segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Atirando pedras

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal

Soprando sua mão espalmada repleta de plumas, um sábio mostra a seu pupilo um ensinamento secular, que palavras ditas são como papéis picados, que esparramados pelo vento, jamais poderão ser totalmente recolhidos.

Em uma leitura, soube da história de um pescador que chegando ao rio pela madrugada, ainda escuro, encontrou um saco contendo pedras e ficou atirando, uma a uma, na água até que o dia clareasse e quando ia jogar a última delas, já com os primeiros raios solares, percebeu que era uma pedra preciosa.

Imagino o arrependimento do pescador, que atirou dezenas de pedras no rio, por uma atitude impensada, jogando-as antes mesmo de observar se possuíam alguma importância, se eram preciosas ou se com o polimento dos séculos, ficaram belas o suficiente para servir como objeto de decoração, ou apoio de livros.

Durante a vida, não observamos as pedras que atiramos ou nas quais tropeçamos, dizemos palavras, fazemos brincadeiras ou tomamos atitudes, que desagradam ou ofendem as pessoas, algumas desconhecidas, outras muito próximas, queridas e só nos lembramos que não há como recolhê-las ou apagá-las, após o arrependimento.

A necessidade, cada vez mais comum, de residirmos em apartamentos ou condomínios fechados, faz com que o cidadão urbano perceba, mais rapidamente, que não está só, em uma propriedade rural, longe de tudo e de todos, onde suas atitudes e decisões não influirão na vida do vizinho bastante distante.

Atitudes mínimas, corriqueiras, como fazer barulho durante a noite ou estacionar de qualquer forma na garagem do prédio, podem irritar, criar constrangimentos, ou até mesmo prejudicar outras pessoas que compartilham do mesmo espaço residencial.

Só a maturidade e essa convivência em sociedade, partilhando espaços comuns e cada vez mais concentrados, são capazes de nos mostrar a necessidade de seguir um antigo ditado: 'fomos criados para ouvir mais do que falar e por isso possuímos dois ouvidos e só uma boca'.

Não há como ignorar as ocorrências diárias, mas sempre dizemos coisas ou tomamos atitudes sem pensar nas consequências, se prejudicaremos ou ofenderemos alguém, ou nos igualamos às pessoas que nos ofenderam, possibilitando, dessa maneira, que continuem a nos ofender e que as revidemos.

Ouvimos muitas pessoas dizer que não levam troco para casa, que não assinam recibo ou algo parecido, mas se esse comportamento for generalizado, coletivo, certamente retornaremos à idade da pedra, com brigas constantes onde só sobreviverão os mais fortes e violentos.

Para melhor conviver em sociedade, precisamos aprender a calar e pensar, antes de dizer algo ou de tomar atitudes, pois cada ação provoca uma reação e nossa vida é repleta de ações, passos, caminhadas, trilhas e rodovias, cabendo a cada um a escolha das suas e das consequentes reações.

Resposta ou atitudes precipitadas normalmente causam reações também intempestivas, que poderão nos agredir, mesmo quando essa não era a intenção do outro, que simplesmente reagiu à nossa ação de imediato, sem pensar e provavelmente não reagiria daquela forma se tivesse pensado mais.

O silêncio é a melhor resposta para todos os assuntos, em qualquer situação. Mais tarde, pensando com calma sobre o fato, certamente veremos que poderíamos, ou deveríamos, ter respondido ou agido de outra forma.

Quando falarmos ou atirarmos pedras, precisamos observar o que irão atingir, pois como as palavras, mesmo quando atiradas na água as pedras podem provocar algo que não deveria.

Para não nos arrependermos do que fizemos, devemos analisar, antecipadamente, as palavras que diremos e as pedras que atiraremos.

João Bosco Leal é Produtor Rural - www.joaoboscoleal.com.br

domingo, 30 de outubro de 2011

Sem filhos, uni-vos

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marli Gonçalves

Eu preciso voltar a esse assunto, mas desta vez será por outro ângulo. Desta vez defenderei diretamente a opção, que também é sexual no fundo, e que vem sendo vítima de preconceitos pesados, além de insinuações sobre tristezas quase dramáticas e terríveis frustrações que acometeriam os "desfilhados". Qual o problema de não fazer crianças, de não querer fazer, e de viver sem ter feito?

Faz uns quinze dias que ando sentindo uma pontadinha bem chata, de alguma coisa tentando perturbar a minha natural ordem das coisas. Como se algo estivesse tentando me espezinhar, a mim e a muita gente que conheço e admiro. Tem acontecido toda vez que estou perto de uma televisão ligada, ou lendo o jornal sobre as últimas novidades no caso da união civil de parceiros do mesmo sexo. Demorei um pouco a reconhecer o que era que os meus ouvidos escutavam e não assimilavam. E era um monte de besteiras, um saco delas. Mais uma vez não dá para calar e deixar passar.

Tipo os tais adesivos da familinha feliz, toda hora aparece uma besta (bestas fêmeas e bestas machos, incluindo um Ratinho Júnior.) falando na importância da família. Até aí, vai, tudo bem, que família, seja qual for a que a gente compõe, é legal. Até a família Lego é legal. Tem a família urso, a família das plantas ... Mas logo vem a imagem que uns zinhos aí ilustram de forma didática, simplista e tatibitati: um homenzinho mais uma mulherzinha mais coraçãozinho igual a uma criança, duas crianças, três crianças. De enjoar. Enjoo toda vez que vejo e garanto: não é gravidez. Resolvi há muito tempo que não teria filhos. Não os tive. E não sou nem melhor nem pior por isso. Mas exijo respeito à minha opção e que é opção de tanta gente, incluindo decisões de casal.

O coitadinho do peixinho utilizado como símbolo pelo tal Partido Social Cristão, o PSC, e aquelas suas propagandas que dão engulhos dos mais reais, insistem, com uma cara de pau que faz por merecer um bom controle remoto nos cornos, zapeando eles. É como se para essa gente que se intitula cristã na hora que quer voto e adeptos só sejam considerados "família", ou que entendam o seu significado, os que têm filhos, papai com mamãe mais negocinhos. Homem mais mulher fazendo o que o peixinho manda: sexo para crescer e se multiplicar. Para eles deve ser questão de preservação de espécie animal e de seus bandos. Só pode ser. Acho mesmo que quem tem que crescer e se multiplicar antes de dar conselhos moralistas são os próprios, entre os quais se procuramos encontraremos vários degenerados.

Mas a coisa não acaba aí. Essa semana um grande jurista, que tem o direito de ser contra o casamento gay, mas não o direito de baixar normas, andou falando a mesma bobagem. Que união só pode ser entre homem e mulher porque esses podem procriar. E se não quiserem? Deixarão de ser casal? Deixarão de serem considerados socialmente? É essa divisão que está sendo pregada?

Nunca tinha me interessado antes em pesquisar sobre esse assunto que para mim é natural, e que acompanhei a vida inteira só observando o mundo à minha volta, basicamente. Então fiquei muito surpresa com o que achei, claro que pela asas da internet onde a gente estica a mão e o táxi do conhecimento para e abre a porta para você entrar. Nessa, descobri uma "organização" radical, chamada Sem Filhos, a Child Free Life Style (http://www.semfilhos.org/), e que prega o orgulho pela opção. Para vocês terem idéia o logotipo é aquela imagem da cegonha carregando uma trouxinha bebê, ao contrário, indo para a esquerda, e riscada em diagonal. Parece coisa de gringo, deve ser, mas foi adaptada e o que eu gostei mais foi o destaque que dão à expressão Sem filhos por opção.

Chamei de radical porque eles tiveram a pachorra de listar dezenas de "bons motivos" para resolver não ter os pequeninos. Um deles: eles, os fedelhinhos filhos, crescem. Quer outros motivos que eles lembram? Crianças custam caro; Tem crianças demais na Terra; Desnecessário para perpetuação da espécie (já são 8 bilhões de seres humanos no mundo); Crianças são capazes de colocar os pais em situação de vexames na rua; Filhos são como alto-falante de pedir coisas; O filho é um ser humano como outro ser qualquer então dele se pode esperar de tudo, inclusive fazer mal aos pais; Criança boa só tem duas: aquela que já fomos e a dos outros; Colocar alguém no mundo só pra ele cuidar de você na velhice, e atender seus projetos pessoais é egoísta e mesquinho; Ter filhos é igual piscina gelada, depois que o primeiro tonto entra, fica falando para os outros: - Pula que a água tá boa! Eles também deram destaque na página à informação que "500 mil mães morrem durante o parto todos os anos". Maldade...

Querem mais ou chega?

Mas tem mais reclamação sim. Primeiro que os "sem filhos" têm que ficar mais espertos porque estamos sendo chamados diariamente de cidadãos de segunda classe. Depois, até a novela das nove, a que faz a cabeça das pessoas, está mostrando uma mulher bem resolvida que resolveu "pirar" e ter um filho já com mais de 40 anos de idade. Uma opção real e respeitável. O legal é exatamente isso: quem resolveu não ter filhos pode "desresolver". Pode buscar por inseminação artificial, por adoção, pegar para criar, em qualquer altura da vida. Mas quem os teve e mudou de idéia não pode simplesmente devolvê-los. O que faz com que tratem os que tiveram com casca grossa, criando monstrinhos problemáticos e distribuindo-os para a sociedade.

A novela anda discutindo isso, em sua ficção. Tudo bem. E está misturando coisas no mesmo caldeirão, onde até uma médica decidida que nunca teve filhos e que agora resolveu criar um sobrinho, está virando bruxa má: trabalha com fertilização in vitro e quer manter os avós maternos do menino (umas pestes os velhinhos) bem longe dele.

Pergunte, no entanto, às pessoas mais simples, para quem elas estão torcendo. Chamam a médica de tia, de solteirona recalcada, e daí para pior. Estou vendo. Observando bem.

Já senti - e ainda sinto muito - esse preconceito. Na própria pele. De gente que sempre quis cuidar do meu útero, esquecendo do próprio.

Essa coisa, essa visão ultrapassada, até vinha melhorando ultimamente. Mas parou de progredir. Assim, sem-filhos! Uni-vos! E multiplicai-vos!

São Paulo, onde não está cabendo mais ninguém, 2011

Marli Gonçalves é jornalista. Solteira, sem filhos. Opções feitas nos dois campos. Mas quem me conhece sabe que sou mais exemplo de família do que todos esses pregadores com peixinho na lapela..

sábado, 29 de outubro de 2011

Um minuto de silêncio para os livros de papel

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marcos Hiller


Um dos assuntos que mais gera debate acalorado hoje em dia é o futuro do mercado editorial e dos livros físicos ou e-books. Para onde está indo esse mercado? Os livros digitais vieram para ficar? Os livros físicos tendem à falibilidade? Essas e outras perguntas transitam as cabeças de editores, jornalistas, professores, bibliotecárias e amantes da leitura em geral. E com esse texto, procuro não trazer respostas, mas polemizar ainda mais esse debate.

Como professor, posso dizer que o livro é a água que mata nossa sede de conhecimento. Os livros e seus autores são elementos que ancoram todas as discussões que provocamos no mundo acadêmico. Eles são a nossa razão de ser, e os livros digitais são tudo isso, só que digitais, e não analógicos. Os livros físicos são bonitos, são charmosos, enfeitam nossas mesinhas de centro, etc. Mas os livros físicos pesam nas nossas mochilas e nossas costas doem. Os livros físicos são combustíveis para possíveis incêndios. Os livros físicos são feitos de papel e, sob a ótica da sustentabilidade, isso não é politicamente correto. Os livros físicos ocupam milhões de metros quadrados em prateleiras de bibliotecas. Livros físicos empoeiram.

E os livros digitais? Ah, os e-Books são mais fáceis de compartilhar, mais fácil de carregar e possuem exatamente o mesmo conteúdo do livro de papel. E quem disse que um iPad não fica bonito na nossa mesinha de centro? Fica sim.

Uma informação para os saudosistas do livro de papel. Hácerca de 1 ano, a BORDERS, simplesmente a segunda maior livraria dos Estados Unidos, pediu falência. E entre os vários motivos que levaram a essa quebra está o de maior peso: a BORDERS subestimou os e-Books e não entrou de forma efetiva para esse mercado.

