresário brasileiro de, finalmente, contarmos com uma reforma tributária – o que realmente pode ajudar a simplificar o sistema tributário nacional e reduzir a carga de impostos. Mas, antes de mais nada, é preciso entendermos o atual sistema e aproveitarmos as oportunidades que existem para evitar o desperdício de recursos. Planejamento e suporte especializado para se apurar corretamente o que deve ser pago são as chaves para se pagar menos impostos.

Sérgio Gegers é sócio-diretor da Actual Brasil, empresa especializada em consultoria e assessoria tributária.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Exclusão Automática na Educação Carioca

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Cesar Maia

O Ministério da Educação divulgou os dados do Censo Escolar de 2010 e 2011, detalhando o número de matriculas. Em 2010, o número de matrículas no Ensino Fundamental -nas nove séries somadas- alcançou 541.579 matrículas. Em 2011, neste mesmo nível, a soma de todas as séries alcançou 529.959. O Tribunal de Contas da Prefeitura do Rio, em 2008 anotou 562.602 matrículas.

Ou seja, nestes 3 anos de gestão do PMDB na cidade do Rio de Janeiro o número de matrículas no ensino fundamental teve uma queda anual sistemática, passando, em 3 anos, de 562.602 matrículas para 529.959, uma redução de 32.643 matrículas, ou quase 6% a menos. São mais de 32 mil alunos fora da escola pública em sua formação básica.

Na Educação Infantil eram 116.060 matrículas em 2008 e em 2011 caíram para 110.536. Menos 5.524 crianças fora das creches e pré-escolas, ou menos quase 5%.

No Ensino para Jovens e Adultos -processo de reinclusão- as matrículas em 2008 eram 27.101, caindo para 24.744 matrículas em 2010 e para 22.138 em 2011. Uma queda de 4.963 matrículas em 3 anos, ou menos 18%, um número grave que significa a inversão do processo de reinclusão pela escola.

Mas no governo do Estado do Rio, do PMDB, foi a mesma coisa na Cidade do Rio de Janeiro. Comparando apenas os anos de 2010 e 2011 pelos dados oficiais do Ministério da Educação, no Ensino Médio, em 2010, eram 193.796 matrículas, caindo em 2011 para 177.216 matrículas. Uma queda de 16.580 matrículas ou 8,5% em apenas um ano. Sublinhando: em um ano, 16.580 jovens deixaram de frequentar o ensino médio do governo do Estado do Rio.

No Ensino Técnico, dito e repetido como prioridade para a empregabilidade, em 2010, as escolas do governo do Estado do Rio na Cidade do Rio de Janeiro tinham 14.309 matrículas. Mas, em 2011, caíram para 10.093 matrículas, ou menos 4.216 matrículas, ou menos espantosos 29%. E em nível federal foi a mesma coisa na Cidade do Rio de Janeiro. No Ensino Médio eram 8.142 matrículas em 2010, caindo para 6.339 em 2011. Uma queda de 1.803 matrículas, ou menos espantosos 22%. O ensino técnico em nível federal foi a mesma coisa: 3.927 matrículas em 2010 e 2.202 matrículas em 2011, numa redução de 1.725 matrículas, ou menos inacreditáveis 44%.

Esse é um processo de EXCLUSÃO AUTOMÁTICA das Escolas Públicas. É a perversa contra face do elitismo, da seriação e da privatização da Escola Pública no Rio em todos os níveis.

Cesar Maia, Economista, foi Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Música segundo Tom Jobim

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Arnaldo Jabor

Fui ver o ótimo filme do Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim e me lembrei da frase do Nelson Rodrigues: "Nada mais antigo que o passado recente". Perfeito; dá para ver a espantosa mudança da vida social e cultural dos últimos 20 anos. As canções, as plateias, os olhos e ouvidos ligados nos shows, o desejo de transmitir a beleza de uma reflexão sobre nossas emoções, um ritmo de vida celebrando a inocência e a delicadeza, o tema do amor sempre presente, a qualidade das letras e sonoridade (Águas de Março é um grande poema sobre o devir), em suma, tudo que não é manipulação, barulheira fácil e boçal, nessa proliferação de irrelevâncias que pululam nas redes. Tudo bem, pode ser que estejamos no caos inicial, na infância de um novo e rico tempo cultural, como preveem os garimpeiros de ouro na bosta, mas, por enquanto, acho tudo um lixo.

O filme é a emocionante montagem de grandes momentos de nossa música como um discurso sem palavras. Saí do cinema como de um spa mental, no meio da poluição sonora e visual de São Paulo. Um filme terapêutico.

O documentário de Nelson e Dora me tocou muito. Sempre preferi ver fotos amareladas, filmes precários, antigos, que nos dão a sensação de nebulosas vidas mortas. As personagens do preto e branco, do trêmulo filme mudo, nos consolam com sua vetustez. Suas mortes são mais suportáveis porque pensamos: "Ah... naquele tempo se morria; hoje não". No filme moderno, o passado recente, em cores, nos mobiliza porque vira um presente implacável, embora impalpável. Vemos a alegria de festas sem som, sorrisos mudos, a juventude perdida dos rostos, as gargalhadas que não ecoam em lugar nenhum, as mulheres tão moças e lindas (e não nos dávamos conta disso) e nós mesmos, nossa saúde, nossos humores, tudo visível. Também vemos os indícios de erros que nos levarão ao fim - o corpo maltratado, a melancolia evitável, o riso amarelo, eu, você, nós todos no passado perdendo tempo, desvalorizando o que tínhamos. Mais emocionante que a tristeza de um passado é sua alegria perdida.

Lembrei-me que num dia feliz, sentado ao piano, Tom tocou para mim uma música nova - era Chansong, a obra-prima com a letra anglo-francesa: "I've never been in Paris for the summer, I never drank a scotch with this bouquet". Fui das primeiras pessoas a ouvir a música - tenho esse orgulho. Sempre que a ouço, vejo-me com ele, curvado, cantando com voz arfante, como se contasse um segredo.

Henri Bergson, o filósofo, declarou, quando viu os filmes de Lumière: "O cinema é importante para vermos como se moviam os antigos". Isso.

Sempre me emociono com esse milagre do cinema, em que as pessoas ressuscitam na tela e ficam ali, falando, como se nada tivesse acontecido. Isso me dói porque um dia serei também protagonista de um flashback de mim mesmo. Assusto-me se estou num bar e, de repente, minha saudosa comadre Nara Leão começa a cantar baixinho ali ao meu lado, como aliás canta no filme, nos lembrando de sua imensa importância.

Já sentira isso na obra-prima do Miguel Faria Jr., Vinicius, quando escrevi: "O tempo era outro, e me refiro a tempo como ritmo, timing. Movíamo-nos de outro modo, em paisagens claras, com perspectiva, distâncias nítidas, andávamos pela praia até o Leblon".

O mundo estava em foco e não era esse sumidouro de hoje. Esses filmes mostram um passado que poderia ser nosso presente. Ipanema era uma ilha de felicidade num país injusto, foi um momento raro em que o desejo e o projeto se encontraram, na praia, no bar, nas ruas com amendoeiras, nos amores mais livres, na música e literatura, antes da massificação.

O tempo se acelerou brutalmente nos últimos dez anos. Os filósofos vivem berrando: "Não temos mais tempo, porque as coisas fetichizaram o tempo!"

A cada dia, os blackberries, os iPads, os iPhones aumentam de potência, e o tempo vai se comprimindo. Até onde? Esta correria seria ótima se fôssemos chegar a alguma coisa, a uma estação Finlândia, a um terminal qualquer; mas, aonde chegaremos? No início do século 20, louvamos a velocidade crescente, revolucionária na arte moderna, a beleza do futuro, mas agora está chegando a hora de buscarmos a lentidão, a paz, o silêncio, como fazem as comunidades de "slow movement". Aliás, o filme nos lembra que ainda havia silêncio. Outro dia, me falou uma "pianista" de twitters e facebook: "Hoje não há mais tédio - temos telinhas o tempo todo diante dos olhos". Talvez, mas, sem vazio não há pensamento.

Agora, não temos condição de criticar e controlar mais nada, nem pela poesia, paródia, nem por nada. As coisas estão in charge, no comando da vida. Que diria Tom sobre isso? Bem, em conversas, nas suas falas sobre a natureza e em seus gestos já dava para ver a melancolia disfarçada de ceticismo sábio, víamos que ele já sabia que a barra ia pesar ali em Ipanema e em toda parte.

Talvez ele dissesse: "Você sabe, não é Jabor, você que é um árabe, um beduíno sem deserto, você sabe que a música existe no tempo. Se acelerar muito, a música vai junto, mas, depois de certo ponto, a arte perde o fôlego... Nós estamos querendo acabar com o Tempo".

