quarta-feira, 5 de maio de 2010

Infra-estrutura, logística e capacidade de organização de uma Copa do Mundo

Artigo no Fique Alerta – www.fiquealerta.net

Por Marcos Bueno


Estamos às vésperas da Copa do Mundo de 2014. Estamos às vésperas? Mas ainda faltam 4 anos? Sim. Para um evento deste porte, 4 anos são a mesma coisa que 4 dias se compararmos com um evento - como organizar uma palestra ou uma festa qualquer. Ou seja, já está tarde demais para começarem a se mexer.

O jornal O Globo de ontem, 4 de maio, soltou a manchete: “Alerta Vermelho para a Copa no Brasil”. No texto, a Fifa criticava o atraso nas obras nos estádios. A questão que apresento aqui é sobre a infra-estrutura, logística e capacidade de organização de eventos que o Brasil tem para um evento desta dimensão.

Lembro-me da festa demagógica que muitos políticos, dirigentes e empresários (lógico) fizeram durante a campanha para sediar a Copa do Mundo, alegando que o Brasil é um país que sabe organizar festas, confundindo Copa do Mundo com carnaval. Não é só porque o Brasil sabe organizar carnaval significa que saberá organizar uma Copa. Uma festa nem sempre é igual a um evento.

Começaremos pela cultura organizacional. Copa do Mundo não depende somente de estruturas físicas como estádios e hotéis (fatores estes que já são negativos na atual conjuntura). O Brasil antes de qualquer coisa deve saber trabalhar de forma organizada, com funcionários treinados e aptos a atender o nível de serviços exigidos por povos (e não só torcedores) de todo o mundo, com culturas e percepções diferentes de qualidade de serviços.

Até hoje não se vê no Brasil condições propícias sequer para vender ingressos de forma organizada, mínima que seja. As vendas em bilheterias atrasam, geram tumulto e muitas vezes os torcedores não conseguem um mínimo de informação adequada. Mesmo que você diga que o missivista não percebe que a maioria dos torcedores compra os bilhetes com meses de antecedência, vale lembrar que estes compram outros bilhetes (metrô, trem, avião) e que estas também estão sujeitas ao padrão brasileiro de desorganização. Vale lembrar que as poucas empresas que vendem ingressos pela internet sempre dão verdadeiro show de atrasos e confusões.

No quesito hotelaria, a situação já é bastante crítica. A única cidade que atende às condições exigidas pela FIFA é São Paulo, com disponibilidade de 41000 leitos. Agora vamos trabalhar com a hipótese bastante provável de um grupo formado por seleções como Alemanha, México e Japão (só para citar três times) caírem no mesmo grupo sediado em cidades como Cuiabá ou Manaus. A capacidade hoteleira de Cuiabá é por volta de 6700 leitos. A de Manaus é de 4000 leitos, com previsão de 9000 leitos para 2014.

A Alemanha costuma enviar por volta de 32000 torcedores para as copas. Talvez cheguem menos do que isso em 2014. Mas o número de mexicanos que visitam o Brasil todos os anos é por volta de 60000 e os japoneses por volta de 80000. Claro que não teremos este número por aqui na copa do mundo, mas qualquer pequena parcela deste público, somados com algumas poucas dezenas de milhares de alemães já dá para ter a certeza de que poucas cidades teriam condições de receber um grupo como este.

Na parte de infra-estrutura de estádios, a coisa está parada do jeito que vocês lêem na imprensa todos os dias. Mas vamos verificar o nosso histórico e descobriremos que somos craques em elaborar maquetes, mas projeto pronto que é bom, nada.

A maioria dos estádios custará entre R$ 400 e R$ 700 milhões. O Estádio da Fonte Nova, em Salvador, terá que ser totalmente reconstruído, dado que o mesmo desabou em 2007 matando sete pessoas. Em geral, o cronograma adequado para se construir um estádio é de 3 anos, considerando projeto, licitação, aquisição de materiais e construção. Acabamentos e ajustes finais, mais testes levariam um ano.

Isto significa que já estamos com um ano negativo de gerenciamento de projetos. Como estamos falando de praticamente 5 estádios novos e 7 grandes reformas, então o sinal vermelho já acendeu. No caso de Recife, há a necessidade de se erguer todo um bairro no contorno do estádio, pois até a infra-estrutura urbana de suporte é precária na cidade.

Mas se o leitor já está cansado de ler a respeito de deficiências, então levantarei mais algumas, tão graves quanto às anteriores.

Os governos e dirigentes mostram-se preocupados com o transporte urbano. Só se preocupam, pois nada foi feito no sentido de melhorar este gargalo. Não lembrem do Rodoanel, pois o mesmo serve para atender à uma demanda reprimida de cargas rodoviárias, não contemplando nossa necessidade específica da copa do mundo.

O metrô de São Paulo, que é o único com estrutura confiável, se já não comporta mais a demanda urbana do dia a dia, que dirá em uma copa do mundo. É rotina diária o procedimento da cia mandar uma composição vazia lá pelas 7h 30min da manhã com destino à estação Penha, dada a superlotação da estação neste horário. Não adianta o torcedor mais fanático alegar que este não é um horário de jogo, pois já presenciei, em pleno sábado à tarde, diversos atrasos devido à superlotação.

Se o torcedor tiver que contar com o transporte público como ônibus, basta perguntar para qualquer torcedor que toma ônibus na Penha com destino ao estádio do Morumbi e ele dirá em que condições ele é transportado e quanto tempo demora a epopéia. Se você contar com um automóvel, prepare-se para o rally do trânsito e a aventura de deixar seu veículo à mercê de manobristas alternativos informais.