Algumas pessoas falam que ler em uma tela cansa a vista por causa do brilho. Experimente ler no Kindle da AMAZON, que tem a mesma opacidade de página de papel - você não volta para o papel. Recentemente me peguei em uma discussão com uma professora do SENAC, onde eu defendia os livros digitais e ela defendia que os livros físicos são imortais. No meio da discussão perguntei a ela: “a senhora já mexeu em um iPad?” E ela respondeu que não. Oras, fica complicado discutir e tentar contra-argumentar com uma pessoa que forma opinião em cima de assuntos que desconhece. Não conhece, não fala.

Na minha opinião, os livros físicos estão sim com os dias contados. Assim como a TV analógica. Um minuto de silêncio por favor.

Marcos Hiller é coordenador do MBA em Gestão de Marcas (Branding) da Trevisan Escola de Negócios (@marcoshiller).

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Qual será a quarta maçã?

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Luciano Pires

Nasci em 1956 em Bauru, no interior de São Paulo, numa família católica apostólica romana. Cresci sob a moral cristã num contexto em que uma maçã teve peso absoluto. Foi experimentando uma que Adão e Eva desobedeceram a uma ordem divina e foram expulsos do Paraíso. Mesmo que você argumente que Adão e Eva são apenas uma alegoria e que nada daquilo existiu de fato, aquela maçã determinou um momento de virada que influenciou a história da humanidade e a formação moral de milhões de pessoas.

Sou o que sou como reflexo daquela primeira maçã.

Em 1965, com nove anos de idade, ganhei um compacto duplo com quatro músicas: Help!, I´m down, Not a Second Time e Till There Was You, de uma banda chamada The Beatles. Mas eu era muito jovem para entender aquilo. Foi só a partir de 1969, aos 13 anos, depois de ganhar um elepê chamado The Beatles, que percebi que algo diferente acontecia no mundo. E comecei a trilhar um caminho no qual meu modo de vestir, de dançar, de pentear o cabelo comprido, de falar e de interagir com os amigos e com a família entrava em choque com a geração de meus pais. O mundo estava em revolução. Vietnan, Rock´n Roll, as drogas, os hippies, a contracultura, os quadrinhos, o cinema, tudo mudou. Mas foi aquele disquinho de 1969 que abriu meus olhos para o que estava acontecendo. Ah, sim, aquele elepê foi editado por um selo novíssimo chamado... Apple.

Sou o que sou como reflexo daquela segunda maçã.

Cresci, fiz minhas escolhas e nos anos oitenta fui trabalhar como executivo numa multinacional de autopeças. Em 1986, produzindo um anúncio em homenagem à Volkswagem, fui a uma agência de criação onde conheci uma novidade: um computador Macintosh. Assisti maravilhado o artista fazendo diabruras com o logotipo da empresa, botando abaixo tudo aquilo que eu conhecia de fotomontagem, pasteup, letraset e fotolitos. Uma máquina com um design diferente, tela em preto e branco, um mouse e capacidade de fazer coisas que a gente via na tela antes de ter o produto pronto! Eu sabia que naquele momento minha vida começava a mudar. O computador passou a ser minha ferramenta indispensável para pesquisar, brincar, criar e me comunicar. Mudei a forma de trabalhar, a forma de pensar, a forma de me relacionar com o mundo. Depois veio o IPod com o ITunes, a base da tecnologia que me possibilitou criar o podcast Café Brasil. E por fim, o IPhone e o IPad. Nunca me cansei de admirar aquela turma capaz de criar coisas com as quais a gente nem mesmo sonhava... Ah, o nome da empresa é Apple.

Sou o que sou como reflexo dessa terceira maçã.

Morreu Steve Jobs, o gênio criador da Apple, um espetacular editor de idéias que sabia antes da gente o que é que a gente queria. Não tenho dúvidas que junto com ele morreu muito do espírito inquieto que fez da Apple a empresa revolucionária que mudou a vida até de quem não sabe o que é um computador.

Mas hoje acordei com uma dúvida...

Qual será a quarta maçã?

Luciano Pires é editor do portal Café Brasil que hoje possuí um dos podcasts (programa em áudio distribuído pela internet) mais importantes do país, com uma média de 120 mil downloads/mês. Este ano há previsão de que ultrapassará o número de 1,4 milhões de downloads. Acesse: www.keynotespeakers.com.br

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Nova Sociedade Urbana

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Richard Sennett

Uma cidade é um lugar em que as pessoas podem aprender a viver com desconhecidos, compartilhar experiências e interesses não familiares. A uniformidade embrutece enquanto a diversidade estimula o espírito. A cidade também oferece a seus moradores a possibilidade de desenvolver uma consciência de si mais complexa e mais rica. Não são submetidos a um esquema de identidade imutável.

As pessoas podem desenvolver imagens múltiplas de suas identidades, na medida em que o que são varia de acordo com as pessoas com quem convivem. Aí está o poder da diversidade - a liberdade de uma identificação arbitrária. Com relação a isso, os arquitetos e os urbanistas têm novos desafios pela frente, pois a globalização revolucionou o modo de produção, permitindo aos assalariados trabalharem de maneira mais flexível. E obrigando-os a viver a cidade de uma outra maneira.

Há mais ou menos 20-25 anos, as empresas começaram a se revoltar contra a pirâmide weberiana. Tentou-se "diluir", suprimir, alguns postos administrativos (utilizando as novas tecnologias da informática para substituir os burocratas) e acabar com a prática da atividade fixa para substituí-la por equipes que trabalham em períodos curtos e tarefas específicas.

Nessa nova estratégia, as equipes entram em competição umas com as outras, procurando satisfazer o mais rápido possível os objetivos fixados pelo topo da hierarquia. Não se trata mais de cada trabalhador ocupar um lugar específico em uma cadeia de comando bem definida. Assiste-se à duplicação das tarefas: equipes distintas confrontam-se para fazer o mesmo trabalho de forma mais rápida e eficiente. Dessa maneira, a empresa pode atender melhor às evoluções da demanda.

A palavra de ordem nesses locais de trabalho "flexíveis" é: "Nada a longo prazo!" Os planos de carreira foram substituídos por empregos que consistem em efetuar tarefas específicas e limitadas. Terminada a missão, o emprego é muitas vezes suprimido. No setor de alta tecnologia do Vale do Silício, a duração média de um emprego é de oito meses. As pessoas mudam constantemente de parceiros profissionais. As teorias modernas da gestão de empresas sustentam que o "prazo de validade" de uma equipe não deve ultrapassar um ano. Mas a flexibilidade não leva à solidariedade e tampouco proporciona a democracia.

É difícil sentir-se envolvido em uma empresa que não tem a natureza bem definida; é difícil agir com lealdade em uma instituição instável, que não demonstra ser leal com você. Os dirigentes de empresas descobrem que a falta de envolvimento se traduz em uma redução da produtividade e uma certa indiferença à noção de confidencial. A ausência de solidariedade, que é explicável pelo princípio "Nada a longo prazo", é um fenômeno bem mais sutil. As taxas de mobilidade geográfica passam a ser muito elevadas entre os trabalhadores que vivem a flexibilidade. O temporário é o único setor do mercado de trabalho com crescimento rápido, levando os assalariados a mudarem de casa com frequência.

Alguns especialistas em estudos urbanos sustentam que, para essa elite, o modo de vida na cidade tem mais importância do que seus empregos. Alguns bairros - chiques, com restaurantes na moda e serviços específicos - substituem a própria empresa como ponto de referência. A segunda expressão do novo capitalismo é a padronização do ambiente. Há alguns anos, o diretor de uma grande empresa do setor da nova economia - durante uma visita ao Chanin Building, em Nova York, um palacete art déco, com escritórios ultramodernos e espaços públicos esplêndidos - declarou: "Isso não seria conveniente para nós, as pessoas poderiam se ligar exageradamente a seus escritórios, poderiam se apropriar deles."

Paralelamente a essa "arquitetura-envelope" assiste-se à padronização do consumo público - uma rede mundial de lojas que vendem os mesmos produtos nos mesmos tipos de espaço, seja em Manila, no México ou em Londres. É difícil se afeiçoar a uma loja específica da cadeia Gap, ou de uma Banana Republic; a padronização produz a indiferença. As cidades deixam de oferecer o desconhecido, o inesperado ou o estimulante. Do mesmo modo, as experiências de uma história compartilhada ou de uma memória coletiva desaparecem diante da neutralidade dos espaços públicos. O consumo padronizado acaba com as referências locais do mesmo modo que o novo local de trabalho mina a memória interiorizada, compartilhada pelos trabalhadores.

Richard Sennett é Professor de sociologia na London School of Economics. Fragmentos de artigo publicado no Le Monde Diplomatique de 11/09/2001.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mitos e verdades sobre bolos

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Nelson Pantano

É muito engraçado como as pessoas acreditam que, para serem bonitos, os bolos de casamento têm que ser falsos, feitos de isopor. Os noivos devem saber que, ao escolherem um fake, vão fazer uma encenação e que todos os convidados vão saber que a peça é de mentira. É uma enganação que não engana mais ninguém, e vamos ser sinceros, fingir que corta o bolo é muito brega.

Assim como tudo o que se torna tendência, os bolos falsos não foram feitos para a finalidade que são usados hoje. A confeitaria artística, também conhecida como cake design ou sugarcraft, teve seu berço na Inglaterra e foi de lá que surgiram os primeiros livros sobre o tema. Para mostrar na prática como se confeitava, optava-se por usar bases de madeira cobertas com pasta americana ou glacê real para fazer bolos Fakes, que ficavam bem pesados! Dessa maneira, era possível evitar o grande desperdício que seria fazer vários bolos verdadeiros. Imagem só, um bolo de cinco andares serve até 500 pessoas. Já pensou se a cada sessão de fotos tivessem que fazer um desses? Seria impossível!

Quando a arte da confeitaria artística chegou ao Brasil, os profissionais da área faziam bolos secos e firmes porque faltavam técnicas apuradas e ingredientes de qualidade. Daí surgiu a ideia de que “bolo com pasta americana é ruim”, como é muito comum ouvir, porque, ao provar um pedaço, era fácil perceber que sabor e beleza não andavam lado a lado nesses casos. Mas a verdade é que, hoje, isso é mito. Levou algum tempo, mas os confeiteiros adaptaram sua arte ao sabor que agrada o paladar dos brasileiros.

Bolos decorados com pasta americana podem ser ruins assim como outro que é confeitado com qualquer tipo de glacê, por exemplo. Aliás, tudo na gastronomia pode ser bom ou ruim, isso vai depender da qualidade dos ingredientes utilizados e da competência de quem executa o prato. Se um bolo artístico for feito por um profissional qualificado, certamente será muito bom. Com técnicas mais apuradas e produtos cada vez mais específicos para a atividade, é possível ter massas macias e úmidas, recheios deliciosos e, claro, beleza e sofisticação.

O que tenho observado ultimamente (e agradecido muito), é que as noivas têm pedido bolos verdadeiros para surpreender seus convidados. Como os fakes tornaram-se presença recorrente nas festas, ao verem uma peça revestida com pasta americana, é comum pensarem que é falsa. Por isso, quando recebem uma fatia do mesmo bolo que está exposto na mesa, a reação é muito bacana. Ótimo! Afinal, é assim que manda a tradição. Sem dizer que dá ares de romantismo, que é essencial em qualquer casamento.

Nelson Pantano é cake designer da The King Cake - www.thekingcake.com.br

terça-feira, 25 de outubro de 2011

PT ganha com desmoralização da base aliada

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Cesar Maia

Desde a eleição de 1989, fala-se que o PT teria organizado internamente um serviço especializado em informação e contrainformação. Muitas vezes funcionou. Outras vezes, como no caso dos "aloprados", naufragou. Nas CPIs de Collor e dos Anões do Orçamento, e no caso do Dossiê Cayman (alertando ser falso), etc., se dizia que o serviço de informação do PT funcionou com seus links de militantes nas áreas de investigação federal, PF, MP... A mensagem divulgada na intranet da Abin, em 2005, durante a CPI dos Correios, onde seu diretor chamava os parlamentares de "bestas-feras no picadeiro", e que culminou com o seu afastamento, insinuava uma ação de contrainformação naquele momento, desde dentro do órgão.