Isso me remete a um filme antigo, cult, o Planeta Proibido, de Fred Wilcox, com George Sanders e Anne Francis, um planeta vazio onde todas as informações de um mundo morto estavam guardadas num imenso subterrâneo, uma gigantesca máquina, um super-Google. Toda a vida do planeta, tudo que se descobriu e construiu estava ali, arquivado para a eternidade. Só não havia mais vida em volta - a raça tecnológica dos Krells tinha sido extinta.

Mas Tom não ia prestar atenção neste papo cabeça. Ele gostava de ver o que era vivo ainda. Ele diria: "Deixa pra lá... Olha... lá no alto, os urubus caçadores estão dormindo na perna do vento..."

Arnaldo Jabor é Cineasta e Jornalista. Originalmente publicado no Estadão e em O Globo de 24 de janeiro de 2012.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Nossas vidas

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal

Centenas de vezes a vida já foi descrita como uma viagem única, exclusiva, na qual cada um vai para onde, como e com quem quer, arcando, durante o percurso, com as consequências de suas escolhas.

A viagem pode ser por trilhas, rios, mares ou auto-estradas, a pé, a cavalo, de barco, navio ou motorizada, mas sempre é uma viagem e o meio escolhido por quem a faz.

No meio de qualquer uma delas, alguns escolhem continuá-la de modo virtual e para isso utilizam-se dos mais diversos tipos de drogas hoje existentes, acelerando bastante o final de seu percurso. Outros, sem encontrar saída para sua ansiedade, interrompem bruscamente a sua, antes que o fim previsto o tivesse alcançado.

Durante a viagem notamos muitos exemplos de aproximações e afastamentos, sucessos e fracassos, amizades e conflitos, paz e guerra, mas sempre provocado por algo anterior.

Seria bem mais fácil se logo no inicio de sua caminhada todos já soubessem que tudo é exatamente como precisa ser e na grande maioria das vezes, uma consequência de escolhas passadas. Poderiam pensar antes de qualquer atitude, palavra ou gesto, para que no futuro não se encontrassem com muita frequência com o arrependimento.

O que se vê externamente quase nunca é o mais importante. Como em um automóvel que com o capô esconde seu motor, em quase tudo que existe o externo, material, é o visível, bonito, mas frágil, perecível, e o interno é o duradouro, que realmente possui valor.

Ressentimentos antigos podem ser apagados se realmente forem perdoados. As coisas mudam, as pessoas vão e vem, entram e saem de nossas vidas e o que é errado hoje pode não ser amanhã, quando os amigos atuais poderão já estar distantes e será possível curar o atualmente incurável.

No corpo ou a alma, as dores e os machucados sempre ocorrerão, mas se você permitir que isso ocorra, elas também passarão, algumas mais facilmente e outras nem tanto, mas poderão sarar e as emoções alegres sempre poderão ser relembradas.

Dores que nos corroeram durante anos, se você as aceitar como suas, poderão, no futuro, ser lembradas como momentos de tristeza. Buscando em nosso interior, somos capazes de perceber o que é e o que não é realmente importante, deve ser ignorado, esquecido e como podemos seguir adiante após cada queda no caminho.

A felicidade como descrita em livros e filmes só é possível ali, pois na vida real a felicidade é a vivência de momentos felizes, como o deslumbramento com um lindo por do sol, a delícia de um banho de mar, um abraço no entre querido, um beijo e todos os outros momentos que possam lhe provocar sorrisos, alegrias.

Nossas passagens ou viagens pela vida são diferentes para cada um, e de acordo com a maior, ou menor frequência e quantidade dos sentimentos de carinho, amizade, dores, alegrias, tristezas, paixões e amor que vivemos, costumamos dizer que somos mais ou menos felizes.

No entanto, é muito bom entender que todos podem influir bastante em seu futuro, plantando o que pretendem colher, na maior quantidade de áreas possível, física, educacional, cultural e de relacionamentos, pois as colheitas fartas sempre ajudarão a suportar momentos mais difíceis.

Como nas ondas oceânicas, nossas vidas estão sempre em movimento, com altos e baixos, e as arrebentações, mais ou menos explosivas, dependendo de cada um como chegará à praia.

João Bosco Leal é Produtor Rural e Jornalista. www.joaoboscoleal.com.br

domingo, 22 de janeiro de 2012

SP, Cidade Louca, errante!

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marli Gonçalves

Já pensei em fazer música, já pensei até em uma campanha por você. Já disse que te amo em mais de uma língua. Este ano quero cantar Parabéns pra Você, por tudo que tem, e por (conseguir) continuar viva e tentando ser amada. Ou, pelo menos, respeitada. Nossa velha dama, São Paulo

São Paulo é uma prostituta grande, forte, experiente. Ensina seus meninos a crescer, impõe que lhe paguem pelo prazer que dá. É maltratada, mal falada, e mesmo assim continua aberta recebendo todos 24 horas por dia. Tem horas que nem a maquiagem pesada disfarça seu cansaço, e ela se deixa levar, arrasada. Mas logo se recupera, não para, não para, e volta ao trabalho, à efervescência. Na vida toma muitos sustos, vê muita violência ao seu redor, o mundo cão que mija em seus postes ou pernas, mas também vive o glamour e o luxo quando o cliente que a consome é generoso.

Ela anda úmida, molhadinha, até encharcada neste verão. Suas férias foram curtinhas, e ela tinha se enfeitado toda para brilhar à noite neste fim de ano. Mas a abandonam pelo Sol, pela praia, por um tal ar puro e, se lá onde tem essas coisas, também chove, seus amantes voltam correndo. Aqui se come melhor. Se diverte mais. Se aprende mais em filmes, livros, teatro, cultura. Inclusive, os seus cafetões exigem que a cidade volte logo a trabalhar. E ela vende o que tem de melhor, mesmo que mecanicamente, sem se entregar totalmente.

Nem bonita, nem feia, nem totalmente um ou outro, apenas uma cidade armada ao lado de um pátio há 458 anos, e que bem que podiam ter escolhido melhor local para arriar acampamento... mais para perto do mar. Fosse assim, o Rio de Janeiro teria dançado e ela, sim, seria a Maravilhosa. Mas cresceu para os lados, para cima, e até para baixo, por baixo, suas entranhas, e hoje essas veias já vão se entupindo.

Ela vai se aguentando assim e a pega a bolsinha e vai rodar pelas esquinas. Quase não tem horizontes para ver nem para se ver, faz isso apenas em poucos espelhos de água limpa que encontra, quando passa pelos poucos parques, em busca de ar, da cor verde, de um pouquinho de natureza. Nos rios, tão sujos, nem ela consegue se mirar. Apenas tapar o nariz, nestes que viraram banheiros públicos, descargas sem fim. E ela sonha: no dia que os rios voltarem navegará neles todos os fins de semana, vendo muitas famílias felizes. Não custa sonhar.

Quando procura o céu para ver as estrelas ou a lua essa nossa cidade vagabunda apenas sorri e lembra do macaco do filme King-Kong. Tem vontade de pegar os helicópteros na mão - parecem brinquedos passando por sua cabeça. Quem os controla? São tantos! E os aviões, então! Ronco constante indo e vindo, brilhando mais alto. E a cidade sonha: quem está indo, quem está chegando?

Às vezes a cidade fala sozinha enquanto caminha e é caminhada. Às vezes se detém conversando com bronzes, bustos, criações em concreto, estátuas imortais e históricas, esculturas instaladas para lembrar de algo, alguém, alguma coisa, algum fato seu ou feito de alguns dos seus tantos amantes. Será por amor a ela que construíram tanta coisa bonita¸ subiram tantos arranha-céus, pensaram mansões, fizeram tantas jóias para enfeitá-la? Seus colares são marginais, e a enfeitam com rodoaneis, trilhos, pontes, túneis e viadutos. Se foi por amor, estranho, qual sentimento levou a que ela também tenha tantas chagas, plagas indizíveis, cicatrizes, e miséria e horror?

Nossa velha puta muda de ponto. Norte, Sul, Leste, Oeste. Clientes diferentes a consomem. Tem hora que ela dá mais para um do que para outro. Mas atende a todas as raças, etnias, nacionalidades¸ falando todas as línguas de um jeito muito seu, assim como o próprio português. Ela marca os erres. Come os esses. Mistura tendências, bebidas, sotaques, povos e palavras. Chopps. Pastel. Pizza. Macarrão. Virado.

Ultimamente, nossa velha anda contente. Uma feliz cidade. É que no verão de uns tempos para cá - antes não era assim - vê mais carnes, dorsos, pernas, colos, descobertos, nus. E até chinelo de dedo nem é mais tão proibido assim! Quase chora é quando pensa no inverno que quando faz frio mesmo chega a ser cortante, e as pessoas são cebolas vestidas, que vão se descascando, algumas elegantes, e outras não, nem pensam em combinar, a não ser com o destino, para não morrerem de frio.