Agora, se o dia em São Paulo for de chuva torrencial, prepare-se, pois talvez você não chegue ao seu destino. Incrível é que este problema não ocorre mais somente em São Paulo. Recentemente cidades como Rio de Janeiro, Salvador e os estados do Paraná e Santa Catarina apresentavam estado de calamidade por causa das chuvas. Percebe-se que a fragilidade nossa é grande.

Para terminar, vou lembrar do apagão aéreo. Basta um aumento qualquer na demanda para que filas enormes sejam formadas nos saguões dos aeroportos e os atrasos surjam normalmente num passe de mágica. Muitos gestores aeroportuários já avisaram que a maioria dos aeroportos brasileiros deveriam ser ampliados em 65%. Mas alguém aqui já ouviu falar ou ver os projetos de ampliação?

Em recente entrevista com o ministro do Esporte Orlando Silva, publicada pelo Estado de São Paulo, percebi que ele estava a par de situações como renúncia fiscal, valores investidos e linhas de financiamento do BNDES. Mas a respeito de ações concretas, só li evasivas e promessas.

Marcos Bueno, formado em Economia e mestre em Engenharia de Produção e especialista em Logística, é Professor universitário.

12 comentários:

Anônimo disse...

Concordo. Mas o que se pode esperar de uma sociedade que nao passa de um rascunho mau feito de uma civilização? Faltou comentar o problemaço da criminalidade. E a FIFA quer fazer duas Copas seguidas no Terceiro Mundo para ter motivos para que as próximas sejam apenas em países ricos.

EDUARDO DEL NEGRO disse...

Muito boasd suas observações. Mas o que se pode esperar de uma sociedade que é um rascunho mau feito de uma civilização? E tem ainda o problemaço da criminalidade. E a FIFA está fazendo duas Copas seguidas no Terceiro Mundo para justificar que as próximas sejam apenas em países ricos.

ღKeyღ ઇ‍ઉ¤ disse...

Parabéns pelo artigo Marcos
pois as criticas são constantes, mas a solução, por parte daqueles que só enxergaram o evento como uma festa é mínima. É esta na hora de todos acordadarem e atentarem a realidade pois o Brasil afinal nem tudo aqui é festa.

Sandra disse...

Artigo brilhantemente elaborado pelo autor que levanta a dificuldade em executar estratégias no qual nosso país está inserido desde longa data. Somos lembrados por ser um povo com muita disposição para festejar e esbanjar alegria, porém somos deficientes em elaborar um plano e colocá-lo em prática.
Gostaria de acreditar que a Copa no Brasil poderá ser realizada com sucesso pelos nossos líderes, sem maiores sacrifícios de um povo que já está tão cansado de um sistema totalmente ineficente.
Sandra Paula Dias

JOSÉ RICARDO disse...

Concordo que temos falta de infraestrutura, porém se conseguimos promover a F1, com um dos circuitos mais seguros acredito que teriamos condição de organizar eventos como tais, seria necessário que tivessemos as mesmas pessoas organizando.
Mas conhecendo bem a FIFA ela não arrisca sua reputação.Teremos a copa a duras penas e mais uma vez ficará esquecido a educação,saúde,etc...

JOSÉ RICARDO disse...

Devido ao tempo ficará difícil, porém a Sra. FIFA, não costuma apostar em vão, então fiquem tranquilos que a copa a duras penas irá acontecer.
Acredito que se tivessemos pessoas sérias no comando seria mais fácil, pois conseguimos organizar um grande evento todo ano como a F1.Apenas lamento que novamente o geverno irá arcar com a maior parte dos custos e a educação,saúde, etc.. ficarão mais uma vez esm sgundo plano.

Renata disse...

Está de parabéns pelo artigo,Marcos.Só gostaria de ressaltar que na realidade o Brasil está muito atrasado,pois o Brasil não tem mais quatro anos para se preparar,mas apenas três.Isso porque , em 2013,o Brasil vai promover a copa das confederações,que será usada como teste para o mundial.

Charles disse...

Em quisitos de qualidade logística, o Brasil é muito deficitário. A exemplo foi o evento da fórmula Indy, onde se via a qualidade asfáltica aplicada. O rodoanel que ao término do trecho sul, já havia necessidade de reformas. No país também de terceiro mundo chamado India, que é muito menor que o Brasil se tem quase que o triplo de extansão em malhas ferroviárias.
Bom digamos que é uma utopia o Brasil conseguir aplicar o que realmente prometeu, detalhe com o triplo do orçamento.

Charles disse...

Em quisitos de qualidade logística, o Brasil é muito deficitário. A exemplo foi o evento da fórmula Indy, onde se via a qualidade asfáltica aplicada. O rodoanel que ao término do trecho sul, já havia necessidade de reformas. No país também de terceiro mundo chamado India, que é muito menor que o Brasil se tem quase que o triplo de extansão em malhas ferroviárias.

Profa. Marina disse...

Parabéns Marcos, excelente artigo e mostra o quanto ainda temos que caminhar.
Profa. Marina Hardt

Paulo disse...

Parabéns...Bueno,
Pela iniciativa,e quem sabe os nossos líderes e governantes se atentem ao seu artigo. Para convidá-lo a participar deste desafio.
Sucesso...

Paulo Izidro

t_nicola disse...

A pouco tempo com a eleição do Brasil p sediar os jogos olimpicos d 2016 s ñ estiver enganado, o ator e comediante norte americano ROBIN WILLIANS falou abertamente em um programa d tv q nós ganhamos por ofertar aos juízes alguns kgs d maconha e algumas stripers brasileiras, fiquei revoltado pelo q ele disse, mas hj vendo como o nosso governo vem tratando destes assuntos, nossa maconha e nossas stripers são d primeira heim........