O mensalão de 2005 tirou da direção do PT o "grupo" dito revolucionário e, em função disso, os ex-dirigentes da CUT assumiram o partido de lá para cá. A autoridade de Lula passou a valer para dentro do partido e, em seguida, legitimada com sua popularidade, para fora. O "grupo" se acomodou e se encolheu. A escolha de Dilma, por Lula, fora da máquina partidária, e a montagem de uma base de apoio que vai da direita da direita, à esquerda da esquerda, empurrou o governo para o Centro-Difuso, isolando o "grupo".

Claro que essa situação não agrada aos "revolucionários". Apesar do PT ser amplamente favorecido na montagem do governo, administrações direta e indireta, empresas, bancos e fundos, a correlação de forças no parlamento não o favorece. São apenas 16,5% dos deputados federais. As votações do Código Florestal e da Emenda 29 (Saúde) mostraram isso.

Como não há como aumentar a bancada do PT, o caminho trilhado foi debilitar relativamente os aliados, inventando um partido e desintegrando, inclusive, aqueles que não tinham e não têm a confiança do "grupo", como Palocci. A cada ministro -aliado- levado a pique, se via que as ações anteriores (algumas delas identificadas e divulgadas) iam criando o ambiente para o tiro de misericórdia.

O que se garante nos restaurantes e corredores em Brasília é que os vazamentos de personagens e fatos caem no colo da imprensa vindos diretamente do "grupo", desde dentro do governo. Claro que é mais fácil atacar com fatos reais que com suposições. Independente disso e de qual bola é a da vez, vai se debilitando a "base aliada" e, com isso, transformando os ministérios dos aliados em uma burocracia sem expressão. Alguns são mortos-vivos esperando a reforma ministerial.

Os ministros -que ficam- perdem o poder que tinham, de decidir, e de nada adianta terem portas abertas aos deputados. Os parlamentares da "base aliada" não têm mais canal com os ministérios de seus partidos e têm que ir buscar no PT -dentro do governo ou no Congresso- a autorização ou a aprovação de que precisam.

Os 16,5% quantitativos passam a ser o dobro, qualitativos. Os ministérios da base aliada, na substituição dos desviantes ex-ministros, perdem expressão. E o ministério passa a ser de ministros de primeira do PT e de segunda dos demais. Basta acompanhar a agenda da Presidente e ver a frequência de despachos com uns e outros.

A cada dia fica mais claro que todo esse desmonte interessa ao PT. Poder-se-ia dizer que há razão para esse desmonte. É verdade. Mas essas razões são as mesmas dos últimos anos e com os mesmos personagens. Só que a presença de Lula inibia a ação do "grupo", pois se atingisse a imagem de Lula, o castelo de cartas desmancharia e o PT iria junto. Agora não há esse risco e, com isso, toda ousadia é válida.

Cesar Maia, Economista, foi Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Tabela da Copa do Mundo de 2014 – O caos logístico continua

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marcos Bueno

Semana passada o comitê organizador da copa do mundo de 2014 no Brasil divulgou as datas e locais dos jogos da Copa. Como era de se esperar, prevaleceu o aspecto político ou de outros interesses em detrimento de uma logística mais adequada aos torcedores e equipes.

A imprensa em geral já apresentou diversas críticas e elencou um universo de falhas na grade de jogos. Só para se ter uma idéia, uma das equipes que cair no Grupo B jogará em Salvador no dia 13/06/2014, em Porto Alegre dia 18/06/2014 e São Paulo em 23/06/2014. Se essa equipe for 1º colocada no grupo, teria que jogar dia 29/06/2014 em Fortaleza.

O cabeça de chave do Grupo E começará a Copa em Brasília, em 15 de junho, depois viajará mil quilômetros até Salvador, onde jogará na sexta-feira seguinte, e concluirá o percurso em Manaus, a 2,6 mil quilômetros de distância.

O Cabeça de chave do grupo D jogará dia 14/06/2014 em Fortaleza. No dia 19/06/2014 vai até São Paulo e dia 24/06/2014 encerrará a primeira fase em Natal. Neste caso teremos o recorde de distância percorrida na Copa logo na primeira fase, perfazendo um total de 6074 quilômetros percorridos.

Além do tempo de viagem, as delegações enfrentarão mudanças de clima, devido à baixa umidade de Brasília na época. Salvador deverá ter temperaturas agradáveis e Manaus deverá apresentar temperaturas mais altas, além de umidade elevada. Também haverá mudanças de fuso horário, já que as capitais do Amazonas e do Mato Grosso tem nos relógios uma hora a menos que nas outras sedes.

Mas o problema não para por aí. Se o comitê (ou seria a CBF mesmo?) organizou (?) desta forma pensando em atender interesses políticos, pode por sua vez prejudicar toda a rede hoteleira, além de deixar à mostra os sérios problemas logísticos de deslocamentos de delegações e torcedores.

Se o espaço de tempo entre um jogo e outro na primeira fase é de 5 dias, isto significa que um grupo de torcedores (que pode ser em torno de até 30000 pessoas, como é o caso mais provável da seleção alemã ou inglesa), jornalistas daqueles países e delegações ficarão apenas alguns dias em uma cidade e em seguida devem ter todo um agendamento de deslocamentos e reservas em hotéis em uma outra cidade, que no caso do grupo D pode ser de mais de 1000 quilômetros de distância.

Isso significa que toda uma rede hoteleira local receberá milhares de torcedores, jornalistas e esportistas que não ficarão naquela região por muito tempo. Ou seja, não há uma consistência no plano de jogos que beneficie uma rede hoteleira. Haverá toda uma complexidade (complexidade é sinônimo de custos e aborrecimentos) nos agendamentos de hotéis e transportes. Vale lembrar que os grandes e constantes deslocamentos colocarão em risco a já criticada estrutura aeroportuária e rodoviária.

Em nenhum momento vemos bom senso neste calendário, erro este já esperado pelos constantes problemas que apresentei nos artigos anteriores neste blog.

Se o comitê utiliza-se de bom senso, teríamos jogos do mesmo grupo agendados para um conjunto de dois estádios próximos um do outro. Por exemplo, poderiam agendar jogos de um grupo em Porto Alegre e Curitiba, cidades cuja distância é de 711 quilômetros. Se fizermos uma combinação de Curitiba e São Paulo, a distância é de apenas 410 quilômetros, não muito diferente dos 430 quilômetros que distam São Paulo do Rio de Janeiro.

Mesmo no nordeste, temos combinações de curtas distâncias, como Natal, que está a apenas 300 quilômetros de Recife. Ou Fortaleza e Natal, cuja distância é 537 quilômetros. Essas combinações de menores distâncias reduziriam a complexidade dos deslocamentos e dos agendamentos em hotéis, reduzindo os entra e sai de hóspedes torcedores aos quais estaremos sujeitos com a grade que elaboraram.

Outra falha foi em designar o Centro de Imprensa no Rio de Janeiro, sendo que o jogo de abertura, que apresenta a maior demanda de jornalistas e delegações, será em São Paulo. Muitas emissoras deverão instalar-se no centro de imprensa no Rio de Janeiro, mas serão dependentes de algum site ou quartel general de mídia a ser montado em São Paulo, pois normalmente o jogo de abertura demanda mais de 20000 jornalistas e profissionais de comunicação em geral, além das demais delegações participantes. Vale ressaltar que a capacidade hoteleira do Rio de Janeiro é de 29000 leitos.

Até lá, só nos resta rezarmos para que o Brasil monte uma equipe competitiva e se prepare para o possível caos.

Releia o artigo, de maio de 2011: Já temos capacidade, infra e logística para a Copa do Mundo? http://www.fiquealerta.net/2011/05/ja-temos-capacidade-infra-e-logistica.html

Marcos José Corrêa Bueno, formado em Economia e mestre em Engenharia de Produção e especialista em Logística, é Professor universitário.

domingo, 23 de outubro de 2011

Carta Aberta de Wanessa Camargo a Rafinha Bastos

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Wanessa Camargo

Diante de um silêncio engasgado e em risco de sufoco, me coloco, aqui e agora, fora dessa condição.

Quero falar, não porque estão me cobrando essa palavra, não para dividir lados e opiniões e nem para ganhar defensores. Apenas quero tornar pública a minha verdade, já que se trata da minha vida e da vida do meu filho, que nascerá em poucas semanas, e também para defender a mim e a minha família de falsas acusações.

Mesmo sendo de conhecimento geral o começo de toda essa história, gostaria de voltar à ela.

Em uma segunda-feira, voltando de um trabalho para casa, alguém próximo me informou o que tinha acontecido. Chegando em casa, entrei na internet e vi o vídeo que mostrava o humorista Rafael Bastos falando sobre mim e, infelizmente, também do meu filho. Confesso que tive de rever umas três vezes para ter certeza do que estava vendo e ouvindo.

Não tive reação, só pensava em uma coisa: “calma, ele vai ´consertar´ a frase, dizer que se enganou, falou errado e pedir desculpas”. Mas isso, como todos sabem, não ocorreu dentro do programa naquela noite e nem mesmo naquela semana, seja na imprensa ou nas redes sociais.

No dia seguinte, toda mídia comentava o acontecido. Nos próximos dias, não havia uma pessoa que me encontrasse que não comentasse o assunto.

Confesso que o que era insuportável ficou pior ainda, pois, como se diz na linguagem comum: “vi e ouvi o nome do meu filho na roda” e a única pessoa capaz de estancar essa história, não o fez!

A cada dia que se somava de silêncio do outro lado, mais indignada e machucada me sentia. O assunto também indignou o público e eu não tenho nenhuma culpa disso. Já que a escolha de dizer o que queria em um programa ao vivo e em rede nacional, assistido por muitos, não foi minha.

Essa história foi tomando proporções maiores com cada atitude que o próprio humorista tinha. Aqui do meu lado, nada se ouviu sobre o assunto pois, inocentemente, ainda acreditava em alguma atitude de arrependimento.

A gota d’água, para mim, foi assistir a um vídeo produzido e postado pelo humorista onde ele, em uma churrascaria, ironiza toda essa história.

Em quase 11 anos como cantora já me senti e fui ofendida, já me julgaram de diversas maneiras, mas foi uma escolha minha quando resolvi seguir essa carreira e dar “a cara a bater”, porém, desta vez foi diferente. Rafael Bastos ofendeu, agrediu verbalmente, ironizou e polemizou com o meu filho.

E qual mãe no mundo não defenderia, até com sua própria vida, o seu filho?

Estou apenas desempenhando o maior papel que a vida me deu: ser mãe. Para defendê-lo, vi na Justiça de nosso democrático país, o melhor caminho. Por isso, entrei com um processo criminal de injúria que, segundo nossa Constituição e Código Penal, artigo 140 se aplica perfeitamente ao ocorrido, já que o crime de injúria consiste em ofender verbalmente a dignidade ou o decoro de alguém, ofendendo a moral, abatendo o ânimo da vítima.

Quando a notícia desse processo chegou ao conhecimento público, todos se apegaram a parte mais sensacionalista do caso, já que no artigo 140 a pena descrita para esse crime é de detenção de 1 a 6 meses. Esqueceram de dizer que a pena também se aplica com multa que pode ter um valor simbólico com doação de cestas básicas ou chegar a qualquer valor estipulado por um Juiz. E qual será o valor estipulado a ele se tivermos ganho de causa, não cabe a mim ou minha família decidirmos, isso cabe a Justiça.

Sinceramente, não estou interessada em dinheiro nenhum, muito menos que ele seja encarcerado em prisão alguma. Apenas desejo que esse processo faça o humorista repensar sua forma ofensiva de falar, disfarçada erroneamente em liberdade de expressão. Desejo a ele o arrependimento e que compreenda o ferimento que causou.