Cores e nomes, como não disse o Caetano que viu a deselegância discreta de nossas meninas. Aqui se usa muito preto. Preto e estampas. As mulheres amam as estampas e os homens, as listras. Se vê mesmo de tudo por aqui, observa. E assim as flores nascem nos vestidos e, ainda, nos canteiros, nas árvores que os cupins ainda não pegaram nem ventos derrubaram, flores que enfeitam um pouco mais a sua aridez cinzenta em vasos.

A velha senhora continua olhando suas entranhas e com minhoquinhas na cabeça. Quer derrubar minhocões. Fazer uns puxadinhos. Pensa em como se manter limpa, com tantos clientes, sem tempo que não o dos banhos da chuva, sem sabão, sem perfume. Assim não pode nem cobrar o que merece pelos seus serviços.

Mais um aniversário. Será imortal? Serão várias vidas? Qual música tocará para ouvir quando e se as britadeiras, buzinas, sirenes e tantos barulhos deixarem? Que ritmo vai tocar, dançar, que moda vai criar, de quem vai depender?

De repente, essa nossa amiga fica preocupada. Lembra que nesse ano vai ter eleição e lá vai o seu destino para o jogo novamente; seu santo nome será falado, pisado, sua história revista, criticada. Vários aventureiros tentarão conquistá-la, veja só.

Mas tudo bem. O importante é que essa cortesã ainda dá um bom caldo, e é cobiçada por membros imponentes.

Feliz Aniversário, São Paulo, Geni, 2012.

Marli Gonçalves é jornalista. Paulistana. Nasceu na Rua Augusta, um dos melhores lugares para se fazer ponto na cidade. Fazer a vida. Ou pelo menos tentar. Agora quem sonha sou eu, por uma cidade melhor, menos vagabunda, menos errante, menos errada.


PS: Quer ler os outros textos que fiz em aniversários da cidade? São Paulo e toda sua bossa, Eu amo São Paulo, São Paulo, Ailoviiú

sábado, 21 de janeiro de 2012

A necessidade da mão dupla

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal

Na maturidade, após descobrirmos o que é verdadeiro amor, descobrimos também a necessidade de sermos amados.

Tenho observado pessoas maduras, que já descobriram o amor, encontraram a pessoa que amam, mas ainda assim não são totalmente felizes.

Isso me levou a pensar nos motivos pelos quais isso ocorre e na dificuldade da existência de um amor completo para uma pessoa.

Na juventude raramente se ama. Temos atrações e paixões, mas o amor profundo, mesmo quando iniciado com uma paixão, só virá com a maturidade, quando as pessoas passam a entendê-lo de outra maneira.

Esse amor envolve cuidados, atenções, carinhos e preocupações constantes com a felicidade e o bem estar de seu parceiro. Só amamos verdadeiramente uma pessoa quando a queremos ver feliz, mesmo que não seja conosco.

Entretanto, para que esse amor seja completo, tornando feliz também aquele que ama, esse sentimento necessita ser retribuído na mesma proporção que se dá.

Os cuidados para com nosso parceiro necessitam de uma resposta e, portanto, é necessário que ele entenda que, se quer ser cuidado, também precisa cuidar.

O casal só será completamente feliz quando o amor ocorre em mão dupla. Se a dedicação, o cuidado, o carinho e as preocupações só ocorrem de um lado, ele certamente se cansará de só fornecer, sem nada receber.

Os detalhes na convivência diária de um casal poderão transformar a paixão em amor, mas se isso lhe ocorrer e seus cuidados não forem retribuídos na mesma proporção que fornece, provavelmente estará amando quem só sente admiração, paixão, tesão ou qualquer outra coisa, mas não amor por você.

Vejo pessoas que praticamente se anulam, deixam de fazer o que gostam, fazem o que não desejam, ou o que gostam pouco, na tentativa de agradar seu companheiro, mas acabam percebendo que, em situações semelhantes, o mesmo não ocorre no sentido inverso.

É fundamental que quando estamos amando não nos anulemos, pensando exclusivamente no parceiro, sem cuidar de nossa própria felicidade, pois acabaremos sem brilho próprio para sermos amados por nosso par ou por outra pessoa.

A atenção com o outro deve ser equilibrada com aquela dispensada em nossa própria felicidade, pois nem uma grande dedicação ou carinho será suficiente para que nos amem se esse amor não existir.

Só com a maturidade se consegue perceber a profundidade e amplitude do sentimento por nós já confundido com outros que já experimentamos, mas agora conseguimos entender que não era o verdadeiro amor, que só alguns terão a chance de realmente viver.

No verdadeiro amor, as rugas serão admiradas como marcas de experiências vividas e não como traços físicos da idade. As cicatrizes nos lembrarão de histórias vividas, jamais como esteticamente prejudiciais. A barriga, a celulite, a falta ou a cor dos cabelos já não serão tão importantes, como já foram na época em que o amor ainda era uma paixão.

Quando se ama, as pequenas indelicadezas, se ocorrerem, serão desconsideradas, superadas pelas diversas atitudes inesperadas de carinho e afeto demonstradas no dia dia.

No amor, a lembrança do ente querido é uma constante, mas não como nas paixões, quando ocorria aquele desejo louco de estar junto, tocar, apertar, beijar ou até morder. Agora ela é mais tranquila e normalmente é observada em pequenas atitudes, como na aquisição de determinada fruta encontrada no supermercado, que não lhe é muito apetitosa, mas seu parceiro gosta muito.

A maturidade mostra não só o verdadeiro amor, mas a necessidade de reciprocidade nos cuidados, para que seja duradouro.

João Bosco Leal é Produtor Rural e Jornalista www.joaoboscoleal.com.br

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Propaganda eleitoral e política externa

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Cesar Maia

A esquerda tradicional do PT, desde o início da gestão heterodoxa de Lula, usou a política externa como foco de sua ação político-ideológica. O Itamarati foi repartido entre o ministro e o ex-secretário de relações internacionais do PT e, em seguida, assessor externo de Lula, Marco Aurélio Garcia. Este ficou responsável pela expansão do populismo na América Latina, articulado com Chávez. E ainda mais, pelos contatos com Irã, Líbia, Síria, ditadores africanos, etc. As votações do Brasil no Conselho de Segurança da ONU demonstram isso.

Em 2009 foi implementado um outro vetor - desta vez, diretamente partidário e proto-governamental - da política externa do PT. Seus agentes passaram a fazer campanhas eleitorais pela América Latina, levando profissionais de propaganda das campanhas de Lula em 2002 e 2006, e um pacote suavizador da comunicação, replicando a campanha de 2002 no Brasil. Com isso, se ofereceu ao chavismo uma alternativa eleitoral mais eficiente. O discurso 'hard' do chavismo foi substituído pela exportação de um modelo vendido eleitoralmente, como mais moderado, de Lula.

O PT montou sua caravana eleitoral e iniciou a caminhada pela América Latina, fazendo a campanha dos candidatos bolivarianos, aplicando próteses lulistas. A primeira experiência -bem sucedida- foi em El Salvador, em 2009, facilitada pela futura primeira-dama, militante do PT em SP. A marca radical da ex-guerrilha -FMLN- que levava sempre a derrota e a um teto, foi substituída pela prótese lulista em um candidato da FMLN, âncora de talking show na TV, sem militância partidária. Deu certo; Eleito Fulnes presidente. FMLN no poder.

A segunda foi no Peru, em 2011, com o candidato chavista -ex-militar e golpista como ele- Ollanta Humala. Derrotado na eleição anterior, como porta-bandeira do chavismo, mudou de tática. Contratou o porteño-petista Luiz Favre, que montou uma 'agência' para fazer a campanha dele. No caso -ainda mais que Fulnes-FMLN- foi uma campanha clonada da de Lula em 2002, com direito a carta aos brasileiros, discursos de moderação, imagens copiadas de TV e coisas no estilo. A campanha também foi vitoriosa. E Favre se mudou para Lima e passou a ser a autoridade oculta ou eminência parda, do governo, segundo a imprensa peruana.

Agora, em 2012, vem a re-reeleição de Chávez, com enorme risco de derrota para ele. Dessa vez, diz-se, que irá o próprio Zé Dirceu levando a equipe de João Santana, sem disfarces, para a Venezuela. Como a diferença tende a ser mínima, a prótese que se possa colocar em Chávez poderá ser o elemento que lhe dará a vitória. Assim pensa a caravana eleitoral do PT, com o entusiasmo de Lula.

Os recursos para cada campanha dessas são ilimitados, (dizem que) vindos das empresas brasileiras levadas por Lula, com contratos financiados pelo BNDES, América Latina afora.

Um novo tipo de política externa -proto-governamental- partidária, que dá a seus parceiros no campo do lula-bolivarianismo o que mais precisam: marketing facial para acesso ao poder. Um imperialismo comunicacional.

