quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Reflexão Só-Mente

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net


Por Arlindo Montenegro

Sei lá! Cada momento da vida um aprendizado novo está na frente do nariz da cada quem. E parece haver uma fôrça luciferiana agarrando os ombros da gente e conduzindo para olhar as sombras, para o lado misterioso das coisas ocultas, não reveladas do mundo exterior, onde reside o fascínio de toques, cores e sabores. Prazeres ou dores.

O cérebro comanda. Os cérebros saudáveis desde a concepção, estão presentes nas pessoas capazes de fazer escolhas proativas, mantendo-se independentes, livres, afastadas do vozerio circundante. Isto parece acontecer com uma parcela ínfima da população, destacando-se exemplos de pais, mestres, grandes músicos, literatos, dramaturgos, filósofos e alguns cientistas, cuja obra permanece atual, aberta, embora grafada há gerações.

São marcos na história da humanidade carregados de simbolismo e sugerindo os caminhos para uma vida plena, para aceitar o desafio de alimentar-se no mundo exterior com os melhores frutos e sementes, aprender desde cedo a plantar para a coleta do dia porvir com ou sem a presença da gente. É aí que a gente cai do cavalo e cai na tentação de comer dos frutos "proibidos".

Na ânsia de cortar caminho e saber o que a curva esconde, de repente, uma vozinha safada nos diz: "Vai, ultrapassa! Depois da curva é um barato!". A gente atende e cai no atoleiro, imitando os outros, querendo agir como os outros, pensar coletivamente. Ledo engano. Cada um é carente de meditação, auto conhecimento. Mas parece que pouca gente busca conhecer a si mesmo e a propria capacidade jaz inexplorada.

O mundo exterior atrai com armadilhas e diversões, sem que sobre espaço para os exercícios da meditação, do silêncio que leva ao contato com os arquivos mentais interiores, onde residem as emoções que afetam o comportamento da gente. Hoje há um descarte das emoções éticas. E todo o aprendizado da gentileza e do respeito para com o semelhante foi como que esquecido ou desprezado. Gentileza é frescura!!!

Houve tempo em que o aprendizado nos conduzia a ceder o assento num ônibus, às mulheres e mais velhos. Ceder a passagem liberando o lado direito do calçada ao cruzar com mulheres, crianças e velhos. Lavar as mãos antes das refeiçoes e agradecer (a Deus no coração de cada um, ao agricultor, ao Universo) antes de encher a pança. Aquela breve oração antes de adormecer, os propósitos para o dia seguinte. A oração ao despertar no reencontro consigo mesmo... tudo velharia descartada como inútil.

Melhor viver a grande aventura da adrenalina de Ulisses, amarrando-se ao mastro do navio, para ouvir o canto das sereias mesmo tendo que viver condição de porcos à mercê de Circe e seus feitiços. De antemão a gente já sabe que existem variedades, dissonâncias na harmonia universal, que estimulam e levam a experiências maravilhosas, dirigindo de modo lúcido o corpo que nos foi doado, conduzindo-o racionalmente pelas estradas da vida. Mas agora, a moda é a adrenalina, o superhomismo e superbundismo idiota.

A gente sabe quando um pai ou mestre ensina, praticamos e aprendemos mais sobre as capacidades adormecidas. Quando estimulamos áreas do cérebro que nos transportam a estados de consciência criativa e nos habilitam a experimentar a calma e segurança em meio ao desastre ou ruina. Depois de cada tempestade com raios e trovões que parecem lembrar a cada um sua condição microscópica, vem a luz e a brisa acariciante.

Isto acontece no contato com o mundo exterior e é possível experimentar no mundo interior, este desconhecido. Foi objeto durante muito tempo do estudo de religiosos e de bruxos, de homens de ciência e de literatos, músicos e psicólogos. Mas parece que a matriz, a fonte espiritual destes estudos, também foi descartada no ambiente do coletivismo que obriga os viventes a reconhecer como valor apenas o sucesso material.

Poucos podem conhecer Shakespeare, Ibsen, ou Eurípedes que há quase meio século antes da era cristã, utilizava os mitos e símbolos, num teatro agudo e com ensinamentos psicológicos e críticos como em "As Troianas", quando as mulheres "entram em greve" para lembrar que também são membros ativos e vitais na organização da sociedade. Até hoje!

Quem conhece o Edipo Rei de Sófocles ou o teatro de Aristófanes? Quem conhece o libreto das grandes óperas cheias de simbologia, mensagens para um mergulho nas profundezas interiores? Uma parcela mínima de gente tem acesso às fontes de alimentação espiritual, artística ou religiosa. A engrenagem impede o encontro de cada um consigo mesmo e empurra para a amálgama de envolvimentos passageiros, opinião coletiva, massacre do indivíduo.