Gostaria de esclarecer, também, que eu e minha família não temos relação alguma com qualquer afastamento ou retorno envolvendo o humorista. Seria até pretensioso pensar que temos esse poder, já que a Band é uma empresa privada com seus donos, dirigentes e empregados e essa, sendo assim, se torna a única responsável por suas decisões. Qualquer notícia envolvendo esse poder fictício e covarde é falsa e mentirosa.

Muitas pessoas enviaram mensagens me pedindo para perdoar, mas só se perdoa quem pede desculpas e está arrependido. Eu não tive essa opção.

Essa é minha verdade e também a primeira e última vez que falarei publicamente sobre esse assunto. Tudo o que tinha para dizer eu disse aqui. Não sei se todos compreenderam minhas razões lendo este texto, mas peço, encarecidamente, pelo respeito ao meu silêncio de agora em diante.

Estou em um momento muito especial e sensível da minha vida e preciso de um pouco de paz, para receber meu filho com toda serenidade possível.

Obrigado pela atenção e espaço.

Wanessa Godoi Camargo Buaiz é Cantora.

sábado, 22 de outubro de 2011

Repensando os conceitos de audiência

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Cesar Maia

Ao longo dos últimos 70 anos os meios de comunicação de massa se consolidaram e fecharam um círculo para a formação da cultura de massa, mas vêm perdendo força com o advento das redes sociais da internet. Sob essa ótica, o investigador de ciências da comunicação da Universidade de Buenos Aires e de estudos culturais no Instituto Gino Germani, Mario Carlón, deu uma palestra em Goiânia. A ideia central da conferência apresentada é o fim de uma etapa, de um período, onde esses meios surgiram, se consolidaram e se tornaram hegemônicos, criando a convergência dos meios de comunicação.

“Agora outros meios entram na disputa e dão novo significado aos meios de comunicação. Há uma conversão dos meios tradicionais com novas ferramentas de comunicação”, explica Carlón. Dessa forma, os meios de massa passaram a trabalhar com uma nova dinâmica intensificada pela imediatização das notícias e pelo poder dado à sociedade, através das redes sociais, que deixa de ser apenas passiva e passa a interagir com as informações e até mesmo de criá-las.

Carlón ressalta que é extremo dizer que o público deixará de assistir à programação de TV, de ler jornais e revistas ou de ir ao cinema, focando apenas nas redes. Ao contrário, esse público passa discutir a notícia, criar suas opiniões com seus próprios conteúdos, fazendo com que os próprios meios de massa tenham que retomar a notícia. “Essa interatividade já tem levado emissoras de TV, rádio e cinema a repensar os conceitos de audiência”, pontua.

A legitimidade dos conteúdos difundidos pelas redes sociais é um dos riscos dessa interatividade. Torna-se ainda mais necessária a checagem da veracidade das informações. “O conhecimento e a informação se chocam. Assim, temos mais poder de opinar e ter informações mais ricas, porque não serão apenas a informações dos meios de massa”, completa ele. O investigador finaliza dizendo que as atuais mudanças promovidas por ferramentas de relacionamento como Facebook, Twitter, Skype e YouTube farão com que esse século fique na história e seja decisivo para as mídias de massa.

Cesar Maia, Economista, foi Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro. Mario Carlón é Investigador de ciências da comunicação da Universidade de Buenos Aires e de estudos culturais no Instituto Gino Germani. Reflexões publicadas em O Hoje, em 25 de setembro de 2011.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A internet não é meio de comunicação

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Eugênio Bucci

No início do mês (dia 3 de outubro) a Suprema Corte, nos Estados Unidos, decidiu que baixar uma música da internet não equivale a exibir essa mesma música em público. Portanto, ao copiar o arquivo de uma canção no seu computador, o consumidor não deve ser tratado como alguém que toca essa mesma canção para uma grande audiência, no rádio ou num show.

Ora, dirá o leitor, nada mais óbvio. Baixar uma faixa de CD é mais ou menos como copiar no gravador de casa uma canção que a gente sintoniza na FM. Trata-se de um ato doméstico, que não se confunde com executar uma obra musical para uma plateia de 5 mil espectadores. No entanto, até hoje, o pensamento oficial sobre a internet - em especial o pensamento das Cortes de Justiça - carrega uma tendência de equipará-la aos meios de comunicação de massa. Um erro grosseiro e desastroso.

Além de obtusa, essa visão traz consequências perversas, como a que levou parlamentares brasileiros, há coisa de dois anos, a tentarem aprovar uma lei que impedia os cidadãos de manifestarem suas opiniões sobre as eleições em sites e blogs durante o período eleitoral, como se a rede mundial de computadores fosse da mesma família que as redes de televisão e de rádio, que funcionam sob concessão pública.

O furor censório dos parlamentares acabou não vingando, para alívio da Nação, mas o conceito equivocado em que ele plantou seu alicerce continua aí. Por isso a recente decisão da Suprema Corte, negando as pretensões econômicas e intimidatórias da American Society of Composers, Authors and Publishers (Ascap), interessa especialmente a nós, brasileiros. Ela constitui um argumento a mais para que expliquemos aos retardatários (autoritários) que nem tudo o que vai pela internet é comunicação de massa. Aliás, quase nada na internet é comunicação de massa. Para as relações políticas e jurídicas entre os seres humanos essa distinção elementar faz uma diferença gigantesca.

A internet não é televisão, não é rádio, não é jornal, nem revista, assim como não é correio ou telefone. Ela contém tudo isso ao mesmo tempo - mas contém muito mais que isso. Existem canais de TV e de rádio na internet, é bem verdade. Os jornais estão quase todos online, bem como as revistas, sem falar no correio eletrônico: as pessoas trocam mensagens, como trocavam cartas. O Skype e outros programas vieram para baratear e melhorar os velhos telefonemas, com a vantagem de mostrar aos interlocutores a cara um do outro. Logo, dirá a autoridade pública, a rede mundial de computadores internet é uma Torre de Babel em que todos os meios de comunicação se encontram e se confundem, certo?

Errado. A humanidade comunica-se pela internet - só no Brasil já são quase 80 milhões de usuários -, mas isso não significa que ela seja, como gostam de dizer, uma "mídia" que promove a convergência de todas as outras "mídias". Ela é capaz de fornecer ferramentas para que um conteúdo atinja grandes audiências de um só golpe, ao vivo, assim como permite que duas pessoas falem entre si, reservadamente. Acima disso, porém, ela abre outras portas, muitas outras. Pensá-la simplesmente pelo paradigma da comunicação é estreitá-la, amofiná-la - e, principalmente, ameaçar a liberdade que ela encerra.

A internet também é comércio: os consumidores fazem compras virtualmente - mas isso não nos autoriza a dizer que ela possa ser regulada como se fosse um shopping center. Vendem-se passagens aéreas e pacotes turísticos pela rede, mas ela não cabe na definição de agência de viagens. Correntistas acessam suas contas bancárias e pagam contas sem sair de casa, mas a internet não é banco, e, embora quitemos nossos impostos pelo computador, ninguém há de afirmar que a web é uma extensão da Receita Federal.

Ela é tão ampla como são amplas as atividades humanas: aceita declarações de amor, assim como aceita lances ousados da especulação imobiliária. Nela a vida social alcança plenamente outro nível, que não é físico, mas é real, tão real que afeta diretamente o mundo físico, sendo capaz de transformá-lo. Mais que meio de comunicação, a internet é, antes, a sociedade num segundo grau de abstração. Se quiserem comparações, ela tem mais semelhança com a rede de energia elétrica do que com um aparelho de TV ou com o alto-falante na praça do coreto.

Para efeitos da regulamentação e da regulação, a internet não cabe num regime. Ela é capaz de abrigar tantos regimes quanto a própria vida em sociedade - e, assim como a vida em sociedade, é maior que o direito positivo. Ela, sim, pode conter e processar decisões judiciais e trâmites processuais, mas estes não podem contê-la, explicá-la ou discipliná-la por inteiro. Pretender controlá-la, taxá-la, pretender instalar pedágios em cada nó seria equivalente a começarmos a cobrar direitos autorais de quem empresta um livro de papel à namorada, ou, pior ainda, seria como sujeitar as conversas de botequim à legislação do horário eleitoral na televisão e no rádio.

A rede de computadores trouxe uma expansão sem precedentes a uma categoria que, nos estudos de sociologia e de comunicação, ganhou o nome de "mundo da vida". Trata-se de um conceito contíguo a outro, mais conhecido, o de "esfera pública". Nesta se encontram os temas de interesse geral dos cidadãos. No "mundo da vida" moram as práticas sociais mais arraigadas, a rotina mais prosaica, os nossos modos de amar, de velar os mortos ou, se quiserem, de conversar no botequim. Não por acaso, daí, desse mundo da vida, é que brota a esfera pública democrática; a própria imprensa nasceu dos saraus e das tabernas, quando aí se começou a criticar o poder.

Por isso, enfim, as formas de livre expressão na internet precisam estar a salvo do poder do Estado e da voracidade dos grupos econômicos. Por isso a decisão da Suprema Corte é bem-vinda.

Eugênio Bucci, jornalista, é professor da ECA-USP e da ESPM. Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo de 20 de outubro de 2011.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O mercado é a sociedade

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por José Ricardo Roriz Coelho

O relatório sobre a economia mundial recentemente divulgado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), no qual cai para 3,8% a projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2011, mostra claramente quão correta foi a diminuição da taxabásica de juros decidida na última reunião do Copom, e evidencia a importância das mudanças que se observam na política macroeconômica do governo.

A presidente Dilma Rousseff, ao anunciar o PlanoBrasil Maior, apesar deste estar muito longe de restabelecer uma competitividade mínima para se produzir no País, deixou claro ser necessário estimular a produção, conter a desindustrialização e priorizar o crescimento econômico. Tudo isso, sem deixar de manter a inflação dentro de parâmetros adequados, de modo congruente com as atribuições indiscutíveis do Banco Central.

Embora o raciocínio seja correto, considerando que o Brasil deu-se bem no contexto da crise mundial ao estimular o consumo interno e adotar medidas emergenciais de fomento e levando em conta o presente quadro de incertezas nos Estados Unidos e Europa, o novo olhar do governo e das autoridades monetárias para os setores produtivos gera reações adversas. As mais incisivas, às vezes corroboradas por consultores e economistas voltados às análises de conjuntura macroeconômica, vêm do setor financeiro, que insistentemente parece querer comandar as tendências das políticas públicas relativas à economia.

Obviamente, esse segmento é de extrema importância e não se pode negar-lhe o mérito da boa gestão no Brasil, da solidez e da responsabilidade de nossos principais bancos, que foram fatores importantes para que, em 2008 e 2009, ficássemos menos suscetíveis à crise internacional. No entanto, tais virtudes não significampredominância sobre os demais setores e tampouco acima dos interesses maiores do País, que deve priorizar a produção, a criação de empregos em larga escala, a geração de renda por meio dos investimentos produtivos e do trabalho e sua distribuição mais justa, através dos salários.

O setor financeiro não é o Brasil, mas sim integrante de toda uma economia complexa, na qual não podem ser preteridos os que geram produtos, bens e serviços mensuráveis pelo valor agregado, investimentos, mão de obra ocupada, renda e tecnologia empregada e atendem às demandas do mercado interno e exportações.

Também é importante lembrar que o investimento em produção, hoje, é condição fundamental para evitar o crescimento da inflação amanhã. O mercado, a rigor, somos todos nós; é a sociedade, que sofre com a precariedade do ensino e da saúde, as agruras da insegurança pública e as incertezas sobre o futuro imediato, nummundo volátil e marcado por crises intermitentes.

Apesar desse contexto desafiador, estamos diante de grande oportunidade para remover alguns entraves a um novo salto de progresso socioeconômico nos próximos anos. Temos boas condições para aprofundar o fortalecimento do mercado interno, no qual ingressaram 53 milhões de pessoas desde 2003 (estudo “O emergente dosemergentes” - Fundação Getúlio Vargas/BID).

Uma questão menos debatida, mas igualmente importante, é como será atendida a demanda criada pela manutenção dessa tendência de crescimento da renda da população. É primordial o fortalecimento da indústria, de modo a evitar uma excessiva dependência externa, e, principalmente, gerar, pelos efeitos diretos e indiretos que o setor possui em toda a economia, o necessário aumento no emprego dos milhões de brasileiros que ingressarão no mercado de trabalho nas próximas décadas.