Cesar Maia é Economista.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Na repetência escolar, quem deve ser reprovado: o aluno ou o colégio?

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Francisca Romana Giacometti Paris

A palavra reprovação escolar está vinculada à ideia de condenação, incapacidade e insucesso. Trata-se de uma questão que aflige todos os envolvidos no processo: os estudantes, os pais e os educadores, além de trazer no seu bojo um conjunto de mitos que necessitam ser esclarecidos, principalmente aos pais.

Acredito que a reprovação não deveria existir no ensino fundamental, pois, tratando-se de escolaridade obrigatória, é esperado que seja oferecida para que todos obtenham sucesso ─ compreendido na maior pluralidade possível ─ no percurso escolar que lhes é imposto por força da lei. Melhor dizendo, os meninos e meninas não escolheram estudar, mas são obrigados a frequentar a escola porque a sociedade brasileira assim decidiu, com o que concordo.

Ora, se a sociedade decidiu pela escolaridade obrigatória entre os seis e os 14 anos de idade, então que se mobilize para que ela seja eficaz para todos. Isso porque todos são capazes de aprender, desde que sejam respeitados seus sentidos, ritmos, cultura e condições cognitivas.

Partindo desse pressuposto, podemos nos perguntar: por que, então, existe a reprovação? Explico: a reprovação existe porque não sabemos fazer uma escola que trabalhe com as diferenças. Nosso olhar “educador-míope” concebe um aluno-padrão e elabora práticas pedagógicas com base nele. Assim, quem não se enquadra no padrão ─ não por ser pior, mas por ser diferente ─ acaba sendo reprovado.

Outra hipocrisia da pedagogia da reprovação localiza-se no fato de reprovar apenas o aluno, desconsiderando questões fundamentais do complexo processo escolar. O aluno, aquele que deveria ser resguardado, acaba sendo o culpado pelo seu próprio não saber. Ora, mas a escola não existe para ensinar? O aluno não vai à escola para aprender? Caso ele não aprenda, quem deve ser reprovado: ele ou a escola?

Contudo, apesar do exposto, se você ainda viver um momento de reprovação escolar, pode tirar dele um pequeno potencial pedagógico. É preciso reconstruir o termo, já que reprovar é um verbo cujo significado pode ser “provar de novo”, como o refazer significa, também, “fazer de novo”.

Confesso que não acredito muito nisso, mas, para acalentar pais angustiados, talvez eles possam dizer aos filhos que, se tivermos que provar um saber num determinado momento e não conseguirmos, resta-nos uma segunda chance. Então poderemos provar de novo aquilo que sabemos, só que em outro tempo.

É importante sabermos ensaiar o discurso para dizer a nossos filhos que reprovar pode ser um novo momento de provar e que, para isso, é preciso revisitar alguns saberes. Seria jogo de palavras? Penso que sim, mas vale tudo para recuperar a esperança e a autoestima de quem é o sujeito do existir escolar.

Francisca Romana Giacometti Paris é Pedagoga, Mestre em Educação, diretora Pedagógica do Agora Sistema de Ensino (www.souagora.com.br) e do Ético Sistema de Ensino (www.sejaetico.com.br), da Editora Saraiva, e ex-secretária de Educação de Ribeirão Preto (SP)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

As pedras no caminho

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal

Durante a vida encontramos várias pedras em nosso caminho e temos a oportunidade de fazer escolhas, como as opções que encontrei descritas por autor desconhecido, em uma das redes sociais mais freqüentadas atualmente:

"As crianças as aproveitam para com elas brincar; os distraídos que nelas tropeçam, reclamam e continuam; os cansados nela se sentam; os empreendedores as utilizam em construções; foram e podem ser usadas como armas; Davi, com uma matou Golias; Drummond dela fez poesia e Michelangelo delas fazia esculturas."

Em todas as citações, o diferencial não foi a pedra, seu tamanho, posição ou composição, mas o ser humano que com ela se deparou.

Podemos aí observar, de maneira muito simples, que todas as pedras encontradas poderão, de várias formas, ser utilizadas ou não, só dependendo de nós, se a abandonaremos, ou como a utilizaremos.

Diariamente podemos verificar centenas de exemplos de atitudes ou reações diferentes em cada situação ocorrida na vida das pessoas.

São muito comuns aquelas que reclamam de tudo, como se o mundo todo fosse culpado por algo que lhe ocorreu. Com qualquer dificuldade que lhes ocorra outras se dizem infelizes, incapazes de olhar para baixo e ver o que é dificuldade real, encontrada por bilhões de pessoas ao redor do mundo.

Alguns param ao seu lado, as admiram, mas continuam, por não saber o que delas fazer. Brincando, outras as atiram na água onde jamais serão encontradas e há os que, preocupados com o próximo e para que ninguém mais nela tropece, as retiram do caminho.

Das pedras encontradas em seu caminho durante séculos, o homem aprendeu a tirar diversos minerais, metais e outras pedras, as preciosas, escavar túneis e diminuir distâncias. Delas tiramos o cimento e as pedras menores, britadas, utilizadas no concreto das obras.

As mesmas pedras do caminho criaram várias oportunidades, que foram aproveitadas de forma diferente por cada indivíduo. Alguns tropeçaram, outros caíram e muitos delas se utilizaram para seu aprendizado, conhecimento e crescimento.

As opções tomadas pelas pessoas nas diversas situações podem nos exemplificar como cada um constrói o próprio caminho, seu futuro, aproveitando ou desperdiçando oportunidades.

Davi jamais teria alcançado o sucesso caso tivesse se acovardado simplesmente por ver o tamanho do gigante. Altamente destrutiva quando rola montanha abaixo, o peso e o poder de uma pedra enorme são insignificantes se implodida.

As mais graves doenças jamais seriam vencidas se homens não tivessem experimentalmente tentado novos meios para combatê-las.

O homem não estaria voando em aeronaves enormes se no passado, para fugir da prisão com seu filho, homens como Dédalo, pai de Ícaro, não houvessem imaginado e criado asas a partir de ceras do mel de abelha e penas de gaivota. Após a fuga, contrariando conselhos do pai Ícaro buscava vôos cada vez mais altos em direção ao sol, até que, pela aproximação este derreteu a cera de suas asas fazendo com que caísse no mar. Ícaro aprendeu com essa experiência, mas jamais perdeu sua determinação.

Nosso aprendizado durante a vida é constante e as pedras devem ser utilizadas em nosso proveito, para encontrarmos novos caminhos e alternativas, não permitindo que nos machuque.

Nas pedras não ignoradas de nosso caminho sempre encontraremos aprendizado e crescimento, físico, cultural ou espiritual.

João Bosco Leal é Jornalista e Produtor Rural - www.joaoboscoleal.com.br

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A volta do flautista de Hamelin

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por José Maurício Guimarães

Na sexta-feira 13, o jornal Folha de São Paulo publicou a notícia de uma servidora de Brasília mordida por um rato nas dependências do Senado. Ao tomar conhecimento do fato, meu correspondente holandês G. van Der Meer enviou um e-mal perguntando se o rato era literal - roedor da família dos murídeos – ou um rato em sentido figurado - pessoa que pratica furtos em locais públicos.

Respondi ligeiro que a infeliz funcionária fora atacada por um rato mesmo, de rabo, pelo eriçado e dentuça. E que a diretoria da Mesa requereu uma desratização no local, mandando interromper as atividades das secretarias do Senado e do Congresso próximas ao local onde o roedor específico agiu de forma hostil e antiética. G. van Der Meer achou a história divertida e na contrarréplica enviou-me a versão original da história do Rattenfänger Von Hamelin, o Pied Piper ou flautista de Hamelin, como é mais conhecida.

Hamelin, diz a crônica, é uma cidade alemã situada em Niedersachsen, entre as colinas do Weser, que atrai, a cada ano, milhares de turistas para o Dia Hamelin. Dizem que no ano de 1282 Hamelin foi infestada pelos ratos. As despensas e os celeiros foram invadidos de forma assustadora e a pouca comida que restava do banquete ratoneiro ficou contaminada pelas fezes e urina dos bichos. A situação parecia perdida quando chegou um homem chamado Swellus, assumindo a especialidade de caçar ratos e exterminar a praga de uma vez por todas. Apresentou seu plano ao burgomestre e este lhe prometeu, em nome do conselho da cidade, um pagamento de três moedas de ouro por cabeça de rato.

Swellus aceitou a proposta, foi para a praça principal de Hamelin e, sob o olhar curioso dos habitantes, retirou uma pequena flauta do bolso. Começou a tocar uma estranha melodia. Imediatamente, em plena luz do sol, ratos de todos os tamanhos começaram a sair dos esconderijos, dos porões e ninhadas inteiras despencaram dos telhados. De repente, Swellus tomou a direção da rua principal e a multidão de ratos seguiu atrás dele hipnotizada pela música. O bizarro cortejo prosseguiu para a margem do rio Weser e, quando o flautista executou os arpejos finais da melodia, os ratos pularam na água morrendo afogados.