Ao estado que se configura como poder gigante aterorizador em todas as nações, interessa que o pensamento seja exclusivo de contingentes menores, ínfimos, daqueles que já nascem marcados para dirigir, sem escrúpulos, sem limites, com a visão limitada ao que está diante do nariz, sem importar o quem somos, de onde viemos, porque e para que estamos aqui, para onde vamos.

Quanto mais estúpidificados, maiores contingentes podem ser utilizados como "massa de manobra", como "inocentes úteis", nesta cruzada em que os deuses são banqueiros e os cruzados são adestrados para cavar e cavar em busca do ouro que nada tem de sagrado e espiritual. Fazem-no em troca do pão e do circo que hoje se manifesta na sujeira e baixeza moral de programas de tv que invertem valores, que nem este apresentado como um "zoológico" que induz aos mais baixos e infames comportamentos.

Nosce te ipsum! Foi escrito no templo de Apolo, em Delfos na antiga Grécia. Conhecer-se foi um roteiro desfigurado pelas religiões distorcidas e associadas ao poder. Para os poderosos a liberdade é ameaçadora, mais ainda se fosse um valor dominado e prezado por todos, desde o berço.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Buraco no Muro

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net


Por João Bosco Leal

Pela internet tive acesso a um vídeo realizado pelo repórter Rory O'connor, que mostra a experiência realizada Dr. Sugata Mitra, chefe de pesquisa e desenvolvimento de uma empresa de informática da Índia, a NIIT, cuja paixão já há alguns anos tem sido a de educar crianças pobres principalmente através de sua inclusão digital.

País com mais de um bilhão de habitantes, onde vive um de cada seis habitantes do planeta, possui metade de sua população completamente analfabeta. Só um quarto desta possui acesso a água limpa, e a grande maioria sofre de extrema pobreza.

A mesma Índia, porém, abriga também a sede de algumas empresas de alta tecnologia mais avançadas do mundo.

Transpor a fronteira digital é de extrema importância para o ser humano, diz o Dr. Mitra, e seu objetivo é criar possibilidades para que todos tenham acesso, o que o fez iniciar, em 1999, a experiência que ficou conhecida como "O buraco no muro".

Durante seu trabalho, passando por uma favela em Nova Delhi, o repórter pode ver, na prática, a experiência do Dr. Mitra, que conectou um computador à internet de alta velocidade e o encaixou em um muro, que separava a empresa NIIT de uma favela adjacente, cercado de crianças.

Colocando esse computador à disposição dos moradores da favela, o Dr. Mitra começou a observar o início de seu uso pelas crianças que, curiosas, foram atraídas ao computador e perguntavam se podiam tocá-lo. A resposta dele foi: "está do seu lado do muro", o que, naquele país, significa que pode ser tocado, e então, elas começaram a tocá-lo, e em minutos, sem nenhuma orientação, descobriram como apontar e "clicar". No final do dia já estavam navegando no mundo da internet.

Com essa pequena oportunidade de acesso as crianças que o tocavam aprendiam, sozinhas, os passos rudimentares da linguagem computacional e aqueles que, mesmo sem tocar, tiveram a oportunidade de olhar, também aprendiam.

Um garoto se sobressaiu, usando joguinhos, e já tentava também usar ferramentas diferentes, como a de desenho, ou entrar na internet, visitando o site da Disney. Dias depois esse garoto já contava haver entrado em um site de notícias e lido sobre o Talibã, Bin-Laden, e sobre a existência de uma guerra entre a América e o Talibã.

Esse garoto, que não sabia sequer o que era um computador, havia saltado o que poderia ser descrito como dois ou três mil anos de história da humanidade, em apenas alguns minutos. Observações mais aprofundadas puderam notar também que a auto-confiança daquele menino se firmou muito após ele conhecer, e aprender, sozinho, a utilizar o computador.

Perguntado sobre o que, para ele, era a internet, a resposta foi: "aquilo com o que se pode fazer qualquer coisa". A experiência foi então alastrada por diversos lugares da Índia, sempre nos bairros mais pobres e o resultado foi sempre semelhante, com as crianças aprendendo, sozinhas, a navegar na internet.

Com atitudes simples como esta, de um simples buraco no muro, podemos abrir, para os menos favorecidos, uma enorme porta para o conhecimento, para o mundo e para as oportunidades.

João Bosco Leal é Produtor Rural www.joaoboscoleal.com.br