O Brasil detém diversos atributos dificilmente imitáveis, dentre eles a maior área agricultável do Planeta para a produção de alimentos e biocombustíveis de fonte limpa e renovável, uma riquíssima dotação de matérias-primas básicas essenciais ao funcionamento da economia mundial, e matriz energética na qual predomina a hidroeletricidade, a melhor resposta para os desafios da sustentabilidade. Todavia, todas essas vantagens comparativas não têm se traduzido em diferenciais competitivos, o que resulta em um ritmo de desenvolvimento econômico muito mais lento do que o dos países com os quais o Brasil concorre no mercado internacional e ainda insuficiente para as necessidades da sua população em termos de criação de emprego e renda.

Portanto, não temos de continuar patinando nos juros altos, que, no âmbito da economia de mercado, favorece um único setor, o financeiro, em detrimento da sociedade como um todo. Torna-se urgente aumentar a eficiência do Estado e solucionar, sem mais demora, a questão tributária, realizando a todo custo as mudanças que esperamos há mais de duas décadas, desde a promulgação da Constituição de 1988. Outras medidas prementes são reduzir a burocracia e acabar com o gargalo da infraestrutura, que também onera a produção.

O Palácio do Planalto tem sinalizado no sentido de que percebeu tais prioridades e que, paulatinamente, volta-se a seu atendimento. É hora de estimularmos essa concepção de atuação do Estado, mais focada no desenvolvimento econômico, em lugar de uma visão exclusivamente de curto prazo. Não há mais como postergar a solução dos problemas crônicos da economia real. É hora de perguntar sobre qual futuro queremos ter: eterno emergente ou nação do primeiro mundo?

José Ricardo Roriz Coelho é presidente da Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast) e da Vitopel e diretor titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia da FIESP.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Belezas invisíveis

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por João Bosco Leal

Os que trabalham ou conviveram na área rural certamente já ouviram relatos de bovinos que sumiram e só são encontrados já mortos, dentro de buracos, quando se vê os urubus sobrevoando o local. Presenciei, anos atrás, um trator que preparando terras para o plantio, literalmente afundou ao passar sobre um formigueiro abandonado, o que não ocorre, por maior que seja a máquina, enquanto o formigueiro é habitado.

Quantas vezes passamos sobre um formigueiro, sem imaginar que matando as formigas nele existentes, este poderia afundar e comprometer a estrutura da casa construída ao seu lado ou sobre ele, ou até mesmo antes que existisse?

Vivemos sem notar milhões de detalhes da natureza como os formigueiros, ou mesmo a organização destes e das colméias, que nos fornecem alimentos e remédios - mas também matam -, sem observar as flores e paisagens, o cuidado dos animais com suas crias, os movimentos delicados de um pássaro construindo seu ninho, a imediata brotação das sementes logo após as primeiras chuvas.

Nos mamíferos, o instinto materno faz com que, imediatamente após o parto, a mãe já lamba sua cria livrando-a dos restos da placenta e cortando seu cordão umbilical. As crias, por outro lado, mesmo as que não enxergam como os cães e gatos, por ainda não terem aberto seus olhos, já se arrastam, enquanto outros como os bezerros, já ficam de pé, mas todos logo saem em busca das tetas maternas para se alimentarem, diferente do ser humano, que após o nascimento não sobrevive sem ser alimentado e cuidado.

Milhares de questionamentos e observações antes consideradas insignificantes, bobagem ou perda de tempo, impensáveis para os mais jovens, normalmente só são realizados pelos mais velhos, experientes, com maturidade, quando dedicamos tempo para admirar a beleza de tantas diferenças.

Com fotografias tentamos 'arquivar' uma cena admirada em determinado local ou momento, mas as imagens mais belas sempre serão aquelas da natureza, inusitadas, que não possuem formas ou cores definidas, que não são ou jamais serão, iguais a nenhuma outra, como uma experiência inesquecível para quem a teve, de despertar com o som de pássaros livres, cantando, dando boas vindas ao sol.

Os detalhes do nascer ou por do sol no horizonte, com suas cores e sons totalmente distintos a cada dia, só são realmente admirados por aqueles que já não possuem mais pressa, que ficam encantados quando ouvem o canto de um sabiá-laranjeira perdido em uma rua da cidade do interior e podem se dedicar a observar e ouvi-lo.

São pessoas capazes de permanecer parados à margem de uma rodovia, aguardando um bando de Quatis que atravessam a pista e que procuram fotografá-los, para compartilhar aquele momento com os amigos. Para esses, a pressa já não é importante, pois em tudo que agora fazem, o que mais interessa é que seja bem feito.

Os que atingem esse estágio da vida já não passam pelos mais diversos locais sem nada perceber e, muitas vezes, interrompem o que faziam para poder observar o desabrochar de uma rosa ou os movimentos de uma plantação de girassóis.

Sabem que quando o sol está muito alto, os pássaros não voam ou cantam, os animais silenciam na mata, os peixes sequer buscam as iscas dos pescadores e, por isso, os de cabelos já brancos ancoram seus barcos sob a sombra de uma árvore, na margem do rio, para descansar no mais puro e profundo silêncio.

Só os mais maduros entendem que a observação é a única chave capaz de abrir a porta para as belezas invisíveis aos jovens.

João Bosco Leal é Produtor Rural www.joaoboscoleal.com.br

domingo, 16 de outubro de 2011

Tique-taque, tique-taque... E la nave va...

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marli Gonçalves

Mãos ao alto! Você está sendo roubado, mas o ladrão diz que é bonzinho e tem motivos. Vão nos roubar uma hora, e ela só será devolvida depois que o Carnaval chegar e passar. 60 minutos, 3600 segundos. Como se o nosso tempo, já incontrolável tempo, também estivesse nas mãos de quem detém o poder. Porque essa tão propalada economia não é visível tanto quanto é a mudança nas nossas cabeças?

Tic, Tac, Tique-taque, tic, tic, tic. Como tudo muda, mudam também os nossos relógios nesta vida e nos fazem pensar no inspirador tempo, cantado em versos e prosas demoradas. Só não muda o barulho infernal do relógio que não arrancamos do cérebro. Chegou de novo o horário de verão que acontece na primavera. Mas isso apenas nos torna mais lentos, instáveis, diferentes do sincronismo constante e do barulho irritante do tique-taque que nos leva um pouco de vida e viço diariamente. Pare. Ouça. Está lá: tiquetaque, tic-tac.

O tempo não para, mas o governo resolve ano após ano engatar a marcha-a-ré. O tempo só estanca para quem morre ou parte - e que muitas vezes leva junto o tempo de quem ficou contando minutos para ir também. Tudo tão relativo que deixa atônito quem se atreve a pensar sobre ele, limitado, diferente às vezes - dependendo de onde se está - e ao mesmo tempo tão igual dia após dia.

O rapaz vinha andando tranquilo. Talvez tivesse vivido um bom feriado. Teria ele ganho presente do dia das crianças? Que planos fazia a caminho do trabalho? Um segundo e o tempo dele acabou, quando voou aos ares junto com o restaurante que explodiu no Rio de Janeiro esta semana. Vi e sofri. Me arrependo porque a imagem ficou muito gravada pelos meus olhos. Acabei vendo ainda dezenas de outras vezes pela tevê aquela calçada arborizada, da rua tranquila na sua normalidade de mais um dia carioca.

O garoto vinha andando decidido para sentar na sua cadeirinha no banco onde trabalhava, camisa branca (terá sido passada cuidadosamente pela sua mãe naquela manhã?) quando voou e explodiu - dizem, pedaços dele e de tudo foram arremessados a mais de 50 metros de distância. Um segundo, dois, três? Quando visivelmente até as árvores se deslocaram pela explosão ele deve ter achado que era terremoto. Qual foi seu último pensamento, teve tempo?

Sempre me surpreendo com essas tragédias. Não que elas sejam exatamente previsíveis, embora às vezes nos pareça que caminhamos sobre um mundo todo prestes a explodir, sumir, e o que sempre pode acontecer dependendo da pífia fiscalização nas cidades ou da incapacidade de alerta geral vindo dos governos, no caso das grandes catástrofes.

Qual é esse tempo? É analógico? Digital? Elétrico ou a pilha? Aqui é um; lá é outro. No relógio que você usa pode ser menos, mais, automático. Agora mesmo a operadora Vivo resolveu que o tal horário de verão seria antes e o instalou automático nos celulares, adiantando, sem mais, uma hora, uma semana antes. Com ordem de quem? A quem recorrer pelo susto do acordar atrasado, sem estar atrasado, no domingo? A palpitação de achar que perdeu compromissos? Aconteceu, e quem tem Vivo passou. Reclamar para Deus, ou para quem se acha no direito de (re) estabelecer as horas?

Lembrei do tique e do taque compassado do velho despertador de corda e que no silêncio da noite amplia o som. Lembrei do rádio-despertador e seu som exclusivo, que nos abandonava a qualquer falta de luz. Lembrei até do infalível relógio solar, através dos tempos. Lembrei até do nosso próprio relógio, o biológico, a quem mais uma vez teremos de recorrer - pelo menos nós, os atingidos de alguns Estados brasileiros. Este ano incluíram os baianos que andarão acelerados uma hora, impulsionados até o carnaval passar. Daqui ouço as reclamações arretadas dos amigos de lá. Um deles, Fernando Coelho, jornalista e poeta, escreveu: "INOCENTEM O SOL. Minha amada Salvador não tem metrô. Mas tem horário de verão. Não tem o Elevador Lacerda digno. Mas tem o horário de verão. Não tem um transporte público decente. Mas o horário de verão é fundamental. A violência corrói as famílias, mas o horário de verão é diferente, coisa das autoridades", vai falando, para no fim quase implorar: "E não culpem o Sol por isso".

Ele tem razão. Não culpem o Sol. E não culpem a luz. Cientistas estudam esse mecanismo pouco suíço que trazemos em nós, e que se modifica quando afetado. Dizem que até nossos cabelos, a sua barba talvez, mostram bem o que nos acontece, e de acordo com as mudanças externas acusam que entramos em jet lag, e que até os cegos podem sentir - aquela sensação de cair no vácuo. Neste mundo de malucos há estudos, não comprovados, até sobre o nosso relógio biológico poder ser adiantado ou atrasado quando se ilumina com uma lanterninha a pele macia da parte de trás dos nossos joelhos!

Mais estranho, mas pelo menos mais divertido e melhor do que quando mudamos porque os governos querem que seja assim. Eu, hein?!?

São Paulo, vambora, vambora, tá na hora, na hora. 2011

Marli Gonçalves é jornalista. Sabe que tem quem gosta. Sabe que tem quem aproveita. Um dia também gostou, mas sempre pensa no tempo e ele faz tic-tac, tic-tac com a Terra girando normal, natural, protestando contra mudanças por decretos.

sábado, 15 de outubro de 2011

O educador de hoje é quem prepara o amanhã

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Vivian Manso

Dia 15 de outubro. Trata-se de um dia muito especial, pois é quando se homenageia os professores brasileiros. Aqui se comemora o dia do professor na mesma data em que Dom Pedro I baixou um Decreto Imperial que criou o Ensino Elementar no Brasil: o dia consagrado à educadora Santa Tereza D’Ávila.

O modelo tradicional de escola, com lousa e anotações como principais ferramentas de ensino, usadas desde muito antes do decreto do imperador, persiste em todo o Brasil. É claro que, como tudo, o ato de lecionar também vem se modernizando ao longo dos séculos e hoje é quase impossível dissociar o aprendizado das novas tecnologias como a internet, que oferece o acesso global à informação.

Por isso, a a inclusão digital dos professores é mais do que uma tendência, é uma necessidade para garantir que o profissional esteja ´up to date` com a própria evolução do mundo. Além, disso, com a nova geração de acessórios para o apoio ao ensino, é fundamental que os educadores estejam preparados para absorver e gerenciar os recursos disponíveis para tornar as aulas muito mais eficientes e dinâmicas.