Swellus meteu a flauta no bolso e voltou à prefeitura para receber o pagamento combinado. Fez preço de ocasião arredondando a conta: foram aproximadamente 6.000 ratos... a três moedas de ouro por cabeça... hmmm, a cidade lhe devia 18.000 moedas de ouro. Swellus deu ainda um desconto de quinze por cento (que é a linguagem que os políticos entendem) e arrematou: 15.000 moedas de ouro.

O burgomestre convocou o conselho da cidade. Analisaram a questão pelo prisma da responsabilidade fiscal e sentenciaram junto ao flautista:

- Impossível pagarmos essa quantia. Temos que zelar pela economia popular e pelos cofres públicos! Além disso, vós não trouxestes as cabeças dos ratos conforme o contrato verbal havido entre a municipalidade e vossa harmoniosa flauta. Vistos, etc... e na ausência de licitação (flexibilizada a exigência por motivo de calamidade pública) oferecemos um pagamento simbólico, um pró-labore de 1.500 moedas de prata, hospedagem e alimentação por três dias, mais folga compensatória no quarto e quinto dias. Nada mais do que isso.

Swellus ficou indignado: mil e quinhentas moedas de prata em lugar de quinze mil de ouro!? pró-labore?! hospedagem e alimentação, quem precisa disso!? folga compensatória?! não tenho nem carteira assinada...! sou "recrutamento amplo" para serviço temporário! Nada disso, exijo minhas quinze mil moedas de ouro ou não saio daqui!

O burgomestre franziu o cenho, enrubesceu, espumou e bateu o pé:

- Ponha-se já daqui prá fora, seu flautista vagabundo! ou mandamos a lei conduzi-lo debaixo de vara!

- Debaixo de vara? - urrou o músico - saio por conta própria, mas os senhores vão se arrepender!

Swellus retornou à praça e diante dos atônitos transeuntes pegou a flauta e tocou a tarantella di tempo giocoso, ma non troppo vivace. Imediatamente todas as crianças saíram das casas, fascinadas. E seguiram Swellus - felizes, dançando, rindo e festejando. Em Hamelin ficaram apenas os adultos e os velhos a esperar o retorno da meninada durante toda noite toda, olhos fixos no relógio da torre. Raiou o sol e nada. No decorrer do dia entraram em pânico. Vasculharam na redondeza, nas cidades vizinhas, no rio... e nada das crianças. Esperaram mais uma semana, dois meses, três anos... Com os celeiros cheios de comida e as despensas protegidas, acostumaram-se tristes a uma vida sem ratos e sem crianças. Hamelin mergulhou num silêncio perturbador e o pesar abateu-se pesadamente sobre o vale do Weser.

- Ouvi dizer que na noite de sexta-feira 13 de janeiro de 2012, um estranho personagem encapuzado embarcou num aeroporto próximo ao Weserbergland com destino a Brasília. Trazia pouca bagagem e no bolso... uma flauta. Se for o mesmo Swellus de 730 anos atrás (descendente, discípulo ou reencarnação do mesmo) garanto que desta vez ele vai ter um trabalho danado!

José Maurício Guimarães é Advogado e Professor. http://zmauricio.blogspot.com/ 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Um candidato militar para a próxima eleição presidencial

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por José Geraldo Pimentel

Aparentemente as Forças Armadas estão tranquilas, voltadas para as suas tarefas constitucionais; exagerando em alguns pontos, mas se fazendo presentes em todo o território nacional. Não estão aparelhadas como era de se esperar. Claudicando com equipamentos sucateados, tropa desmotivada; mas não fugindo nunca à luta e ao bom combate.

Carece de lideranças militares. De homens com o perfil de soldados que foram ficando no tempo, e deixando só a lembrança de patriotas que deram a sua contribuição ao serviço da pátria; atentos e presentes aonde o dever os chamaram. Não fizeram feio. Serviram às FFAA e não se serviram delas.

Homens com este perfil estão escasseando, sendo cada vez menos notados nos diversos postos de comando.

Mas a nação precisa de soldados para defender a pátria. Não podemos sucumbir, ver o país ser mergulhado na bandidagem sem que se escute um grito de alerta. O dever chama os últimos soldados, que se preciso for, darão suas vidas pelo país. Estes homens existem, embora em número reduzido. Mas existem! São vozes capazes de levantar o país e dizer alto e bom som: Acorda Brasil!

Imaginando uma saída pela via democrática, sugeria a indicação de um nome para concorrer ao cargo de presidente da república nas eleições de 2014. Um nome militar. Esse nome é o do ilustre general de exército

Maynard Marques de Santa Rosa; um militar intelectual, centrado, corajoso, que não faz uso do expediente da palavra ‘disciplina’ para esconder fraqueza moral. Pelo contrário, esteve presente nos momentos de crise porque passou o país, dentro de sua área de atuação, como chefe militar, e soube de viva voz manifestar a sua opinião. Sempre foi claro nos seus pontos de vistas, transparecendo seriedade, e passando confiança aos seus comandados. Outras indicações para outros cargos poderia colocar em debate.

Um oficial sério, corajoso e homem de atitude, ideal para substituir o general Enzo Martins Peri no Comando do Exército; e, inclusive, no Ministério da Defesa, se colocarem um militar nesta pasta, apontaria o general de exército Luiz Cesário da Silveira Filho. No seu comando o Exército deixaria de ser pinico dessa malta de comuno-petistas, que vem transformando os chefes militares num ‘bando’ de ‘gados fardados’!

O ex ministro da Defesa, Nelson Jobim, colocou um arreio nos militares e adeus autoridade. Viraram todos uns mercadores de medalhas, não sobrando um ex terrorista e ex guerrilheiro que não tenha sido agraciado com as mais nobres comendas militares. A Síndrome de Estocolmo imperou em sua gestão!

Um nome bastante comentado pela mídia, e respeitado pela tropa, é o do general de exército Augusto Heleno Ribeiro Pereira. Acho apenas que ele peca pelo excesso de zelo e disciplina. Corre o risco de em uma situação de impasse com uma nação qualquer, ceder à ordem do inimigo, e levantar a bandeira branca.

- Renda-se, general. Ele se rende.

- ‘Disciplina’, justificará depois.

Acredito que sua posição ideal é ocupar um cargo de senador da república. É bom de fala, competente e agrada ouvi-lo. Se voltar a usar o uniforme de campanha, como fazia em todas as aparições em público, irá arrasar. É meu candidato natural ao Senado Federal.

Para a Câmara Federal mantenho a minha opção pelo nome do capitão e deputado Jair Bolsonaro. Entende do riscado, é um homem de coragem e luta pela classe militar. Não tem logrado emplacar nenhum projeto relevante na Câmara, - briga sozinho nessa área, - mas consegue dentro da esfera militar atender a todos os pleitos dos militares. Só não conseguiu levar adiante o projeto da maldade (Medida Provisória 2215, de 31 agosto de 2001), porque se trata de uma questão de Estado. Os próprios chefes militares não se dispõem desengavetar o projeto que dorme na Câmara Federal a uma década.

As ‘emendas parlamentares’ ele tem destinado a aquisições de equipamentos médicos e melhoramentos de instituições ligadas aos militares. O Jair Bolsonaro tem contado com o meu voto desde a primeira vez que se candidatou a deputado federal. Conta com um eleitorado cativo. Acho, apenas, que ultimamente tem se perdido com a questão ligada à homofobia, queimando a sua imagem. Num programa vespertino de televisão, de repente lá estava ele cercado de mais de vinte bichas, cada uma mais louca, parecendo seres saídos de catacumbas; pintadas, cheias de piercings, agressivas, gritando todas ao mesmo tempo. O deputado se viu louco, tendo apenas como companheiro de batalha um Skinhead. Eram dois contra a viadagem do planeta Terra! A apresentadora saiu de perto e o deixou no meio das feras! Terrível a cena!

Não vejo porque lidar com este assunto. Sua briga contra as cartilhas distribuídas pelo Ministério da Educação, tem sentido; mas se defrontar com criaturas desvairadas, que nem sabem ser homossexuais, agindo como umas bichas loucas, não vale a pena.

Aqueles rostos raivosos lembraram-me na hora de duas figuras emblemáticas que se intitulam justiceiras, querendo a todo custo processar e levar às barras dos tribunais os militares que lutaram nos anos 64 /85 contra os comunistas terroristas e guerrilheiros.

Essas periguetes são uma amostra de como ser feia sem precisar usar máscara. Atendem pelos nomes de Maria do Rosário Nunes, ministra chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República; e deputada Federal Luíza Erundina (PSB-SP). Duas mocréias fantasiadas de mulheres! Dizem as más línguas que estas senhoras, por serem comunistas, comem criancinhas! Quando aparecem em reuniões familiares as mães tratam de retirar os filhos.