Segundo declarações da assessora especial do Ministério da Educação, Linda Goulart, o Brasil quer chegar a 2022 com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) igual ao de países desenvolvidos, com o analfabetismo erradicado e oportunidade para todos. Então por que não lançar mão de ferramentas que vão facilitar o alcance desses objetivos?

E é para ajudar o País nessa empreitada de melhorar a cada dia a qualidade do ensino que, nesse Dia do Professor, vale propor uma reflexão sobre a importância de qualificar cada vez mais os educadores que preparam nossas crianças e muitos adultos para construir o futuro que desejamos.

Vivian Manso é especialista em Tecnologia Educacional e durante os últimos sete anos atuou ativamente na implantação de Soluções Colaborativas e Interativas em Instituições de Ensino Privadas e da Rede Pública. Atualmente, é Gerente Regional da Hitachi Solutions, coordenando projetos no segmento Educacional da empresa no Brasil. Além disso, mantém um blog em que discute a dinâmica das Lousas Interativas na Sala de Aula, bem como o uso de soluções complementares - http://lousasinterativasemuitomais.blogspot.com

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Os gênios e os comerciantes

Artigo no Fique Alerta – www.alertatotal.net
Por João Bosco Leal

A indústria mundial de computadores, antes só utilizados por governos, grandes empresas e universidades, era quase que totalmente dominada pela IBM, quando o gênio Steve Jobs iniciou a fabricação dos Personnal Computers, os PCs, que popularizados, passaram a ser usados nas mais diversas finalidades, mudando radicalmente a vida das pessoas ao redor do mundo e provocando mudanças que serão sentidas por décadas.

Surgiram então os fabricantes de softwares, que criavam os programas para facilitar a operação daqueles equipamentos, agora cada vez menores, sem a necessidade de ser um profissional da área, que faziam longos cursos para dominar o DOS, sistema operacional que se utilizava, cheio de fórmulas e regras.

As duas maiores e mundialmente mais conhecidas dessas empresas são a Apple, do próprio Jobs, criadora do sistema operacional Mac e a Microsoft, de outro gênio, Bill Gates, com o seu Windows. A grande diferença entre essas duas é que, enquanto a primeira só permitia o uso de seus softwares em equipamentos de sua fabricação, a outra disponibilizou a licença de uso de seu invento para qualquer um que pagasse por ela.

Como resultado dessas políticas comerciais, uma ficou restrita a determinadas especialidades e a outra dominou o mercado de tal modo que o sistema operacional praticamente nem é discutido pelo usuário na aquisição de um novo equipamento. Pesquisas atuais apontam que, o Mac detém 10% do mercado mundial de sistemas operacionais, contra 87% dos que utilizam o Windows. Na fabricação de computadores a Apple mantém os 10%, enquanto a HP e a Dell dominam 48% do mercado e o restante é pulverizado entre milhares de montadoras.

Todos discutem processadores, memória, HD, monitor e outros itens, mas quando se fala em sistema operacional discute-se apenas se é o modelo mais moderno, como o Seven, ou um anterior como o XP, mas sempre Windows, enquanto nos processadores, a discussão fica em utilizar os Pentium IV, os Dual Core, os Core 2 Duo, ou os da atual série i3, i5 e i7, mas todos fabricados pela Intel, líder incontestável desse mercado.

Na fabricação dos smartphones e dos tablets, com seus iPhones e iPads inventados por Jobs, a Apple está utilizando a mesma estratégia, pois apesar de dominar com larga vantagem esse mercado, está rapidamente sendo alcançada pela sul coreana Samsung, a segunda maior produtora mundial de processadores de informática que, nas comunicações, fabrica smartphones que utilizam o sistema operacional Android, da gigante Google.

Enquanto a Apple só fabrica aparelhos que utilizam seu próprio sistema operacional, o iOS - não cedido a outras empresas -, quase todas as outras fabricantes mundiais estão criando, fabricando e lançando novos produtos que utilizam o Android.

Por ser um programa muito mais completo, o Android ainda é mais difícil de ser manuseado pelo público que o sistema da Apple, mas mesmo assim, atualmente a empresa que lançou a maior invenção de Steve Jobs, domina somente 19% do mercado mundial de smartphones, enquanto os que utilizam o Android já dominam 58% deste.

Atualmente milhares de técnicos no mundo trabalham para facilitar sua utilização por todos e assim que isso se tornar possível, o programa aumentará ainda mais a já larga margem de vantagem nas vendas, deixando os aparelhos da Apple restritos a determinadas categorias, enquanto a Google dominará o mercado de sistemas operacionais de comunicação, como a Microsoft domina o de informática, por um fato bastante simples: pagando, todos estão autorizados a fabricar produtos com esses sistemas.

Os gênios das invenções normalmente não são bons comerciantes, pois compartilhando seus conhecimentos, permitiriam que milhares de pessoas, partindo de sua invenção, tivessem a oportunidade de aprender mais rapidamente, divulgando então suas idéias e produtos.

João Bosco Leal é Produtor Rural - www.joaoboscoleal.com.br

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A desgraçada vítima


Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Valmir Fonseca
Em São Paulo, e poderia ser em qualquer lugar deste imenso País, mais um assalto. De um lado dois, três, quatro... facínoras. Do outro, vários policiais. Na fuga, intenso tiroteio. Bala vai, bala vem, uma foi na cabeça de um inocente transeunte.

Eventual e fugazmente, o pobre diabo poderá ter um nome, porém será conhecido como a vítima. E como num palco, por desempenhar um papel de ínfima importância, desaparecerá por detrás das cortinas.

A polícia amiúde não se importa com o número de inocentes passantes, ela atira para acertar os bandidos. Como seus agentes não treinam, e são impunes, atiram por atirar, a esmo; deve ser para ouvir o estampido, pouco se importando a quem atingirão.

Na maioria das vezes, a quantia furtada é ridícula, e seria melhor seguir os assaltantes, até saírem de perto dos inocentes, e então, se possível, com segurança para a população, tentar prendê – los, até com a ameaça de disparos.

Mas aqui é a lei do cão. Se alguém morrer ou for ferido, seja pelos disparos dos criminosos ou dos policiais, ela será sempre a infeliz vítima.

Os ladrões ou assassinos, se presos, o destino seria a cadeia. Nem sempre, pois a facilidade de fuga é constante, sem contar as artimanhas jurídicas que podem arrastar o processo por anos e anos. E os criminosos, nem sejam julgados.

As prisões são fétidas, precárias, conforme clamam as inúmeras instancias de direitos humanos acoitadas no desgoverno, reverberando contra os maus tratos nas cadeias e nos presídios, fazendo um barulhento alarde para mostrar serviço. Mas, as despesas de manutenção das instalações existem, o quanto é desviado, ninguém sabe, mas deve ser uma baba.

Os boníssimos membros desta confraria do tudo pelo social são capazes de irem até as últimas consequências no seu desatino, e promovem os criminosos como os seus diletos órfãos, pois dá IBOPE, mas não movem uma palha para atender às vitimas, que, inexplicavelmente, em geral tem esposas, filhos, filhas, netos, pai, mãe, e assim por diante.

Ao invés de encherem a nossa paciência falando nos descalabros praticados contra os direitos humanos e, basicamente, eles se referem aos indivíduos presos, bastaria fazer pressão junto aos ministérios responsáveis para melhorar as condições de vida dos seus protegidos.

E todos se preocupam com os pobres presos, tanto que se pai, por cada filho receberá uma boa pensão durante a sua estada na prisão e, não importa se eles, como tantos outros apenados, quando em rebelião queimem celas, camas e colchões e depredem ao máximo.

Os presos terão comida e lazer. Lazer em demasia dizem os entendidos, pois na falta do que fazer se aperfeiçoam na bandidagem. Se comem mal é problema da gestão dos presídios e das penitenciarias, pois o gasto apresentado para a manutenção de cada é uma fabula.

Vez por outra, lá estão os grupelhos do desgoverno ou destas ONG preocupadas com a sobrevivência dos bandidos para a execução de suas inspeções periódicas.

Sim, com o destino e o estado dos presos, não faltam os apreensivos e os interessados. Sempre existe espaço na mídia para alertar que os pobres diabos estão padecendo.

E as vítimas? Bom, quem mandou serem vítimas?

Pois é, se nem as vítimas da subversão, imoladas em sacrifício no altar do terrorismo, que campeou no Brasil, de 1963 até 1980, receberam qualquer apoio; o que você espera de um desgoverno que chegou para inverter a moral e os bons costumes, para distribuir injustiças e premiar criminosos?

Esta é mais uma blasfêmia, bradam os governistas. Não importa, basta verificar o quanto de apoio moral e financeiro os subversivos e os terroristas já receberam.

E quanto às vítimas? É como dizem os espertos, “quem mandou estarem no lugar errado, na hora errada?”

Valmir Fonseca Azevedo Pereira, Presidente do Ternuma, é General de Brigada Reformado.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dia das Crianças: um Selo...um amigo... e o compromisso?

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Reginaldo de Souza Silva

Eu vim para que todos tenham vida e a tenham plenamente

Hoje fiquei sabendo que a cidade de Vitória da Conquista onde moro tá querendo receber alguns selos que são dados àquelas que cuidam bem de suas crianças. Eu não entendi muito bem o que isso significa, pois até agora eu só conhecia os selos que a gente compra para colocar nas cartas do correio, mas fiquei pensando nisso de cuidar bem das crianças e na minha vida.

Vivo com minha mãe e mais dois irmãos. O nosso pai sumiu desde que minha irmã nasceu. Eu não sou o mais velho e nem o mais novo também, tô no meio e acho que é por isso, por estar no meio, que eu tenho sempre que fazer as coisas dos dois lados. É assim, eu não sou grande o bastante para ir trabalhar na feira com minha mãe e meu irmão, mas já tenho idade para cuidar da minha irmã mais nova. No mês passado eu acabei de fazer oito anos.

Eu não acho a vida da gente muito fácil não, mas a gente se vira. Fome mesmo a gente não passa, mas nunca sobra dinheiro para comprar roupa, brinquedo ou remédio.

Minha mãe faz muita questão que a gente esteja na escola e que aprenda mais do que ela, que sabe assinar o nome e fazer as contas das vendas da feira e das cocadas que eu e meu irmão vendemos na escola. Ela diz que sonha ter um filho doutor ou quem sabe professor, mas que tenha muito estudo. Por isso tentou matricular a gente deste cedo nas creches, só que nunca encontrou vaga. Esses dias ouvi dizer que creche é um direito da criança, mas eu continuo tomando conta da minha irmã, como meu irmão tomou conta de mim, porque não aparece vaga na creche do bairro para ela. Eu sou muito cuidadoso com ela, mas acho que ela estaria mais segura, brincaria e aprenderia mais se tivesse na creche.

A gente fica na porta de casa o tempo quase todo. Faz falta não ter por perto umas praças prá gente brincar. Mas também, se tivesse a praça, será que seria igual a esse terrão batido que é a minha rua Ou será que teria árvores, bancos, grama verde e um escorregador Eu acho que praça tem que ser assim, não sei... eu nunca vi uma praça de verdade onde eu moro, só conheço pelo desenho do meu livro da escola que recebi ontem da diretora e uma que fica toda brilhando só no fim do ano. E o livro é tão bonito! Humm! E como o cheiro de papel novo é bom! Pena que o ano tá acabando e que eu ainda não consiga ler essas palavras tão bem escritas nele. A escrita ainda me confunde muito, mas eu tenho uma pena danada de ficar perguntando a professora, que tem que cuidar daquele tanto de menino que nem eu ao mesmo tempo. A sala é quente, não ventila e as vezes falta água. Na semana passada eu dei uma de ousado e disse a diretora que a professora tava precisando de ajuda com a gente. A diretora me olhou, deu um suspiro, me fez um cafuné gostoso e me mandou brincar. Sei não, mas acho que fiz ela ficar triste.

A gente não passeia muito não, mas um dia descobri pela televisão que havia um grande parque chamado de exposição. Fomos lá. Quando chegamos, descobrimos que tinha que pagar para entrar. Parecia pouco para uma pessoa, mas mãe, eu e meus irmãos o preço ficou alto, choramos, reclamamos e conseguimos entrar. Andamos muito lá dentro tudo muito bonito, muitas luzes, musica, vi muitas crianças brincando, comendo doces, pipocas e refrigerantes. Minha mãe sabia que também queríamos, mas entendemos pelo seu olhar que não tinha dinheiro. Combinamos, voltaríamos a pé e assim, poderíamos brincar, sentamos em um brinquedo e quando sorrimos acabou o tempo, três minutos, e lá se foi todo o dinheiro. Outro dia teve show de palhaço (que era falso), teve musica e peça no teatro, mas não dava para ir, pois era tudo pago também. Eu e meu irmão adoramos futebol, mas para entrar no estádio alguém tem que pagar e aí a gente tem vergonha de ficar pedindo. E se mãe sabe que a gente pediu...

Ah! Mas vai ter festa no dia da criança na escola, a professora disse que elas vão fazer. Que as professoras do ciclo 1 vão ficar responsáveis pela pipoca e refrigerante e as do ciclo 2 pelas balas e lembrancinhas. Eu acho que são elas quem pagam por isso também. Não sei porque isso me deixa meio triste apesar da alegria da festa.

Um dia a professora perguntou prá gente o que queríamos ser quando crescesse. Lito disse logo que queria ser policia, assim ninguém iria bater mais nele. Tonho disse que queria ser médico para ter um carrão. Outro disse que ia ser pastor, pois Deus sempre dá algo para eles viverem. Eu disse que ia ser professor, mas fiquei depois reparando na professora: vai e volta a pé da escola pra casa, não consegue ter roupa nova... ela disse que ama o que faz, mas o salário tá tão ruim, na escola falta de tudo e os adultos parecem que não respeitam sua profissão, vi ela lutando com as outras “pró” para serem ouvidas pelo prefeito. Sei não, acho que ser político. Esses sim parecem ter vida danada de boa.

Mas será que o prefeito anda pela cidade? Será que ele vê as crianças pedindo esmolas na rua, usando drogas, fazendo biscates, dormindo na rua e até botando fogo em espaços da polícia? Será que ele sabe que tem muito menino por aí sendo assassinado, explorado, passando de ano na escola sem saber quase nada? Se eu for político acho que eu vou querer saber de tudo o que acontece na minha cidade para poder fazer a coisa certa.

Pois eu acho que para cuidar bem mesmo das crianças da cidade tem que saber, tem que se preocupar. Tem que gastar dinheiro construindo em todos os bairros espaços para estudar, para brincar, para se alimentar, para cuidar e educar todas as crianças e os adolescentes. Tem que valorizar onde moram as crianças! Uma cidade que faz isso deve merecer mesmo um selo por cuidar bem de suas crianças. Mas pensando na minha vida, eu acho que a minha cidade ainda não é assim... FELIZ DIA DAS CRIANÇAS!

Reginaldo de Souza Silva – Doutor em Educação Brasileira, Coordenador do Núcleo de Estudos da Criança e do Adolescente do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Email: necauesb@yahoo.com.br

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Estratégia ou desrespeito?

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Cláudio Falcão

O quê estamos assistindo? O quê mais veremos? A impunidade ultrapassa o respeito com a vida, com o ser humano. Assistimos constantemente um ou outro representante legal, advogado, buscando e escarafunchando justificativas legais para livrar seus clientes de crimes hediondos, que até mesmo um leigo no assunto jurídico se espanta.

Isso, no mínimo, anda de mãos dadas com a falta de respeito ao ser humano, única “Raça” que realmente raciocina segundo afirma a ciência. Talvez no campo inusitado haja outra “Raça” de animal que raciocina também, além dessa, mas por enquanto somente o ser humano, reconhece a ciência em suas afirmações.

Pois bem, é daí é que nasce o nosso assunto. Você se lembra da jovem advogada Carolina Menezes Cintra Santos, de 28 anos, que morreu em acidente de trânsito na madrugada do dia no dia 9 de julho, em São Paulo, em um cruzamento do Itaim Bibi, colidindo com um veículo em alta velocidade que a colheu e destruiu seu carro veio a provocar sérios ferimentos na moça que morreu em seguida?

Pois bem, este acidente deixou bem claro que a alta velocidade que o condutor do veículo veloz, um Porche, provavelmente não permitiu que este desviasse do veículo da pobre jovem advogada, vitimada pela irresponsabilidade e quiçá outras coisas que por uma razão ou outra, deixaram de ser observada pela competente e sempre eficaz Polícia Civil de são Paulo, mas quem sabe o “CSI” (Seriado Norte Americano) ainda o faça, ou o “Kojac”, antes de acabar mastigando o pirulito, ou ainda o “Steven Seagal” venha dos EUA ajudar a nossa polícia a resolver, quem sabe?

O fato é que o patrono da causa, por parte do Engenheiro Marcelo Malvio Alves de Lima, de 36 anos, foi informado de que a jovem advogada, sua colega por coincidência, apresentava álcool no sangue, que restou em algum dos pedaços de seu corpo destroçado pela violência do impacto causado pelo veículo conduzido por seu cliente. Impressionante essa colocação, pois como foi feito esse exame de sangue na vítima destroçada pelo impacto? Isso, no mínimo parece mais uma jogada suja do tal advogado de defesa do motorista do Porche, não há outra colocação a fazer.

Mais ainda é a tremenda falta de respeito com a jovem morta em uma atitude impensada e irresponsável desse Engenheiro, o qual se negou a assoprar o bafômetro e também não houve ninguém que o submetesse a uma avaliação clínica no dia, pois ele estava somente tonto e com algumas escoriações, se é que havia mesmo! Ninguém atestou se ele havia ingerido bebidas alcoólicas no dia, apesar de estar claro e mais do que revelado que ele estava em um bar antes do acontecido, será que ele tomava “Leite B” para ficar fortinho?

O fato é um só, seu advogado, muito inteligente e competente, agora está querendo indiciar a jovem que conduzia o outro veículo como sendo a única culpada por tudo, pois ela, segundo aponta os laudos da perícia, tinha dois e qualquer coisa de álcool no sangue, enquanto ele, o condutor da Porche, ninguém pode determinar grau nenhum de alcoolismo, pois além dele se negar a soprar o tal de bafômetro, ainda seu advogado não permitiu que fizessem avaliações sanguíneas e nem clínicas, pois foi rápido no gatilho, sabe-se lá o calibre que usou para dar esse tiro?

Bem, fica aqui mais uma indignação com referência a esse tipo de crime, que já passou da hora do Congresso Nacional se levantar e tomar uma decisão legal, legislando a respeito, com seriedade e sem abrir caminhos para uma coisa dessas, aqui escancarada, só não vê quem não quer.

Pessoas “Do bem” e “De bem” nada temem quando as leis endurecem e punem os canalhas e hipócritas de plantão, vagabundos e espertalhões que se aproveitam das leis aleijadas e capengas que perambulam pelos códigos ultrapassados que formam o nosso ordenamento jurídico, nossas vias de apoio legal, que deveriam realmente ajudar a manter o certo, o verdadeiro, a razão e principalmente a JUSTIÇA!

Fonte: G1 – Globo.com - 07/10/2011 20h31 - Atualizado em 07/10/2011 20h42

Claudio Falcão é Radialista.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Exportações de commodities em tempos de crise

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Ângela Cristina Tepassê

A balança comercial brasileira vem obtendo saldo positivo desde 2000, sendo que as importações cresceram mais do que as exportações a partir de 2006. Ou seja, o superávit está em trajetória decrescente desde então.

Se, de um lado, o fôlego das exportações brasileiras tem sido sustentável, por outro, as importações têm avançado a taxas expressivas. Tendência marcante é que as vendas externas de bens de maior valor agregado vêm perdendo seu dinamismo,enquanto as commodities ganharam espaço.

A ascensão da China como importadora de commodities brasileiras tornou a balança comercial superavitária mesmo em períodos de crise nos Estados Unidos ou na União Europeia. Depois do superávit positivo de US$ 2,4 bilhões em 2003 – que representou 10% do seu superávit total -, o Brasil passou a ter resultados cada vez menores, invertendo-se o saldo a partir de 2007, até chegar a um déficit comercial com a China de US$ 3,5 bilhões em 2008 (início da crise), e um superávit de US$ 5,1 bilhões em 2009 (ano de crise) – representando 20,0% do superávit total.

Parecia, portanto, que em períodos de crescimento da economia brasileira, as importações provenientes da China cresciam muito mais rápido do que as exportações destinadas a este país e, em momentos de desaceleração, como o Brasil é exportador de commodities, e num contexto de forte queda do produto industrial, ocorria o contrário, as exportações aumentavam e as importações se retraiam (BARBOSA & TEPASSÊ, 2009).

Entretanto, os dados somados até agosto de 2011 mostram que mesmo com a retomada do crescimento econômico brasileiro o superávit com esse país permanece crescendo é já representa 40,6% do total do saldo brasileiro (25,7% em 2010, ano fechado).

A pauta de exportações do Brasil para a China é concentrada em dois produtos básicos, minérios de ferro e grãos de soja. Em 1996 esses dois produtos somados representavam 13,7% da pauta, já em 2009, essa participação chegou a 67,5%.

Existe ainda, um terceiro produto que vem ampliando participação desde 2004. Se, em 2003, óleos brutos de petróleo representava menos de 0,5%, em 2010 sua participação chegou a 13,2%. Ou seja, existe agora a inserção de um novo produto nessa pauta de exportações concentrada.

Juntos, os três produtos, que tinham participação de 13,7% em 1996, chegam a agosto de 2011 representando 79,2% da pauta de exportações para a China (79,7% em 2010, ano fechado).

Se, por um lado, o enorme aumento da presença da China na economia brasileira pode fazer dela a culpada por uma desindustrialização relativa e primarização dapauta de exportações, por outro, a China também poderia estar viabilizando a modernização da indústria de transformação brasileira.

De qualquer forma, as duas afirmações devem ser levadas com cautela, pois tudo depende da adaptação do país aos efeitos em cadeia propiciados por esse novo cenário, o que depende da coerência entre as políticas macroeconômicas, industriais e tecnológicas.

Ângela Cristina Tepassê é economista, mestre em Economia Política pela PUC-SP e professora das Faculdades Integradas Rio Branco.

domingo, 9 de outubro de 2011

Tá na hora! Tá na hora!

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Marli Gonçalves

É a vida, é bonita. Eu também fico com a pureza da resposta das crianças, como Gonzaguinha cantou. Por mim não teria crescido e tenho dúvidas se, na verdade, não morrerei criança, Plunct Plact Zum

Estou mesmo adorando ver nesses tempos de internet todo mundo virando um pouco mais criança na frente da tela. Se você frequenta alguma rede social deve ter notado que nesses últimos dias grande parte das fotos das pessoas sumiu, dando lugar a figurinhas divertidas e coloridas das memórias de infância de cada um. Tem marmanjo que virou Garibaldo, Tintim, Hommer Simpson e as mulheres viraram fadas e princesas, embora algumas tenham escolhido bruxas como a Madame Min, ou a Maga Patalójika, apropriada para ser a ministra Iriny Patológica, isso sim.

Corri para mudar também. Virei Luluzinha no Twitter e a minha predileta Ariel, a pequena sereia, no Facebook. Na brincadeira também vale usar um avatar (como se chama essa coisa) com uma foto sua, meiga, de quando era criança, gugudadá.

Mas é brincadeira séria, embora nem todo mundo saiba. É forma de se manifestar, parte de uma campanha virtual contra a violência infantil, que aproveita a data que está aí, 12 de outubro. Datinha, aliás, engraçada: vale por três ou mais. É feriado por causa de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. Poderia ser folga também, mas não é, por causa do Descobrimento da América. E tem também o tal Dia da Criança, mas essa data foi inventada só para vender. Primeiro, por um deputado nos anos 20; depois ressuscitada nos anos 60 para vender produtos Johnson & Johnson, brinquedos Estrela e bebês rosáceos, branquinhos e gordinhos.