- Quem tem suas crianças, que prendam! Gritam as mães desesperadas!

O Brasil precisa mudar. Poderemos ganhar esta batalha através do voto. Este é o caminho democrático.

Se tentarem humilhar os militares através da famigerada ‘comissão da calúnia’ as armas serão outras. Nenhum militar vai ser humilhado por este bando de comunistas.

Não se deve atender a quaisquer intimações para comparecer a tribunais de exceção.

Se um represente dessa ‘comissão da calúnia’ aparecer em sua porta para entregar intimação, mande-o à merda. Se reagirem tentando entrar em seus lares à força, passe fogo. É sacar a arma e atirar de primeira, sem pensar duas vezes. Bandido bom, é bandido morto, já dizia conhecido policial.

A nenhum comunista será dado o prazer de invadir a casa de um militar e levá-lo preso para depor em comissãozinha chinfrim qualquer. Invadiram duas casas do major Curió em Brasília e o prenderam. A ousadia não irá se repetir!

Cada militar deve defender o seu próprio lar. Não contem com a solidariedade dos chefes militares. Os comandos militares provaram que são capazes de entregar os companheiros numa bandeja de prata para o inimigo. O ex comandante do Exército, respondendo a um questionamento do Cel Carlos Alberto Brilhante Ustra, foi taxativo, declarando sem meias palavras:

“- O Exército não vai fazer nada!”

Uma atitude própria de um covarde que abandona o seu companheiro na frente de batalha! Na administração do ex ministro da Defesa, Nelson Jobim, os três comandantes militares o acompanharam e se reuniram no Distrito Federal com os três presidentes dos Clubes Militares, convencendo-os a não criar obstáculo na criação da Comissão Nacional da Verdade. Em outras palavras, comandantes militares e presidentes dos clubes militares, acovardaram-se, cumprindo uma ordem absurda só para agradar ao todo poderoso ex ministro da Defesa.

- O cara está certo! Temos que acreditar no ministro!

Só que o ex ministro Nelson Jobim é um péssimo exemplo para se tomar como parâmetro de seriedade. A dignidade e a moral passam longe de seus caráter. Sua trajetória como político e membro do Supremo Tribunal Federal não ilustra nenhuma biografia. Pelo contrário! À frente do ministério da Defesa pousou de machão, e pisou no pescoço dos chefes militares, transformando-os em meninos de recado. Era dar uma ordem e os comandantes militares enfiavam o rabo entre as pernas e saiam iguais a cachorrinhos de madame, dóceis e cumpridores de ordens! Ele fez mil promessas, e não cumpriu nenhuma. Mexeu na estrutura administrativa da organização diminuindo a autoridade dos comandantes militares. Afastou-os ainda mais da proximidade do poder. E para coroar a sua ação devastadora à frente do ministério da Defesa, nomeou como assessor especial da pasta, um comunista, ex guerrilheiro, traidor e elemento processado no STF por participar do esquema do ‘mensalão’. O ‘cachorrão’, ou ‘X-9’, como queiram, responde pela alcunha de José Genoino, ainda foi feito representante das FFAA brasileiras perante o Congresso Nacional.

Apesar de tanta humilhação, ninguém irá repetir a Argentina no Brasil! Pertencemos a outra casta de militares.

Brasil Acima de Tudo!

José Geraldo Pimentel é Capitão Reformado do EB - http://www.jgpimentel.com.br

sábado, 14 de janeiro de 2012

Bicho Digital: a Farsa da “Contravenção”

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Nelson Motta

Depois de prender, seis dias seguidos, o mesmo bicheiro que anotava apostas próximo à sua casa, leva-lo à delegacia e vê-lo voltar para o ponto sem qualquer punição, o secretário de segurança José Mariano Beltrame, deu o ultimato: a sociedade tem que decidir de uma vez se legaliza ou proíbe o jogo do bicho.

A pior escolha é continuar gastando o tempo da policia com a farsa da "contravenção", em que a polícia finge que prende e o contraventor finge que é preso, para que tudo continue como está: o jogo do bicho como fonte inesgotável de corrupção policial, política e judicial.

Seja por um marketing eficiente ou por razões antropológicas que só o professor Da Matta pode explicar, o jogo do bicho é considerado um passatempo inocente, uma instituição secular da nossa cultura popular, e os bicheiros são vistos como grandes beneméritos de escolas de samba e de comunidades carentes. Embora as guerras por territórios entre bicheiros sejam sangrentas - recentemente o carro do chefão Rogério Andrade foi explodido por controle remoto à luz do dia -, o bicho é visto com tolerância, e até confiança, pela população.

Poucas instituições no Brasil têm mais credibilidade que o jogo do bicho, embora nunca tenha sido feita uma auditoria nos seus sorteios. Diz-se que é jogo de pobre, de pequenas apostas, pequenas perdas ou ganhos, alimentadas pelo sonho de acertar no milhar e a certeza de que o bicheiro vai pagar, garantida pela frase clássica impressa no talão: vale o escrito. É urgente legalizar, mas não faz sentido privatizar o bicho para deixá-lo nas mãos dos bandidos de sempre. Até os privatistas vão concordar que é um raro caso em que o Estado, que já administra inúmeras loterias, pode e deve assumir mais uma, zoológica - porque já tem estrutura, tecnologia e uma rede nacional eficiente.

Além da faxina ética, o governo poderia arrecadar uma CPMF com o jogo do bicho. Os bicheiros que vemos todo dia em suas cadeiras na calçada poderão continuar anotando apostas, mas em maquinetas eletrônicas ligadas à central de loterias da Caixa, emitindo talões com a nova garantia: vale o digitado.

Nelson Motta é Jornalista e Crítico Musical. Originalmente publicado no Estadão de 13 de Janeiro de 2012.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A espada na Dilma: imagem premiada

Edição de curiosidades no Fique Alerta - www.fiquealerta.net
Por Jorge Serrão

A imagem da presidenta Dilma Rousseff com a impressão de ter uma espada atravessada em seu corpo, durante cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras em Resende (RJ), rendeu um renomado prêmio internacional. O Repórter-fotográfico Wilton Junior, que trabalha na sucursal Rio do jornal O Estado de S.Paulo, foi anunciado hoje vencedor do Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha, na categoria Fotografia. Parabéns!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Educação Infantil, a máxima prioridade

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Jack Schonkoff

Houve uma revolução. Durante décadas, observávamos claramente como uma família preocupada com a educação das crianças na primeira infância poderia exercer um poderoso estímulo no seu desenvolvimento. Também ficava patente que a exposição precoce a ambientes violentos têm um impacto muito negativo no processo formativo. Agora, começamos a entender como esses fatores de estímulo ou estresse influenciam a fisiologia da criança com menos de seis anos, especialmente o cérebro. Tal conhecimento ajuda muito na hora de pensar intervenções para diminuir o abismo que separa crianças que receberam uma educação adequada daquelas expostas a um ambiente ruim.

Crianças submetidas a um ambiente marcado por doenças mentais, drogas ou relacionamentos violentos constituem um problema complexo. A ciência tem mostrado que o impacto do estresse nessa fase é tão grave que aumenta o risco de hipertensão, diabete e cardiopatias na idade adulta. Naturalmente, o cérebro é o principal afetado com danos comprovados em diversos circuitos. Educadores e - na medida do possível, os pais - precisam identificar com precisão qual é o fator de estresse e tentar criar um espaço de segurança ao redor da criança. Precisarão ensinar a ela técnicas para lidar com as situações negativas a que está submetida, minimizando os danos. Sem isso, prover os estímulos tradicionais é insuficiente. Não serão eficazes para corrigir os prejuízos já sofridos na afetividade e na cognição.

O principal fator determinante para o sucesso de um programa é o treinamento adequado dos educadores que vão conduzi-lo. Há uma tentação de pagar pouco para esses profissionais. Mas é uma economia ilusória, pois diminui a qualificação e o comprometimento de quem você contrata. O resultado que você consegue por cada dólar investido cai bastante. E a qualificação é tanto mais necessária quanto maiores são os dramas enfrentados pelas crianças. Além disso, um único programa aplicado para toda a população costuma ter resultados ruins.

É preciso conceber diferentes programas que correspondam às necessidades específicas de cada grupo. Para a maioria das famílias carentes, de fato, bastará prover informações para os pais, que muitas vezes não tem qualquer escolaridade, e os ajudar a contribuir para a educação dos filhos. Os pais continuam sendo os atores mais importantes na educação dos filhos. Programas que conseguem engajá-los na formação das crianças apresentam taxas de sucesso muito maiores. Mas são necessário programas especiais para grupos de risco.