Se o Brasil fosse um país sério - calma...Não é! - a data ganharia a partir deste ano mais uma boa lembrança. Seria o dia em que milhões e milhões de brasileiros em todo o país sairam às ruas marchando céleres e serelepes contra a corrupção, em um protesto que há dias vem circulando com chamadas pela rede. Mas por que eu tenho dúvidas se isso ocorrerá? Talvez por já não ser mais criança e nem acreditar em Papai Noel.

Talvez porque conheça a malemolência de nossa gente, que já viu situação muito pior ainda do que está e fica, e não fez nada - durante bons 20 anos - digamos, tão volumoso a ponto de virar marca. Que me lembro, as últimas das melhorzinhas foram os encontros pelas Diretas-Já! Cobri o movimento, lembro bem, e tinha um tom festivo, no melhor sentido, o de felicidade, as pessoas se davam as mãos em uma única direção. Depois disso só vi grandes ajuntamentos nas paradas gays e religiosas.

As pessoas, como as crianças, precisam brincar, se divertir, ver o lúdico da vida. E esta manifestação que está convocada agora, ao contrário, está chata, mal humorada, cinza, sem cara, sem lenço e sem documento. Ela realmente seria um sucesso se cada um dos bilhões de e-mails passados e repassados ao ponto se materializasse de verdade em gente nas ruas.

Mas, amigos, é dia santo, feriado, meio da semana, faz calor, o tempo está seco, não sabemos se pode levar o cachorro, se a polícia vai bater, se vai ter corrupto infiltrado, se põe boné ou não, se levo vassoura ou rodo, se vai ter jogo do timão ou dos timinhos, o que vai passar na televisão na sessão da tarde (o protesto será às três da tarde), onde almoçar, etc.

Estamos muito esquisitos. E, como crianças, inclusive, treinando bullyng na escolinha, grudando chicletes nos cabelos uns dos outros, pondo cascas de banana no caminho. Eu digo que você é feio. Alguém responde mais feio é você que não está falando do tempo do FHC. Eu digo que o governo está extrapolando. Outro pentelhinho vem falar sobre o fim dos miseráveis (onde?onde?). Eu digo que você gosta de lua e estrela; você diz que sou tucano, canarinho, periquito.

Estamos um país tutelado como uma criança. A verdade é que estamos todos nos tratando uns aos outros como crianças e isso está escorrendo para a política. Temos uma mamãezona rigorosa no poder, saindo para trabalhar, enquanto papai bonzinho Lula vai viajar. Temos uns primos que metem a mão na cumbuca e uns tiozinhos da hora. Temos umas senhoras de Santana - com a diferença que parece que estas de hoje estudaram um pouquinho - se metendo até na programação de tevê, em prol da "defesa da dignidade", o novo nome do que elas acham que é moral ou bons costumes.

Nosso vocabulário também está ficando tatibitati, pobre, com poucos termos. Estamos sempre indignados. É indignado isso. Indignado aquilo. Quantas vezes você ouviu essa palavra nos últimos dias?

Diga se não seríamos mais felizes se voltássemos de verdade à infância, mesmo que por momentos, junto com as imagens que trocamos nos perfis das redes sociais. Diga se não conseguiríamos maior repercussão. Não precisaria muito, apenas o espírito da coisa.

Ou você vai dizer que nunca foi Frajola atrás do Piu-piu, ou não conhece nenhuma Alice, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho, Luluzinha, Mafalda, Mágico de Oz, Batman, Superman, Simpson, Teletubbie, Bolinha, Peninha, Donald, Patinhas, Margarida, Metralhas, Zorro, Barbie, Cascão, Cebolinha, Monica, Emilia, Narizinho, Pateta, Professor Ludovico, Popeye, Olivia?...

Já pensou todos na mesma história? O Plunct Plact Zum, pode partir sem problema algum.

São Paulo, era uma vez um reino encantado, 2011

Marli Gonçalves é jornalista. Aprendeu a brincar sozinha, construindo os brinquedos que não podia comprar, lendo HQ e assistindo a desenhos animados. Ainda se diverte muito com tudo isso. Só acha que tem é muita gente brincando com os sentimentos dos outros, e isso dá vontade enorme de abrir o berreiro.

sábado, 8 de outubro de 2011

USP/SP, lá também continua um perigo!

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Claudio Falcão

Camila Fernandes da Silva, estudante de Biologia na USP/SP, foi vítima dos “Bonzinhos”, “Coitadinhos” e sabe-se lá do que mais poderão ser tachados os marginais, essa corja de vagabundos e bandidos da pior espécie, que em tentativa de roubo, balearam a jovem estudante, quase a transformando em mais um número na estatística de assassinato por LATROCÍNIO na cidade de São Paulo.

A tentativa de roubo se deu na Av. Politécnica, zona Oeste da capital, ao lado do campus USP – SP, que fica grudadinho a um batalhão da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Só para ilustrar, esse fato se deu bem próximo ao tal “Batalhão da PM”. Para você ter uma idéia de quão ousados estão essa “CORJA DE BANDIDOS”, os quais enfrentam até os policiais armados e treinados. Sabem eles, quantos são aqueles que os protegem, e também detém conhecimento sobre as falhas e ultrapassadas leis que poderiam lhes pesar muito, quando do enfrentamento com a polícia ou na prática de crimes hediondos como vem ocorrendo constantemente.

A ilegalidade está aí, ganhando terreno, enquanto nós, pessoas “Do bem” e “De bem”, continuamos sofrendo e sendo mortos pelos marginais que se proliferam dia a dia.

Quanto à estudante, está internada em estado grave.

Graças a um outro estudante de uma outra universidade, que passava pelo local, ela foi socorrida a tempo, e não perdeu a vida, que certamente se escoaria pelo grave ferimento em seu rosto, provocado pelo disparo criminoso e inaceitável feito por um ou mais ladrões, possivelmente para roubá-la, fato ainda a ser apurado pela investigação da Polícia Civil de São Paulo, outra polícia.

Será que se tivéssemos uma só polícia, com um só pensamento, uma só direção, sendo um corpo só, os crimes não iriam diminuir? A coisa andaria com mais eficácia? O direcionamento para o combate firme e eficaz não seria mais acirrado e mais inteligente? Ficam aí algumas questões, que ainda não tem resposta e não interessam àqueles que poderiam mudar esse estado de coisas e talvez passarem a estudar verdadeiramente uma solução, que melhore mesmo essa caótica e inaceitável situação.

O fato se deu nesta quinta-feira às 18h00. A estudante dirigia um veículo de cor prata o qual foi alvejado por três disparos de arma de fogo.

Isto é inaceitável, temos que nos unir e exigir que essa coisa seja combatida com inteligência e muito rigor, por parte de nossas forças de segurança, sejam elas, municipais, estaduais ou federais. Tem que haver uma forma de se combater o crime hediondos, com a dureza necessária e a frieza legal que estes crimes exigem.

Não se pode passar a mão na cabeça de bandidos que cometem essas ilegalidades gravíssimas, e quando pegos e presos, acabam se dando bem pela fragilidade legal que impera hoje em nosso ordenamento jurídico, ultrapassado e com muitos caminhos legais favoráveis aos diversos atos criminosos, que deveriam ser observados e punidos com muito mais rigor , o que os torna quase verdadeiros imunes à punibilidade.

Nós, pessoas “Do bem” e “De bem” não podemos aceitar essa situação!

Claudio Falcão é Radialista

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pela redução no valor da energia elétrica

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net
Por Ricardo Martins

Não é de hoje que o consumidor brasileiro paga um preço muito alto para ter energia, seja na sua casa, nas empresas, indústrias, hospitais e escolas, entre outros, arcam com os custos elevados pelo fornecimento de eletricidade para suas atividades. Para se ter uma ideia, a média da tarifa final no Brasil é de R$ 341,51 por MWh (megawatt/hora). Conforme levantamento da Consultoria Advisia, a pedido da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), em 2009, o valor da energia elétrica para os brasileiros era maior do que em países como: Canadá, Estados Unidos, Noruega, França e México. Além disso, a pesquisa indica que, no Brasil, o aumento na conta de luz chega a 21,6% ao ano, quando no México é de 12,7% e na Alemanha de apenas 1,2%. Mas será que nós brasileiros pagamos um preço justo para o fornecimento de energia?

Na realidade, deveríamos pagar um valor menor para receber eletricidade na nossa casa ou na nossa empresa, pois 77% da energia produzida no País vêm de usinas hidrelétricas. Este tipo de energia é considerada a mais barata do mundo. Porém, devido aos altos custos na construção e no desenvolvimento de sistemas de transmissão, o governo concede às empresas vencedoras das licitações o direito de cobrar a amortização dos investimentos. Ou seja, o investimento deve ser recuperado com a cobrança de um valor extra nas contas dos consumidores durante 35 anos e, o prazo pode ser prorrogado em até 20 anos, conforme determina a Lei Federal n° 10.848, de 2004.

Mas o que tem acontecido, na verdade, é que as concessionárias fazem lobby na esfera judiciária e política para aumentar o prazo das concessões legais, sem que haja leilões para renovação. Boa parte dos contratos das empresas fornecedoras de energia vence a partir de 2015, sendo que 82% são das linhas de transmissão, 40% são de distribuição e 28% de geração que são das 112 das usinas hidrelétricas.

Para combater esse abuso que lesa o bolso do consumidor, a FIESP - Federação da Indústria do Estado de São Paulo em parceria com o CIESP - Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, está realizando a campanha “Energia a preço justo”, para a qual as entidades estão recolhendo assinaturas com objetivo de que se cumpra a Lei para não permitir a prorrogação das concessões. A adesão pode ser feita pelo site www.energiaaprecojusto.com.br

Para efeitos de cálculo, o valor na comercialização de energia pelas concessionárias é de R$ 90,98 por MWh. Porém, o custo de produção da eletricidade nas hidrelétricas é de apenas R$ 6,80/MWh. O aumento considerado na tarifa, deve-se à inclusão da chamada taxa de amortização de investimentos que corresponde a 75%, além da carga tributária. Tirando o custo de investimentos da construção das usinas, o valor cairia para R$ 20,69, ou seja, uma economia de 77% para o consumidor.

Diante deste cenário, cabe a todos nós cidadãos brasileiros nos unirmos para tentar barrar uma possível prorrogação das concessões, exigindo o cumprimento da lei. Para que ao término dos contratos sejam feitos novos leilões, utilizando o critério de menor tarifa sem a perda da qualidade do serviço.

Com isso, toda a sociedade sairá ganhando, pois segundo estimativa FIESP/CIESP é esperada uma economia de R$ 30 bi ao ano. Já nas tarifas das indústrias a redução seria de 22% a 27% e nas residências a diminuição nas contas chegaria até 24% em uma década, conforme Estudo da FGV - Fundação Getulio Vargas /Abrace.

Pesquisa de amostragem realizada pelo Depecom - Departamento de Competitividade e Tecnologia da FIESP/CIESP comprova o peso do valor cobrado na conta dos cidadãos. Das mil pessoas entrevistadas, 74% delas consideraram o preço cobrado pelo fornecimento de energia muito alto. Já para 87%, das 368 empresas consultadas, o valor pago pelo uso da eletricidade é elevado.

Até quando vamos continuar a pagar uma conta salgada das distribuidoras de energia, que até 2015 terão completado 56 anos de exploração, sendo que o limite legal é de 35 anos prorrogáveis por mais 20 anos? O que esperamos é que se cumpra a Lei, ao invés de aceitar o lobby das concessionárias que alegam motivos falsos como, “não há tempo hábil para realizar leilões” ou que “haverá perda de investimentos no setor” ou “a possibilidade de privatização”, entre outras desculpas para tentar mudar a legislação a seu favor.

Lembre-se: energia tem que ser fornecida a preço justo. Entre no site www.energiaaprecojusto.com.br e assine a campanha. Só a união de todos acabará com mais esse “assalto” em nossas economias.

Ricardo Martins é diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) - Distrital Leste (www.ciespleste.com.br) e diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da FIESP. Também é vice-presidente do SICETEL - Sindicato Nacional das Indústrias de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos. E-mail: linkciespleste@gmail.com.