Quando a criança nasce, já tem quase todas as células do cérebro que a acompanharão durante a vida. Mas faltam ainda os circuitos e conexões que ligam os neurônios. Na primeira infância, essas conexões ocorrem de uma forma muito rápida. Além dos fatores genéticos, o principal determinante são as experiências que a criança vivencia. Nos primeiros dois anos de vida, o ritmo de ligações alcança 700 conexões por segundo.

É como a construção progressiva de uma casa. As primeiras conexões são o fundamento, as seguintes são as paredes, depois o telhado... Os circuitos de maior complexidade dependem dos anteriores, mais elementares. Naturalmente, o cérebro não perde a capacidade de compensar deficiências e nunca é tarde demais para desistir. Mas o resultado fica aquém quando comparado com um desenvolvimento adequado e o custo torna-se muito maior.

E o dinheiro investido na primeira infância apresenta a melhor relação custo benefício de todos os investimentos feitos em educação. A segunda decisão política a ser tomada é reconhecer que, para grupos restritos da população, estímulo educacional não é suficiente. Para famílias em situações de maior vulnerabilidade, são necessários programas para diminuir e compensar os fatores de estresse na educação das crianças. A sociedade deve perceber que o investimento na primeira infância compensa. Além de aumentar, no futuro, a população economicamente ativa diminui muito o número de pessoas que vão parar nas prisões. Há estudos que comprovam isso.

Sem dúvida, não é fácil. Investimentos em educação na primeira infância são sementes que você lança e seus filhos e netos colherão depois. É necessário um sentido de legado que falta a muitos políticos preocupados com seu próprio desempenho na próxima eleição. Mas precisamos argumentar e a ciência oferece ótimos argumentos. Um famoso estudo realizado em Michigan comparou durante quarenta anos o desempenho de pessoas pobres que tiveram acesso à educação na primeira infância com indivíduos semelhantes mas que não receberam o mesmo apoio.

Os resultados são eloquentes. A probabilidade de concluir o ensino médio era 20% maior no grupo que estudou na primeira infância. O envolvimento com crimes também era significativamente mais baixo no mesmo grupo. Economistas calcularam que para cada dólar investido na primeira infância, nove dólares eram economizados depois. Sem dúvida, as crianças serão mais felizes. No futuro, sua taxa de empregabilidade, por exemplo, será maior. Contudo, precisamos perceber que a sociedade é quem lucra o maior benefício.

Jack Schonkoff é membro do Centro para o Desenvolvimento Infantil, de Harvard. Trechos de entrevista ao Estado de SP em 9 de Janeiro de 2012.

PS - A secretaria municipal de educação da prefeitura do Rio atualizou os números de sua rede, de matrículas e escolas, em 11 de agosto de 2011. EDUCAÇÃO INFANTIL (creches + pré-escola) são 111.613 alunos/crianças matriculados. O Tribunal de Contas do Município do Rio (TCM-RIO), em seu relatório de contas, informa que, em 2008, em EDUCAÇÃO INFANTIL, eram 116.065 alunos/crianças matriculados. Ou seja, em dois anos e meio houve uma redução de matrículas em Educação Infantil de 4.452 crianças (3,8%).

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Pesquisas eleitorais: Ortodoxia, Má Fé ou Fraude?

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Cesar Maia

Num país como os EUA, a pré-campanha se confunde com a campanha em função das eleições primárias nacionais que expõem amplamente o candidato da oposição. No parlamentarismo, a pré-campanha é permanente, na medida em que o deputado líder da oposição é o candidato a chefe de governo na eleição seguinte.

Mas num regime presidencialista sem primárias, com sistema pluripartidário, onde o fato de ser líder de um partido de oposição não sinaliza candidatura majoritária a presidente, governador ou prefeito, e onde as eleições confrontam personagens lastreados em tempos de TV, que só entram 45 dias antes da eleição, como no Brasil, quem exerce o poder executivo e é candidato à reeleição, faz pré-campanha sozinho.

Some-se a isso a total liberdade dos governos para gastar centenas de milhões de reais em publicidade paga na mídia, vinculando essa publicidade da imagem de quem governa à mídia espontânea (compulsória). E a lei eleitoral garante esse tratamento diferenciado entre governo e oposição. Não citar o nome na publicidade de governo é brincadeira. E os horários partidários gratuitos, sequenciais e desvinculados e muitas vezes com outras caras, de pouco servem. E quando se sinaliza para a campanha, a lei eleitoral penaliza.

Por essas razões, fazer pesquisas simplesmente oferecendo o nome do candidato à reeleição junto a outros candidatos que não têm -nem de longe- a mesma visibilidade e exposição, é ortodoxia, má fé ou fraude. Basta ler em algumas dessas pesquisas a porcentagem de conhecimento de cada um.

Para valer, se deveria cruzar as intenções de voto de quem conhece bem cada candidato. Mas isso exigiria um volume muito grande de questionários e ajustes técnicos por perfis a serem amostrados. Muito difícil para se publicar. Extrapolar com os cruzamentos existentes é possível e orienta os demais candidatos. Mas não se pode publicar como pesquisa. E quando se faz análise de pesquisas internas e se divulga, a lei eleitoral penaliza.

Outro caminho é projetar cenários, seja através de vinculações dos nomes dos demais candidatos com outros personagens políticos e com suas propostas, antecipando o que ocorrerá na campanha. E fazendo o mesmo com o candidato à reeleição nos pontos críticos que serão explorados em campanha. Com isso, se antecipa o cenário eleitoral provável. E se tem números muito mais confiáveis.

Fundamental tudo isso para os demais candidatos, embora para uso interno, já que por razões de técnica estatística, não se pode publicar. Um caminho é usar os nomes de personagens políticos majoritários em outras eleições ou que já governaram, e que serão "eleitores" dos demais candidatos, e testar a competitividade do quadro eleitoral.

Pesquisa não ganha eleição, é verdade. Mas quando deforma o quadro eleitoral futuro, gera adesões apressadas e recursos elásticos para patrocínio das campanhas. Usando o Rio como exemplo, em 1992, Cesar Maia abriu a campanha com 5%; em 1996, Conde abriu com 5%; em 2008, Gabeira com 5%, apenas para citar três exemplos de candidatos que, naqueles anos, tinham muito menor visibilidade que os favoritos (pela ordem Cidinha 37%, Cabral 38% e Crivella 27%).

Um ano antes se sabia -projetando cenários- que o quadro não era esse. Quem se apavorou com as primeiras pesquisas ficou para trás. Quem tinha os números projetados sabia que o quadro era outro e desenvolveu sua pré-campanha e campanha, até o impacto da TV, com tranquilidade, aplicando a estratégia traçada e..., correndo, depois, para o abraço.

(Folha de SP, 09) Menos de um ano após tomarem posse, 127 congressistas já planejam trocar de função e disputar, em outubro, uma cadeira de prefeito. Segundo levantamento feito pela Folha, 121 deputados federais e seis senadores -21% do total de 594 parlamentares- tentam viabilizar seus nomes para o pleito. Os congressistas não precisam se licenciar para a disputa. Os parlamentares-candidatos levam vantagens como a visibilidade do mandato e a possibilidade de terem, até abril, verba para produzir jornais e vídeos a título de divulgação do mandato. Em 2004, 96 congressistas saíram candidatos a prefeito ou vice. Mas apenas 16 foram eleitos. Em cada legislatura, 18% dos parlamentares em média tentam ir para as prefeituras.

(Ex-Blog) Mas, com isso -especialmente nas cidades com TV- ganham visibilidade, o que pode torná-los personagens e facilitar suas reeleições parlamentares.

Cesar Maia é Economista. Originalmente publicado no Ex-Blog de 10 de Janeiro de 2012.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O sexo feminino perante a Justiça

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Baptista Herkenhoff

Embora a Constituição Federal determine que homens e mulheres sejam iguais e proíba discriminações, essa igualdade é ainda um ideal a ser alcançado.

Por este motivo, creio que o tema “igualdade dos sexos na Justiça” mereça ser discutido, principalmente nas Faculdades de Direito.

Uma forma didática de tratar desta matéria é promover o debate a partir de casos judiciais.

Ofereço com esta finalidade alguns casos com os quais me defrontei, no exercício da magistratura.

A primeira sentença que desejo registrar aqui foi a que proferi acolhendo o motivo de relevante valor moral no ato de um acusado que feriu o agressor de sua irmã Ana Célia, uma prostituta. Prostituta existe para ser abusada, não tem direito de ser socorrida por um irmão? É óbvio que tem esse direito, é pessoa, não é coisa.

Numa segunda decisão, absolvi Jovelina que matou seu companheiro. A vítima jogou água quente e um vidro de pimenta na desditosa mulher e depois passou a bater na companheira com uma panela. Reconheci a excludente de legítima defesa no ato praticado e proferi absolvição sumária, livrando Jovelina até mesmo da humilhação do julgamento perante o Tribunal do Júri. O Ministério Público recorreu, como era de seu dever na hipótese, mas o Tribunal de Justiça confirmou a sentença absolutória de primeiro grau.

Num terceiro decisório, excluí das malhas do processo penal a pessoa de Marlene, mãe de um menor envolvido num atropelamento. Argumentei: “Sendo a responsabilidade penal, de natureza pessoal, é intransferível. A condição de inimputável do agente – um menor – não autoriza a chamada, ao processo, da mãe do mesmo. Quanto à responsabilidade civil, é outra matéria, a ser apreciada pelo juízo competente.”

Num quarto caso, fundamentei no zelo com que Isabel cuidava de Moacir, seu irmão, doente mental, a razão para libertar Moacir de um processo. Este segurou o braço de uma criança, mas nada lhe fez. A menina ficou assustada, ou porque estranhou a fisionomia do paciente, ou porque conhecia sua condição de insano. Na minha presença, Isabel disse que seu irmão não oferecia qualquer perigo e que ela, que sempre estava atenta aos passos dele, redobraria sua vigilância depois do fato que havia acontecido.

Numa outra decisão assegurei visita íntima de companheiro a uma presa provisória que estava sob minha jurisdição. Não me cabia disciplinar a matéria, em caráter geral, pois juiz das execuções criminais não era, mas tinha competência legal para decidir sobre o pleito de uma acusada que estava submetida a processo sob meus cuidados. Argumentei, no meu despacho, que a prisão não subtraía da requerente o seu direito ao exercício da sexualidade. Quanto a engravidar, somente à presa competia decidir sobre este tema.

Não tinha razão jurídica o óbice que se opunha às visitas íntimas justamente sob a alegação daquilo que indevidamente se chamava de “risco de gravidez”. Gravidez não é risco, é um ato livre. Aproveitei a oportunidade do despacho para fustigar o sistema, observando que a mulher não é “sujeito” na estrutura do sistema carcerário, como não é “sujeito” na arquitetura social. A presa tem o direito de “ser mulher” em toda a sua extensão. Finalmente, abrangendo homens e mulheres, fechei meu despacho afirmando que o direito a visita íntima é importante para a reabilitação do encarcerado, pois conduz ao sentimento de pertença ao gênero humano.

Finalmente devo citar, não uma sentença, mas um procedimento adotado em diversas comarcas do interior do meu Estado. Para que esse procedimento seja entendido é preciso dizer que ocorreu no final da década de 1960 e princípios da década de 1970.

Encontrei, em diversas comarcas do interior do Espírito Santo, listas de jurados com uma presença inexpressiva de mulheres. Nessa época, essa discriminação da mulher não ocorria apenas em terras capixabas, o que podia ser constatado pela simples leitura dos jornais. Em tal situação, os tribunais do júri eram, na verdade, tribunais masculinos. Com habilidade, não impondo simplesmente (com invocação do argumento de autoridade), mas conversando, conseguimos alterar substancialmente a distorção, nas comarcas em que essa distorção estava aparecendo.

João Baptista Herkenhoff, 75 anos, magistrado aposentado, é Professor da Faculdade Estácio de Sá do Espírito Santo, palestrante e escritor. Acaba de publicar Curso de Direitos Humanos (Editora Santuário, Aparecida, SP). E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br - Homepage: www.jbherkenhoff.com.br

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Cuidado para seus filhos não virarem um Crack

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Reginaldo de Souza Silva

O Brasil caminha para ser a 5ª economia do mundo. O único problema, seu PIB é distribuído desigualmente há séculos. Segundo o ministro da economia o país levará 20 anos para ter o mesmo padrão de vida dos europeus. Restando para os trabalhadores e excluídos sociais, muita propaganda, demagogia e promessas. Eventos como olimpíada, copa do mundo, visita do Papa, Rio mais 20, conferencias mundiais etc, estão permitindo expor ao mundo os limites da política social brasileira.

A panacéia está instalada, novos e modernos aeroportos, sistema de transporte de massas, segurança digital e megaconstruções. Em época de festas e grandes eventos, um ingrediente da realidade social se desponta, o consumo de drogas, em que o consumo de álcool e tabaco entre os adolescentes é muito maior do que o crack com seus efeitos devastadores e o de cocaína que vem aumentando.

No Rio de Janeiro em março/11, a SMAS realizou 2.944 acolhimentos (2.476 adultos e 468 crianças e adolescentes). No Ceará em Junho/11 foram apreendidas 2.769 pedras de crack com crianças e adolescentes. Levantamento, realizado em Ribeirão Preto-SP, revelou que os usuários de crack constituem a maior parte dos atendidos no Centro de Atendimento Psicossocial em Álcool e Drogas (CAPS-AD).

Nos meses iniciais de 2009, dos 10.500 atendimentos realizados, 6.825 foram relativos a dependentes de crack, que, muitas vezes, combinam seu uso a outras drogas. Segundo a Comissão Nacional de Monitoramento - CNM, 58,5% dos mais de 4.400 municípios pesquisados enfrentam problemas na área de segurança por causa do crack. No setor de saúde, esse número chega a 63,7%.

O crack é a cocaína em pó, adicionada de água e de bicarbonato de sódio, que é aquecida até a água evaporar, e o produto final consiste em pedras de cocaína. É fumado em cachimbos ou improvisações. Quando o cachimbo é aceso e a pedra, de uma cor que vai do branco ao marrom, pega fogo, produz um estalo, o “crack” (estalo em inglês). Para alguns especialistas ele produz efeito mais imediato e intenso do que a cocaína, com um grande diferencial o preço. Há pedras de 10 reais, de 5 e “lasquinhas” de 1 real.

Em relação aos “Cracks” estamos vendo muitas contradições para além das modalidades esportivas, o que está surgindo é um HIGIENISMO SOCIAL, não há interesse em resolver o problema dos dependentes e sim em tirá-los das ruas. São Paulo e Rio de Janeiro deram o ponta pé inicial tratando-os com internações compulsórias e involuntárias. As Comunidades Terapêuticas surgem e ganham força em meio a ausência completa do estado.

O Conselho Federal de Psicologia fez inspeções em 68 entidades e verificou inúmeras violações de direitos humanos. “De forma acintosa ou sutil, banalizam os direitos dos internos, interceptando e violando correspondências, violência física, castigos, torturas, exposição a situações de humilhação, imposição de credo, exigência de exames clínicos, como o anti-HIV (inconstitucional), intimidações, desrespeito à orientação sexual, revista vexatória de familiares, violação de privacidade, entre outras”.

Para a imensa maioria dos pobres, desvalidos da sorte, para as famílias que muitas vezes não sabem onde buscar ajuda, essa é a única opção. Com honrosas exceções as Comunidades Terapêuticas apresentam prática manicomial que não fortalece os dependentes em seu meio social. A dependência química é uma questão de saúde que necessita do fortalecimento dos CAPS-AD, o SUS necessita ampliar o tratamento e dar suporte aos Caps-i que absorvem apenas o serviço ambulatorial.

Aspectos que merecem reflexão: a dificuldade do trabalho em rede; ações isoladas e o império das vaidades; a necessária normatização e fiscalização das comunidades, clínicas e a internação compulsória; as comunidades terapêuticas: as dificuldades de regularização; as contradições com os ideais da reforma psiquiátrica; o funcionamento sob o método "capina e reza"; a ausência de convênios e a execução do serviço como práticas caritativas. Quanto à internação compulsória, como decidir se deseja ou não uma internação? Para onde ele irá depois? Para a biqueira? Que trabalho será feito para reinserí-lo na sociedade? No combate ao uso indevido de álcool e outras drogas uma ação integrada é imprescindível.

Precisamos ficar atentos com nossos filhos e filhas, oferecer um novo projeto de vida, porque a relação com a droga tem a ver com o lugar onde ele vive, com o espaço social, a sua condição na família, exigindo serviços de saúde diferentes para necessidades diferentes. O uso da droga aliado ao vício gera outro problema na sociedade: a prostituição. O uso do crack tem levado muitos adolescentes a “abrirem as portas” para a AIDS novamente. É necessário trabalhar a família, pois, uma boa base familiar evita muitos problemas relacionados ao consumo do crack.

O dependente químico só raramente é adicto a uma única droga. O coquetel inclui o cigarro e o álcool, que fazem parte de sua trajetória rumo a falência da saúde, à dissipação da atenção, ao aniquilamento da vontade e à impossibilidade de exercer atividade produtiva em que se constitui o estado avançado de dependência. De uns anos para cá, entre as camadas socialmente desfavorecidas, principalmente, mas não só entre elas, o crack passou a reinar. FELIZ ANO NOVO! CUIDADO PARA O “CRACK” NÃO INVADIR A SUA FAMÍLIA

Reginaldo de Souza Silva - Doutor em Educação Brasileira, professor e coordenador do Núcleo de Estudos da Criança e do Adolescente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Email: necauesb@yahoo.com.br